Conteúdo
- 1 Descubra quem foi Josué na Bíblia: sucessor de Moisés, a travessia do Jordão, Jericó, Raabe, a conquista de Canaã, o sol parado, a aliança em Siquém e como aponta para Jesus Cristo. Estudo bíblico completo.
- 2 1. Quem foi Josué? Nome, tribo e formação
- 3 2. Josué como servo de Moisés: quarenta anos de preparação
- 4 3. O espião fiel: Números 13–14 e o relatório de fé
- 5 4. A comissão divina: “Sê forte e corajoso”
- 6 5. A travessia do Jordão: o segundo Êxodo
- 7 6. Raabe: a prostituta que entrou na linhagem messiânica
- 8 7. A queda de Jericó: estratégia divina contra toda lógica militar
- 9 8. O pecado de Acã: quando o indivíduo afeta a comunidade
- 10 9. A batalha de Ai e a estratégia da emboscada
- 11 10. Os gibeonitas: a astúcia que Josué não discerniu
- 12 11. O sol parado em Gibeão: o milagre mais debatido do Antigo Testamento
- 13 12. A conquista do norte: Hazor e o fim das campanhas militares
- 14 13. A distribuição da terra e as cidades de refúgio
- 15 14. O debate arqueológico: Jericó, Ai e a historicidade da conquista
- 16 15. A renovação da aliança em Siquém: o discurso de despedida
- 17 16. Josué e Jesus Cristo: a tipologia do nome e da missão
- 18 17. Linha do tempo da vida de Josué
- 19 18. Lições da vida de Josué para o cristão de hoje
- 20 19. Versículos importantes sobre Josué
- 21 20. Perguntas frequentes sobre Josué
- 22 21. Conclusão
- 23 Sobre o Autor
- 24 Referências e Indicação de Leitura
Descubra quem foi Josué na Bíblia: sucessor de Moisés, a travessia do Jordão, Jericó, Raabe, a conquista de Canaã, o sol parado, a aliança em Siquém e como aponta para Jesus Cristo. Estudo bíblico completo.
Josué foi um general hebreu, sucessor escolhido por Deus para Moisés, da tribo de Efraim, que conduziu os israelitas através do rio Jordão e liderou a conquista de Canaã, a Terra Prometida, no século XIV ou XIII a.C. Seu nome hebraico Yehoshua significa “O Senhor é salvação”, exatamente o mesmo nome que seria dado ao Messias no Novo Testamento, Yeshua, traduzido como Jesus. Espião fiel que confiou na promessa de Deus quando todos duvidavam, soldado estratégico que conquistou mais de trinta reinos, e líder espiritual que renovou a aliança em Siquém antes de morrer. Josué é uma das tipologias mais ricas e explícitas de Jesus Cristo em todo o Antigo Testamento.
Este artigo apresenta Josué tanto como personagem histórico quanto teológico, tratando com equilíbrio o debate arqueológico sobre a conquista de Canaã, incluindo as questões sobre Jericó e Ai sem endossar posições sensacionalistas, mas reconhecendo que estudiosos sérios e comprometidos com a autoridade das Escrituras sustentam posições diferentes sobre cronologia e extensão da conquista.
Josué é o homem que Moisés não pôde ser: aquele que efetivamente conduziu o povo de Deus para dentro da promessa. Moisés trouxe Israel do Egito até a beira do Jordão, mas não pôde atravessar. Josué atravessou. E nisso, a tipologia já está inscrita: a Lei, representada por Moisés nos traz até a fronteira; mas é Yehoshua — Jesus — que nos conduz para dentro da herança.
A história de Josué está no Livro de Josué em 24 capítulos, com antecedentes em Êxodo 17, Números 13–14 e Deuteronômio 31–34, e com referências no Novo Testamento em Atos 7.45, Hebreus 4.8 e Hebreus 11.30-31. Neste estudo, você vai conhecer quem foi Josué, sua formação como servo de Moisés, a travessia do Jordão, a queda de Jericó, os episódios críticos da conquista, o debate arqueológico sobre o período, a renovação da aliança em Siquém, e como toda a sua vida aponta tipologicamente para Jesus Cristo.

1. Quem foi Josué? Nome, tribo e formação
O nome profético: de Oseias a Josué
O nome original de Josué era Oseias (hebraico: Hoshea, הוֹשֵׁעַ) que significa simplesmente “salvação” ou “ele salva”. Em Números 13.16, ao enviar os doze espiões, Moisés mudou deliberadamente seu nome:
“A Oseias, filho de Num, Moisés chamou Josué.” — Números 13.16 (ACF)
O novo nome Josué (hebraico: Yehoshua, יְהוֹשֻׁעַ) acrescenta o prefixo Yah (abreviação de YHWH) ao radical yasha (salvar), resultando em “YHWH é salvação” ou “O Senhor salva”. A mudança não foi cosmética: foi declaração teológica. A salvação que viria por meio daquele homem não seria obra humana, seria obra de YHWH através de um instrumento humano.
Essa mudança de nome tem ressonância que atravessa os Testamentos: Yehoshua (Josué no AT) → Yeshua (forma abreviada pós-exílica) → Iēsous (transliteração grega) → Jesus (português). O próprio Novo Testamento reconhece essa identidade nominal: em Atos 7.45 e Hebreus 4.8, a Versão King James em inglês traduz o nome de Josué como “Jesus” porque na língua grega em que o NT foi escrito, os dois nomes são literalmente idênticos: Iēsous.
A mudança de nome não foi acidental. Era declaração profética sobre o tipo de liderança que Josué encarnaria.
Tribo, família e origem
Josué era filho de Num (Números 13.8), da tribo de Efraim uma das tribos mais influentes do norte de Israel, descendente de José. Seu nome tribal de Efraim é significativo: Efraim era a linhagem mais honrada dos filhos de José, e José era o arquétipo da providência e da salvação no Antigo Testamento. Josué, o libertador e conquistador, vinha da linhagem do libertador e preservador.
Não há registro de sua data de nascimento. Os dados disponíveis indicam que era jovem adulto durante o Êxodo do Egito, provavelmente entre 20 e 40 anos ao sair, e que morreu com 110 anos (Josué 24.29), a mesma idade de José (Gênesis 50.26) uma correspondência que os comentaristas não consideram acidental.
