Conteúdo
- 1 Descubra quem foi Samuel na Bíblia: a oração de Ana, o chamado na noite, o último juiz, a unção de Saul e Davi, a frase ‘obedecer é melhor que sacrificar’ e sua tipologia de Cristo. Estudo bíblico completo.
- 2 Índice
- 3 1. Quem foi Samuel? Nome, origem e linhagem
- 4 2. Ana: a mãe que orou Samuel à existência
- 5 3. A oração de Ana: o cântico que prefigurou o Magnificat
- 6 4. A criança no tabernáculo: crescendo entre a corrupção e a presença de Deus
- 7 5. O chamado na noite: “Fala, Senhor, que o teu servo ouve”
- 8 6. A queda da casa de Eli e a captura da Arca
- 9 7. Samuel como juiz: o circuito de Betel, Gilgal e Mispa
- 10 8. A vitória em Mispá: Ebenezer e a pedra do socorro
- 11 9. O pedido do rei: Israel rejeita a teocracia
- 12 10. A unção de Saul: o primeiro rei de Israel
- 13 11. A ruptura com Saul: “Obedecer é melhor que sacrificar”
- 14 12. A unção de Davi: Deus olha para o coração
- 15 13. A morte de Samuel e a aparição em Endor
- 16 14. Samuel no Novo Testamento: o primeiro dos profetas
- 17 15. A arqueologia do período de Samuel: Siló e a transição
- 18 16. Samuel e Jesus Cristo: a tipologia do profeta-juiz-ungidor
- 19 17. Linha do tempo da vida de Samuel
- 20 18. Lições da vida de Samuel para o cristão de hoje
- 21 19. Versículos importantes sobre Samuel
- 22 20. Perguntas frequentes sobre Samuel
- 23 21. Conclusão
- 24 Sobre o Autor
- 25 Referências e Indicação de Leitura
Descubra quem foi Samuel na Bíblia: a oração de Ana, o chamado na noite, o último juiz, a unção de Saul e Davi, a frase ‘obedecer é melhor que sacrificar’ e sua tipologia de Cristo. Estudo bíblico completo.
Resposta direta: Samuel foi o último dos juízes e o primeiro dos profetas da era monárquica de Israel — a figura de transição entre dois mundos. Filho de Ana, mulher estéril que o pediu a Deus em oração e o consagrou como nazireu desde o nascimento, Samuel cresceu no tabernáculo de Siló sob os cuidados do sacerdote Eli, ouviu a voz de Deus na noite ainda criança, e tornou-se o líder espiritual mais influente de Israel entre c. 1080 e 1010 a.C. É ele quem unge o primeiro rei (Saul), declara sua rejeição, e unge o segundo (Davi). Atos 3.24 e 13.20 o reconhecem como o inaugurador da linha profética que preparou o caminho para Jesus Cristo.
Este artigo apresenta Samuel tanto como figura histórica quanto teológica, tratando com equilíbrio o debate acadêmico sobre autoria e composição dos livros de Samuel, e a questão da consulta à feiticeira de Endor. As evidências arqueológicas sobre Siló e o período da transição dos Juízes para a Monarquia são apresentadas com a devida cautela acadêmica.
Samuel é um dos personagens mais únicos da Bíblia por uma razão raramente notada: ele existe na encruzilhada de todos os grandes ofícios sagrados de Israel. Era filho de um levita — com sangue sacerdotal. Foi dedicado como nazireu — com vida separada a Deus. Julgava as tribos como juiz. Falava em nome de Deus como profeta. Ungiu reis como ato supremo de representação divina sobre o poder político. Nenhum outro personagem bíblico exerceu simultaneamente essas cinco dimensões — sacerdote, nazireu, juiz, profeta e ungidor de reis.
A história de Samuel está em 1 Samuel 1–25 e 1 Samuel 28 (com a aparição póstuma na feiticeira de Endor), com referências em 1 Crônicas 26.28, Salmo 99.6, Jeremias 15.1, Atos 3.24, Atos 13.20 e Hebreus 11.32. Neste estudo, você vai conhecer quem foi Samuel, a história de sua mãe Ana, seu chamado na noite, sua liderança como juiz itinerante, os conflitos com Saul, a unção de Davi, e como toda sua vida aponta para Jesus Cristo.
Índice
- Quem foi Samuel? Nome, origem e linhagem
- Ana: a mãe que orou Samuel à existência
- A oração de Ana: o cântico que prefigurou o Magnificat
- A criança no tabernáculo: crescendo entre a corrupção e a presença de Deus
- O chamado na noite: “Fala, Senhor, que o teu servo ouve”
- A queda da casa de Eli e a captura da Arca
- Samuel como juiz: o circuito de Betel, Gilgal e Mispa
- A vitória em Mispá: Ebenezer e a pedra do socorro
- O pedido do rei: Israel rejeita a teocracia
- A unção de Saul: o