2. Josué como servo de Moisés: quarenta anos de preparação
O ministro fiel: formação na obscuridade
Josué aparece pela primeira vez na narrativa bíblica em Êxodo 17.9, quando Moisés o designou para combater os amalecitas em Refidim a primeira batalha de Israel no deserto. Josué não havia sido apresentado antes. Simplesmente é chamado como quem já era conhecido e confiável.
Na batalha de Refidim, ocorreu uma das imagens mais carregadas de significado do Antigo Testamento: enquanto Josué combatia no vale, Moisés ficava no alto do morro com as mãos erguidas. Quando as mãos de Moisés se erguiam, Israel prevalecia; quando baixavam, Amalec prevalecia. Arão e Hur sustentavam os braços de Moisés até o pôr do sol, e Israel venceu.
O teólogo Richard Hess (Joshua, Tyndale Old Testament Commentary, 1996) observa que essa divisão de funções já antecipa o padrão que permeará o livro de Josué: a batalha é simultaneamente humana, Josué comanda, e divina, YHWH garante o resultado. A intercessão e a ação formam uma unidade.
Após Refidim, Josué tornou-se o mesharet (מְשָׁרֵת) de Moisés, seu ministro pessoal, assessor e assistente. O termo hebraico implica serviço íntimo e honrado, não servidão servil. Josué estava presente em momentos que nenhum outro israelita experimentou:
- Acompanhou Moisés parcialmente na subida ao Monte Sinai (Êxodo 24.13)
- Guardava a Tenda da Congregação quando Moisés saía para encontrar-se com Deus (Êxodo 33.11)
- Permanecia dentro da Tenda quando Moisés retornava — “não se retirava do interior”
Essas quarenta décadas de aprendizado no deserto, observando como Moisés ouvia Deus, resolvia conflitos, intercedia pelo povo e suportava a murmuração de Israel foram a escola de liderança que preparou Josué para o que viria. O leitor mais atento deve notar que este período de preparação está presente na vida de cada um dos grandes lideres da fé.
3. O espião fiel: Números 13–14 e o relatório de fé
Os doze espiões e o relatório da maioria
Em Números 13, Moisés enviou doze homens, um por tribo, para espiar a terra de Canaã durante quarenta dias. Retornaram com cachos de uva tão grandes que dois homens eram necessários para carregá-los, evidência da abundância da terra. Mas sua avaliação estratégica dividiu o grupo:
O relatório da maioria (10 espiões):
“A terra por onde passamos para espioná-la é terra que devora os seus habitantes; e todo o povo que vimos nela são homens de grande estatura. Também vimos ali gigantes… e nós éramos como gafanhotos aos nossos olhos, e assim éramos aos olhos deles.” — Números 13.32-33 (ACF)
O relatório da minoria (Josué e Calebe):
“A terra por onde passamos para espioná-la é terra sobremodo boa. Se o Senhor se agradar de nós, então nos introduzirá nessa terra e ma dará — terra que mana leite e mel. Tão somente não sejais rebeldes contra o Senhor; e não temais o povo dessa terra.” — Números 14.7-9 (ACF)
A diferença não estava na informação, ambos os grupos viram os mesmos gigantes e as mesmas muralhas. A diferença estava na perspectiva: dez espiões se avaliaram em relação ao inimigo; dois se avaliaram em relação a Deus.
A consequência: quarenta anos no deserto
O povo ouviu a maioria. Note que a democracia nem sempre é a melhor e nem sempre está certa. Chorou a noite toda. Ameaçou apedrejar Josué e Calebe. E declarou querer voltar ao Egito. A resposta de Deus foi drástica: toda a geração dos que duvidaram, exceto Josué e Calebe morreria no deserto. Exatamente quarenta anos no deserto, um ano por cada dia de espionagem (Números 14.34).
Josué e Calebe sobreviveram ao deserto inteiro não porque fossem mais fortes ou mais jovens, mas porque “seguiram plenamente ao Senhor” (Números 14.24; 32.12). A fidelidade de Josué em Cades-Barneia foi a semente de sua vocação como líder da conquista. Quem foi fiel na minoria seria fiel na liderança.
4. A comissão divina: “Sê forte e corajoso”
A transferência de autoridade
Após a morte de Moisés no Monte Nebo, Deus falou diretamente a Josué. O discurso de comissão em Josué 1.1-9 é um dos mais estruturados e teologicamente ricos do Antigo Testamento, e talvez o mais repetido em suas palavras:
“Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não te atemorizes, nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares.” — Josué 1.9 (ACF)
A frase “Sê forte e corajoso” (chazaq ve’amats em hebraico) aparece quatro vezes nos primeiros nove versículos, repetição deliberada que os retóricos chamam de inclusio e anáfora. Deus não estava apenas encorajando Josué: estava reprogramando sua identidade de servo para líder, de auxiliar para comandante.
As três condições da promessa
O discurso estabelece uma conexão explícita entre obediência à Torá e sucesso na missão:
“Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes, medita nele dia e noite, para que guardes e faças conforme tudo o que nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido.” — Josué 1.8 (ACF)
O comentarista David Howard Jr. (Joshua, New American Commentary, 1998) destaca que o sucesso prometido a Josué não era independente de sua fidelidade à Palavra era condicionado por ela. O livro inteiro de Josué pode ser lido como a demonstração dessa tese: quando Israel obedecia, avançava; quando desobedecia (Acã), era derrotado.
5. A travessia do Jordão: o segundo Êxodo
O milagre paralelo ao Mar Vermelho
A travessia do Jordão (Josué 3–4) é deliberadamente estruturada como espelho da travessia do Mar Vermelho sob Moisés, confirmando que YHWH estava com Josué como havia estado com seu predecessor:
| Êxodo (Moisés) | Josué (Jordão) |
|---|---|
| Mar Vermelho dividido | Jordão estancado em Adã |
| Pilares de nuvem e fogo | Arca da Aliança conduzindo à frente |
| Passagem em terra seca | Passagem em terra seca |
| Moisés estendeu o cajado | Sacerdotes adentraram primeiro com os pés |
| Egito aterrorizado após | Nações de Canaã aterrorizadas após (Js 5.1) |
| Israel alimentado com maná | Maná cessou após a Páscoa em Gilgal (Js 5.12) |
O detalhe de que o Jordão estava “nas cheias” (Josué 3.15) seu ponto de maior volume e corrente, intensifica o caráter miraculoso do evento. Não era uma travessia facilitada pelas condições naturais; era uma demonstração soberana do poder de YHWH precisamente nas condições mais adversas.
Os doze pedras memoriais
Deus ordenou que doze homens — um por tribo — pegassem cada um uma pedra do leito seco do Jordão e as erguessem em Gilgal como memorial. A razão era pedagógica e geracional:
“Para que isso sirva de sinal entre vós; e quando, amanhã, vossos filhos perguntarem, dizendo: Que significam para vós essas pedras? então lhes direis que as águas do Jordão se dividiram diante da Arca da Aliança do Senhor.” — Josué 4.6-7 (ACF)
O memorial não era arqueológico, era catequético. Estava lá para gerar perguntas nas gerações seguintes, e as perguntas para gerar transmissão da história da fidelidade divina.
6. Raabe: a prostituta que entrou na linhagem messiânica
A fé mais surpreendente do livro de Josué
Antes da travessia do Jordão, Josué havia enviado dois espiões a Jericó. Eles se hospedaram na casa de Raabe, mulher descrita em hebraico como zanah, prostituta ou hospedeira. Quando o rei de Jericó mandou prendê-los, Raabe os escondeu no telhado sob feixes de linho.
Sua declaração de fé é extraordinária por vir de uma cananeia:
“Eu sei que o Senhor vos deu esta terra, e que o terror de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores desta terra desfaleceram por causa de vós. Porque ouvimos que o Senhor secou as águas do Mar Vermelho… e o Senhor vosso Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra.” — Josué 2.9-11 (ACF)
Raabe acreditou no relatório do que Deus havia feito, o mesmo que a geração do deserto havia ouvido e recusado crer. Uma prostituta gentia e cananeia teve mais fé do que os israelitas que viram as pragas e o Mar Vermelho dividido. Um número incontável viu e não creu, uma mulher não viu, mas ouviu e creu.
O cordão escarlate: tipologia da redenção
Como sinal de proteção, os espiões ordenaram que Raabe pendurasse um cordão escarlate na janela, o mesmo lado por onde os havia baixado com uma corda. Qualquer membro de sua família dentro da casa seria poupado; quem saísse seria responsável por si mesmo.
A tipologia é amplamente reconhecida pelos Pais da Igreja e pelos comentaristas reformados: o cordão escarlate vermelho lembra o sangue do cordeiro pascal sobre as vergas das portas no Egito, e ambos prefiguram o sangue de Cristo como sinal de proteção do julgamento divino. Clemente de Roma (séc. I d.C.) já identificava essa conexão em 1 Clemente 12, tornando-a uma das mais antigas tipologias cristológicas registradas fora do cânon bíblico.
Raabe na linhagem de Jesus
O Novo Testamento confirma que Raabe foi salva e integrada a Israel e, mais ainda, que está na genealogia messiânica. Mateus 1.5 lista “Salmão gerou Boaz de Raabe” colocando a ex-prostituta cananeia na linha direta que leva de Abraão a Jesus Cristo. O autor de Hebreus 11.31 a lista no Salão da Fé: “Pela fé, Raabe, a meretriz, não pereceu juntamente com os que foram desobedientes, tendo recebido os espias em paz.”
Raabe é o testemunho mais radical do livro de Josué: a graça de Deus não conhece fronteiras étnicas, morais ou religiosas. A única condição é a fé que age.
7. A queda de Jericó: estratégia divina contra toda lógica militar
O plano que nenhum general humano inventaria
A ordem de Deus para a conquista de Jericó (Josué 6) é a mais anticonvencional de toda a literatura bélica do Antigo Oriente Próximo:
- Marchar ao redor da cidade uma vez por dia durante seis dias, em silêncio
- Sete sacerdotes com sete trombetas de chifre de carneiro (shofar) marchando à frente da Arca
- No sétimo dia, marchar sete vezes ao redor da cidade
- Ao soar longo da trombeta, o povo gritaria e as muralhas cairiam
Do ponto de vista militar, o plano era absurdo. Não havia escadas, aríetes, catapultas ou estratégia de assédio convencional. Era uma declaração teológica: a conquista de Canaã não seria obra do poderio militar israelita, seria obra de YHWH, o Guerreiro Divino, combatendo por Seu povo.
O padrão do sete — seis dias mais o sétimo dia de perfeição — ecoa a estrutura da criação. Assim como Deus completou a criação no sétimo dia, a vitória de Jericó seria completada no sétimo. A conquista da terra era, em linguagem simbólica, uma nova criação.
O cherem: a consagração total
Jericó foi colocada sob cherem (חֵרֶם) — a “proibição” ou “consagração total” a Deus. Todo ser vivo seria morto; todos os metais preciosos iriam para o tesouro do Senhor; nada poderia ser tomado como espólio pessoal. O cherem era o reconhecimento de que a vitória pertencia inteiramente a Deus Israel era instrumento, não proprietário.
A única exceção foi Raabe e sua família, pois o cordão escarlate marcava sua casa como protegida.
8. O pecado de Acã: quando o indivíduo afeta a comunidade
A derrota inexplicável em Ai
Imediatamente após a glória de Jericó, Israel sofreu uma derrota humilhante na pequena cidade de Ai (Josué 7). Os espias haviam reportado que Ai era insignificante, bastaria enviar dois ou três mil homens. Israel enviou três mil e fugiu diante dos defensores de Ai, com trinta e seis baixas.
Josué prostrou-se diante da Arca em angústia: “Ah! Senhor Deus, por que fizeste passar este povo o Jordão, para nos entregares nas mãos dos amorreus, e nos destruíres? Quem dera nos tivéssemos contentado em ficar além do Jordão!” (Josué 7.7, ACF)
A resposta divina foi imediata e diagnóstica: “Israel pecou.” Alguém havia violado o cherem de Jericó, tomando para si o que havia sido consagrado a Deus. A culpa não era apenas individual afetava o povo inteiro: “Israel não poderá resistir diante de seus inimigos… porque se tornou anátema; não estarei mais convosco, se não destruirdes o anátema do vosso meio.” (Josué 7.12, ACF)
A identificação e o julgamento de Acã
Por processo de sorte diante de todo Israel, a culpa recaiu sobre Acã, da tribo de Judá. Josué lhe concedeu a oportunidade de confessar voluntariamente e Acã confessou com palavras que se tornaram um estudo clássico sobre a progressão do pecado. Provavelmente Tiago o irmão do Senhor utilizou este mesmo caso na sua formulação da ação do pecado em Tiago 1:12-15:
“Vi entre os despojos um manto babilônico formoso, e duzentos siclos de prata, e um lingote de ouro de cinquenta siclos de peso; cobicei-os e os tomei; e estão escondidos debaixo da terra, no interior da minha tenda.” — Josué 7.21 (ACF)
- Vi → Cobicei → Tomei → Escondi → o resultado é a morte física.
A mesma sequência de Gênesis 3.6:
- Eva viu → agradável → desejou → tomou → o resultado é a morte espiritual.
A estrutura do pecado não muda através dos séculos. Acã, sua família e seus bens foram levados ao vale de Acor e apedrejados. O julgamento é duro ao olhar moderno, mas o texto de Josué 7 estabelece que a violação do cherem não era apenas desobediência individual: era traição pactual que comprometia toda a missão do povo de Deus. Charles Spurgeon pregando sobre Acã o pecador, afirmou que nós o veremos no céu, pois sua confissão foi fie, e por ser fiel, estava envolta em arrependimento genuíno.
9. A batalha de Ai e a estratégia da emboscada
Após o julgamento de Acã, Deus ordenou nova investida contra Ai desta vez com uma estratégia militar convencional e astuta: uma emboscada (Josué 8). Josué posicionou uma força de trinta mil homens em emboscada atrás da cidade durante a noite. Com o restante do exército, simulou um ataque frontal e subsequente retirada, atraindo os defensores de Ai para fora das muralhas. Quando a cidade ficou desguarnecida, a emboscada atacou de trás.
O contraste entre Jericó e Ai é deliberado: em Jericó, Deus forneceu a estratégia sobrenatural; em Ai, Deus forneceu a vitória, mas Josué usou sua inteligência militar. A soberania divina não elimina a responsabilidade e a competência humana, trabalha através delas.
10. Os gibeonitas: a astúcia que Josué não discerniu
O erro de Josué: consultar sem orar
Os gibeonitas (Josué 9) ouviram o que havia acontecido com Jericó e Ai, e optaram pela diplomacia em vez do combate. Disfarçaram-se de viajantes de terra distante com roupas rasgadas, sandálias remendadas, odres velhos e pão mofado e foram a Josué pedir um tratado de paz.
Josué e os príncipes de Israel investigaram superficialmente e firmaram o tratado. O texto registra o problema em uma frase:
“E os homens de Israel tomaram do seu mantimento; porém não consultaram ao Senhor.” — Josué 9.14 (ACF)
Quando três dias depois a verdade veio à tona Gibeão era vizinha, não distante, o tratado já era legalmente vinculante. Israel não podia matá-los sem violar um juramento feito em nome de YHWH. Os gibeonitas se tornaram servidores perpetuos “cortadores de lenha e tiradores de água” para o santuário, uma solução que preservou os dois lados do compromisso, embora às custas do engano inicial.
O episódio dos gibeonitas é um dos mais pedagogicamente ricos do livro: o líder mais fiel pode ser enganado quando age sem orar. A competência estratégica sem discernimento espiritual é vulnerável à manipulação.
11. O sol parado em Gibeão: o milagre mais debatido do Antigo Testamento
O contexto: Josué defendendo os aliados
Quando os cinco reis amorreus formaram coalizão para punir Gibeão por ter feito paz com Israel, os gibeonitas apelaram a Josué. Ele marchou a noite toda desde Gilgal e surpreendeu os amorreus em Gibeão. Deus lançou sobre eles grandes pedras do céu (barad — granizo ou meteoros), matando mais do que a espada israelita.
Mas a batalha ainda não estava concluída quando o sol começou a declinar. E Josué orou:
“Sol, detém-te em Gibeão, e tu, lua, no vale de Aijalom. E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou dos seus inimigos.” — Josué 10.12-13 (ACF)
O texto acrescenta: “E não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, em que o Senhor ouvisse assim a voz de um homem; porque o Senhor pelejava por Israel.” (Josué 10.14, ACF)
O debate exegético: o que aconteceu?
Este é um dos textos mais debatidos do Antigo Testamento. As principais interpretações incluem:
- 1. Milagre literal: O sol e a lua pararam o movimento real por um dia inteiro. Deus sustentou a rotação da terra ou operou um milagre local de percepção. Posição de John Bright, Kenneth Kitchen e a maioria dos comentaristas conservadores. O texto afirma explicitamente que “não houve dia semelhante” linguagem que sugere singularidade absoluta.
- 2. Prolongamento da luz: O sol permaneceu visível por mais tempo do que o normal possivelmente por refração atmosférica intensa associada à tempestade de granizo. O efeito prático (luz para combater) seria o mesmo sem necessidade de interrupção da rotação terrestre. Posição de alguns estudiosos conservadores como Robert Hubbard Jr.
- 3. Cessação do calor: O hebraico dom (usado para “deter”) pode significar “silenciar” ou “cessar”. Alguns estudiosos, como John Walton (IVP Bible Background Commentary, 2000), propõem que Josué pode ter pedido que o sol “cessasse” seu calor escaldante não que parasse de se mover, talvez em contexto de eclipse ou nuvem densa. O granizo celestial que precedeu sugere condições atmosféricas extremas.
- 4. Linguagem poética: O trecho é citado do “Livro do Justo” (Josué 10.13), que pode ter sido uma antologia de poesia épica. Alguns comentaristas veem a linguagem como hiperbólica e poética, não literalmente descritiva.
Nota editorial: Todas as quatro posições são sustentadas por estudiosos sérios e comprometidos com a autoridade das Escrituras. O ponto de convergência de todas as posições conservadoras é que Deus interveio sobrenaturalmente para garantir a vitória de Israel, a questão é a natureza exata desta intervenção.
12. A conquista do norte: Hazor e o fim das campanhas militares
A coalizão do norte e a queima de Hazor
Após a conquista do sul de Canaã, o rei Jabim de Hazor convocou uma grande coalizão dos reinos do norte (Josué 11). Hazor era descrita como “cabeça de todos esses reinos” a cidade mais poderosa da região. O enfrentamento ocorreu junto às águas de Merom.
Deus ordenou a Josué: “Não os temas, porque amanhã a esta hora eu os entregarei todos mortos diante de Israel.” (Josué 11.6, ACF) E acrescentou algo contraintuitivo: os cavalos deveriam ter os jarretes cortados e os carros de guerra queimados as armas militares mais avançadas da época seriam inutilizadas.
A ordem de destruir os cavalos e carros era teológica: Israel não deveria depender de superioridade bélica material. A vitória seria de YHWH, não de tecnologia.
Josué conquistou Hazor e a queimou. A arqueologia confirma que Hazor (Tell el-Qedah, escavado por Yigael Yadin e pela Universidade Hebraica) apresenta uma camada de destruição massiva por incêndio que muitos estudiosos datam do final do Bronze Tardio (c. 1230–1200 a.C.) consistente com o período proposto para a conquista.
13. A distribuição da terra e as cidades de refúgio
A herança de cada tribo
Após as campanhas militares principais, Josué presidiu a distribuição da terra entre as doze tribos de Israel (Josué 13–21). O processo era administrado em Siló, onde o tabernáculo havia sido erguido, e envolvia o lançamento de sorte diante do Senhor, garantindo que nenhuma tribo pudesse acusar outra de parcialidade humana.
- Calebe, companheiro de fé desde Cades-Barneia, recebeu pessoalmente a cidade de Hebrom como sua herança, a promessa feita quarenta anos antes foi cumprida (Josué 14.6-15). “E Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, recebeu a porção em Judá… porque seguiu plenamente ao Senhor Deus de Israel.” (Josué 14.14, ACF)
As seis cidades de refúgio
Deus ordenou a Josué a estabelecer seis cidades de refúgio (Josué 20) três a leste do Jordão e três a oeste, para onde qualquer pessoa que tivesse matado alguém involuntariamente pudesse fugir e aguardar julgamento sem ser perseguida pelo vingador de sangue.
O sistema era uma forma de proteção jurídica preventiva: distinguia entre homicídio intencional, sujeito à pena capital e acidental, sujeito à proteção até o julgamento e a morte do sumo sacerdote. Os teólogos pactuais, especialmente O. Palmer Robertson identificam nas cidades de refúgio uma tipologia de Cristo como o único lugar de proteção para quem busca abrigo do julgamento.
14. O debate arqueológico: Jericó, Ai e a historicidade da conquista

O problema de Jericó
O maior desafio arqueológico ao relato de Josué é a questão de Jericó (Tell es-Sultan). As escavações pioneiras de John Garstang (1930–1936) identificaram uma camada de destruição que ele atribuiu ao período josueíno. Mas as escavações subsequentes de Kathleen Kenyon (1952–1958) concluíram que a cidade estava desabitada no período de c. 1400–1200 a.C. — o que criaria um problema cronológico significativo.
Contudo, o debate não está encerrado. O arqueólogo Bryant Wood (Associates for Biblical Research) publicou em 1990 uma reavaliação da estratigrafia de Kenyon, argumentando que ela havia mal-atribuído a cerâmica do período e que as evidências são consistentes com uma destruição c. 1400 a.C.:
- Uma camada de tijolos queimados ao pé das muralhas, consistente com paredes que desabaram para fora
- Grandes estoques de grãos queimados — indicando que a cidade não foi saqueada (coerente com o cherem)
- Ausência de cerâmica dos saqueadores — coerente com uma cidade incendiada imediatamente
A questão cronológica central é a datação do Êxodo: se ocorreu c. 1446 a.C. (cronologia bíblica literal, 1 Reis 6.1), a conquista de Josué seria c. 1406 a.C. período para o qual Wood e outros argumentam haver evidências em Tell es-Sultan. Se o Êxodo foi c. 1270–1250 a.C. cronologia histórica convencional, a conquista seria c. 1230–1210 a.C. período para o qual as evidências em Jericó são mais problemáticas.
O problema de Ai
A localização de Ai é igualmente debatida. O sítio tradicional (et-Tell) parece ter estado desabitado entre c. 2400 e 1220 a.C. o que criaria problema para ambas as cronologias. Alternativas incluem:
- Kh. el-Maqatir: proposta por Bryant Wood como localização alternativa de Ai, com evidências de ocupação e destruição na Idade do Bronze Tardio
- Bethel como Ai: alguns estudiosos propõem que a Ai de Josué estava associada à vizinha Betel, não ao et-Tell isolado
As evidências favoráveis
Enquanto Jericó e Ai apresentam desafios, outros sítios mencionados no Livro de Josué mostram evidências de destruição coerentes com o período:
- Hazor (Tell el-Qedah): camada de destruição massiva por incêndio, bem documentada (Yigael Yadin, Universidade Hebraica; confirmada por Amnon Ben-Tor)
- Laquis: destruição massiva no final do Bronze Tardio
- Megido: camada de transição Bronze/Ferro compatível com o período
- Zanoá (escavações de 2019–2024): muros de pedra e cerâmica datados de mais de 3.200 anos — consistentes com a cronologia da conquista
A Estela de Merneptah (c. 1208 a.C.) confirma que um povo chamado Israel já existia em Canaã nesse período evidência extrabíblica fundamental de que Israel estava na terra antes do fim do século XIII a.C.
Conclusão do debate: O arqueólogo Kenneth Kitchen (On the Reliability of the Old Testament, 2003) e o teólogo Iain Provan (A Biblical History of Israel, 2015) argumentam que a ausência de confirmação arqueológica em sítios específicos não invalida a historicidade do texto, especialmente quando o debate sobre cronologia permanece aberto. A evidência combinada das estelas, das destruições em Hazor, Laquis e outros sítios, e da Estela de Merneptah, sustenta a plausibilidade histórica geral da narrativa de Josué.
15. A renovação da aliança em Siquém: o discurso de despedida
O último grande ato de Josué
No final de sua vida, com 110 anos, Josué convocou todo Israel a Siquém cidade entre os montes Ebal e Gerizim, onde Abraão havia erguido o primeiro altar em Canaã (Gênesis 12.6-7) e onde Jacó havia comprado terra (Gênesis 33.19). Era o local mais carregado de memória pactual de toda a Terra Prometida.
Ali, Josué pronunciou um dos grandes discursos da Bíblia, uma recapitulação de toda a história redentora de Israel, desde Terá e Abraão até aquele dia (Josué 24.2-13). O discurso terminou com um ultimato:
“E se vos parecer mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem servireis… mas eu e a minha casa serviremos ao Senhor.” — Josué 24.15 (ACF)
A pergunta de Josué não era retórica, era urgente. E o povo respondeu três vezes com a mesma declaração: “Ao Senhor nosso Deus serviremos, e à sua voz obedeceremos.”
Josué registrou as palavras num livro, ergueu uma grande pedra como testemunha sob o carvalho do santuário de Siquém, e a aliança foi renovada. Era o encerramento de um ciclo que havia começado com Abraão naquele mesmo solo.
A morte e o legado
“E Josué, filho de Num, servo do Senhor, morreu com cento e dez anos.” — Josué 24.29 (ACF)
O título dado a Josué na morte — eved YHWH (servo do Senhor) é o mesmo concedido a Moisés (Deuteronômio 34.5). É o mais alto elogio que a literatura histórica hebraica pode conferir a qualquer ser humano. Josué recebeu o mesmo título de seu mestre não por herança, mas por mérito de fidelidade.
16. Josué e Jesus Cristo: a tipologia do nome e da missão
A tipologia entre Josué e Jesus Cristo é a mais explicitamente linguística de todo o Antigo Testamento: os dois têm literalmente o mesmo nome. O Novo Testamento reconhece isso em Hebreus 4.8, onde o autor, ao mencionar o descanso que Josué não foi capaz de dar completamente usa o nome Iēsous para Josué, o mesmo nome de Jesus Cristo.
| Dimensão | Josué | Jesus Cristo |
|---|---|---|
| O nome | Yehoshua = “YHWH é salvação” | Yeshua/Iēsous = “YHWH é salvação” — literalmente o mesmo nome |
| Sucessor da Lei | Josué sucedeu Moisés (a Lei); o que a Lei não completou, Josué prosseguiu | “A lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1.17); Cristo cumpriu a Lei |
| Conduziu à Terra Prometida | Conduziu Israel através do Jordão para a herança física de Canaã | Conduz o povo de Deus ao descanso eterno (Hb 4.8-9); “Vou preparar lugar para vós” (Jo 14.2) |
| Travessia das águas | As águas do Jordão se abriram para a entrada na herança (Js 3) | O batismo como passagem para a nova criação; “quem nele crê não perece” (Jo 3.16) |
| Raabe: a meretriz salva pelo sinal | O cordão escarlate salva Raabe e sua família do julgamento (Js 2.18-21) | O sangue de Cristo como sinal que salva do julgamento eterno (Hb 9.14; Ap 12.11) |
| O Príncipe do Exército do Senhor | O “Príncipe do Exército do Senhor” apareceu a Josué (Js 5.13-15) — identificado como cristofania | Jesus como o Capitão da salvação (Hb 2.10); o Guerreiro Divino (Ap 19.11-16) |
| Nenhum inimigo resistiu | “Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua vida” (Js 1.5) | “As portas do inferno não prevalecerão” contra a Igreja (Mt 16.18) |
| Distribuiu a herança | Josué distribuiu a terra entre as tribos — cada um recebeu sua porção | “Vou preparar lugar para vós” (Jo 14.2); herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo (Rm 8.17) |
| O descanso incompleto | Josué deu descanso parcial — “porque Josué não lhes dera o descanso” (Hb 4.8) | Cristo é o único que pode dar o descanso pleno (Hb 4.9-10): “Vinde a mim… e eu vos darei descanso” (Mt 11.28) |
| A aliança renovada | Renovou a aliança em Siquém antes de morrer (Js 24) | Instituiu a Nova Aliança na Última Ceia antes de morrer (Lc 22.20) |
O “Príncipe do Exército do Senhor”: a cristofania de Josué 5
Antes da queda de Jericó, Josué encontrou um homem com espada desembainhada (Josué 5.13-15). Ao ser interrogado sobre de que lado estava, respondeu: “Não; mas sou Príncipe do exército do Senhor, e vim agora.” Josué prostrou-se e adorou. O Príncipe ordenou: “Tira a sandália do teu pé, porque o lugar em que estás é santo” as mesmas palavras ditas a Moisés na sarça ardente.
Que um ser receba adoração de Josué sem repreensão, e ordene a mesma reverência dada na presença de Deus indica que este “Príncipe” é divino. A maioria dos exegetas conservadores identifica a figura como o Anjo do Senhor em aparição pré-encarnada de Cristo uma cristofania que confirmou a Josué que não era ele o verdadeiro comandante da conquista. Era YHWH.
17. Linha do tempo da vida de Josué
| Período | Evento | Referência |
|---|---|---|
| c. 1486 a.C. | Nascimento de Josué, da tribo de Efraim, filho de Num | — |
| c. 1446 a.C. | Êxodo do Egito; Josué lidera batalha contra Amalec em Refidim | Êx 17.8-13 |
| c. 1446 a.C. | Recebe novo nome: de Hoshea para Yehoshua (Josué) | Nm 13.16 |
| c. 1445 a.C. | Um dos doze espiões enviados a Canaã; relatório de fé com Calebe | Nm 13–14 |
| 1445–1406 a.C. | Quarenta anos no deserto como servo de Moisés | Nm–Dt |
| c. 1406 a.C. | Morte de Moisés; comissão divina a Josué: “Sê forte e corajoso” | Js 1 |
| c. 1406 a.C. | Espiões enviados a Jericó; aliança com Raabe e o cordão escarlate | Js 2 |
| c. 1406 a.C. | Travessia milagrosa do Jordão; doze pedras memoriais em Gilgal | Js 3–4 |
| c. 1406 a.C. | Circuncisão em Gilgal; Páscoa; cessação do maná | Js 5.1-12 |
| c. 1406 a.C. | Aparição do Príncipe do Exército do Senhor | Js 5.13-15 |
| c. 1406 a.C. | Queda de Jericó — sete dias, sete voltas, trombetas e grito | Js 6 |
| c. 1406 a.C. | Derrota em Ai por causa de Acã; julgamento e morte de Acã | Js 7 |
| c. 1406 a.C. | Vitória em Ai com a emboscada; renovação da Lei no Monte Ebal | Js 8 |
| c. 1405 a.C. | Engano dos gibeonitas; tratado feito sem consultar Deus | Js 9 |
| c. 1405 a.C. | Batalha de Gibeão; o sol parado; conquista do sul de Canaã | Js 10 |
| c. 1400 a.C. | Coalizão de Hazor; conquista do norte; Hazor incendiada | Js 11 |
| c. 1399–1390 a.C. | Distribuição da terra entre as tribos; cidades de refúgio | Js 13–21 |
| c. 1375 a.C. | Renovação da aliança em Siquém; discurso de despedida | Js 24.1-28 |
| c. 1375 a.C. | Morte de Josué com 110 anos; sepultado em Timnat-Sera | Js 24.29-30 |
18. Lições da vida de Josué para o cristão de hoje
- Quarenta anos de preparação não são desperdício. Josué passou quatro décadas como servo antes de liderar. A obscuridade do ministério de apoio servir fielmente sem protagonismo é frequentemente a escola que prepara para o protagonismo responsável. Deus não desperdiça nenhuma estação de formação.
- A minoria que confia em Deus tem mais discernimento do que a maioria que calcula pelo olho. Em Cades-Barneia, dez espiões eram majoritariamente corretos na avaliação tática e completamente errados na avaliação teológica. A pergunta não é “o inimigo é grande?” mas “Deus é maior que o inimigo?”
- Medite na Palavra dia e noite — e aja de acordo. O sucesso prometido a Josué era condicionado à meditação e obediência à Torá. A palavra hebraica para “sucesso” (sakal) nesse contexto implica agir com sabedoria e discernimento não prosperidade automática, mas competência orientada pela revelação divina.
- Não tome decisões importantes sem consultar a Deus. O episódio dos gibeonitas foi o maior erro de Josué — e ocorreu precisamente quando ele agiu sem orar. A competência estratégica sem discernimento espiritual é vulnerável à manipulação.
- O pecado individual tem consequências coletivas. O pecado de Acã afetou a batalha de toda Israel. A visão bíblica da comunidade é orgânica, não apenas agregada: o que um membro faz afeta o corpo inteiro. Responsabilidade individual e responsabilidade comunitária são inseparáveis.
- Escolha hoje a quem servireis. A pergunta de Josué em Siquém “escolhei hoje a quem servireis” não admite abstençâo. A não-escolha é em si uma escolha. E o modelo de Josué “eu e a minha casa serviremos ao Senhor” começa com a decisão pessoal e familiar antes de qualquer apelo coletivo.
19. Versículos importantes sobre Josué
“Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não te atemorizes, nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares.” — Josué 1.9 (ACF) — A comissão divina que define toda a liderança de Josué: a coragem não vem do líder, mas de Quem o envia.
“Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes, medita nele dia e noite.” — Josué 1.8 (ACF) — O segredo da liderança bem-sucedida: enraizamento na Palavra de Deus.
“Eu sei que o Senhor vos deu esta terra… porque o Senhor vosso Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra.” — Josué 2.9, 11 (ACF) — A declaração de fé de Raabe: a confissão mais surpreendente do livro.
“E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou dos seus inimigos… não houve dia semelhante a este.” — Josué 10.13-14 (ACF) — O milagre mais singular da história de Josué: YHWH combatendo por Israel de forma sem precedente.
“E se vos parecer mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem servireis… mas eu e a minha casa serviremos ao Senhor.” — Josué 24.15 (ACF) — O versículo mais citado do livro de Josué; o desafio de lealdade que ecoa em cada geração.
“Pela fé, caíram as muralhas de Jericó, depois de terem sido rodeadas por sete dias.” — Hebreus 11.30 (ACF) — O Novo Testamento enquadra a conquista de Josué como obra da fé — não da estratégia militar.
20. Perguntas frequentes sobre Josué
Quem foi Josué na Bíblia?
Josué foi o sucessor de Moisés, da tribo de Efraim, que conduziu os israelitas à travessia do Jordão e liderou a conquista de Canaã a Terra Prometida. Seu nome hebraico Yehoshua significa “O Senhor é salvação” o mesmo nome de Jesus no Novo Testamento. Espião fiel que confiou em Deus quando os demais duvidavam, conquistou mais de trinta reinos, distribuiu a terra entre as doze tribos, e renovou a aliança em Siquém antes de morrer com 110 anos.
Por que Josué e Jesus têm o mesmo nome?
Porque são literalmente o mesmo nome em línguas diferentes. Yehoshua (hebraico do AT) foi abreviado para Yeshua no período pós-exílico. Os tradutores da Septuaginta (versão grega do AT) o transliteraram como Iēsous a mesma forma usada no Novo Testamento para Jesus Cristo. A conexão não é coincidência: Josué é uma das tipologias mais ricas de Jesus, e o nome compartilhado é o sinal mais explícito dessa relação.
Como caíram as muralhas de Jericó?
A narrativa de Josué 6 descreve que Israel marchou ao redor de Jericó uma vez por dia durante seis dias, com sacerdotes tocando trombetas de chifre. No sétimo dia, marcharam sete vezes, e ao som longo da trombeta todo o povo gritou e as muralhas desmoronaram. Hebreus 11.30 classifica explicitamente a queda das muralhas como obra da fé. O debate arqueológico sobre Tell es-Sultan (Jericó) permanece aberto, com estudiosos como Bryant Wood argumentando que as evidências são consistentes com uma destruição c. 1400 a.C.
Quem foi Raabe e por que ela é importante?
Raabe era uma mulher de Jericó (descrita como prostituta ou hospedeira) que escondeu os dois espiões israelitas, confessou fé em YHWH e recebeu proteção pelo cordão escarlate pendurado em sua janela. Foi poupada quando Jericó foi destruída, integrou-se a Israel, e aparece na genealogia de Jesus em Mateus 1.5. Hebreus 11.31 a coloca no Salão da Fé. Sua história é o testemunho mais radical do livro: a graça de Deus alcança qualquer pessoa que crê, independente de origem ou passado.
O que foi o pecado de Acã?
Acã, da tribo de Judá, tomou para si um manto babilônico, prata e ouro dos despojos de Jericó que estavam sob cherem (consagração total a Deus). Esse ato individual causou a derrota de Israel em Ai. Sua confissão revela a progressão clássica do pecado: “vi, cobicei, tomei, escondi” (Josué 7.21) a mesma sequência de Gênesis 3. Acã e sua família foram julgados no vale de Acor.
Por que Josué é uma tipologia de Jesus Cristo?
Porque o próprio Novo Testamento estabelece a conexão: o nome é o mesmo; Hebreus 4.8 afirma que o “descanso” que Josué não completou é o que Jesus oferece; Josué conduz ao descanso na terra física enquanto Jesus conduz ao descanso eterno. Os paralelos estruturais incluem: condutor do povo para a herança prometida, abertura das águas para entrada na terra, destruição dos inimigos do povo de Deus, distribuição da herança, e renovação da aliança antes da morte.
21. Conclusão
Josué é o líder que fez o que Moisés não pôde: atravessou o Jordão, entrou na promessa, distribuiu a herança. E ao fazer isso, ele viveu sem saber completamente como a sombra antecipada daquele cujo nome carregava: Yehoshua apontava para o Yeshua que viria.
Mas o livro de Josué também é honesto sobre o que a conquista não completou. A terra foi possuída, mas não integralmente. Os inimigos foram derrotados mas não todos. O descanso foi dado, mas não definitivamente. Hebreus 4.8 registra essa incompletude com precisão: “Porque, se Josué lhes tivesse dado o descanso, Deus não falaria de outro dia depois desse.”
O descanso de Josué era real e insuficiente. Como toda a Lei, toda a conquista, todo o sistema sacrificial do Antigo Testamento: real em sua época, provisório em sua natureza, apontando para o cumprimento definitivo em Cristo.
“Resta, portanto, um repouso para o povo de Deus.” — Hebreus 4.9 (ACF)
Josué chegou à beira da promessa e entrou. Mas a promessa que ele habitou era a sombra de uma herança que não tem Jordão a atravessar porque Cristo já a atravessou por nós.
“Mas eu e a minha casa serviremos ao Senhor.” — Josué 24.15 (ACF)
Sobre o Autor
Saiba mais sobre o autor e seu método →
Referências e Indicação de Leitura
SOUZA, Fabiano Queiroz. JOSUÉ: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.
SOUZA, Fabiano Queiroz. ÊXODO: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.
SOUZA, Fabiano Queiroz. NÚMEROS: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.
SOUZA, Fabiano Queiroz. LEVÍTICO: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.
SOUZA, Fabiano Queiroz. DEUTERONÔMIO: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.
Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.
Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida, Edição Corrigida e Revisada Fiel (ACF). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS). Edited by Karl Elliger and Wilhelm Rudolph. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.
Arqueologia e contexto histórico
KITCHEN, Kenneth A. On the Reliability of the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 2003. (Cap. 6: a conquista de Canaã e o debate arqueológico.)
WOOD, Bryant G. “Did the Israelites Conquer Jericho? A New Look at the Archaeological Evidence.” Biblical Archaeology Review, v. 16, n. 2, p. 44–58, 1990.
DEVER, William G. Who Were the Early Israelites and Where Did They Come From? Grand Rapids: Eerdmans, 2003. (Perspectiva crítica sobre a conquista; útil para o debate.)
PROVAN, Iain; LONG, V. Philips; LONGMAN III, Tremper. A Biblical History of Israel. Louisville: Westminster John Knox Press, 2003. (Metodologia equilibrada para avaliar evidências históricas e bíblicas.)
YADIN, Yigael. Hazor: The Rediscovery of a Great Citadel of the Bible. London: Weidenfeld & Nicolson, 1975.
Comentários exegéticos
HOWARD JR., David M. Joshua. The New American Commentary, v. 5. Nashville: Broadman & Holman, 1998. (Comentário evangélico conservador e academicamente robusto.)
HESS, Richard S. Joshua. Tyndale Old Testament Commentaries. Downers Grove: InterVarsity Press, 1996.
HUBBARD JR., Robert L. Joshua. The NIV Application Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 2009.
WOUDSTRA, Marten H. The Book of Joshua. New International Commentary on the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1981.
HAWK, L. Daniel. Joshua. Berit Olam: Studies in Hebrew Narrative & Poetry. Collegeville: Liturgical Press, 2000. (Análise literária e narrativa.)
Teologia bíblica e tipologia
CLOWNEY, Edmund P. The Unfolding Mystery: Discovering Christ in the Old Testament. Phillipsburg: P&R Publishing, 2013.
GOLDSWORTHY, Graeme. According to Plan: The Unfolding Revelation of God in the Bible. Downers Grove: InterVarsity Press, 2002.
ROBERTSON, O. Palmer. O Cristo dos Pactos. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. (Cidades de refúgio como tipologia de Cristo; aliança em Siquém.)
BEALE, G. K. A New Testament Biblical Theology. Grand Rapids: Baker Academic, 2011. (Josué e o tema do descanso em Hebreus 4.)
Dicionários e obras de referência
FREEDMAN, David Noel (ed.). Anchor Bible Dictionary. 6 vols. New York: Doubleday, 1992. (Artigos: “Joshua”, “Jericho”, “Rahab”, “Achan”, “Gibeonites”, “Hazor”, “Cities of Refuge”.)
BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles A. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB). Oxford: Clarendon Press, 1907. (Verbetes: Yehoshua, cherem, dom, chazaq, amats, eved YHWH.)
DOUGLAS, J. D. et al. (eds.). Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2006.Compartilhar
| Conheça os Melhores Livros para Formação e Desenvolvimento do Pregador |
SALVE I COMPARTILHE I SEMEIE
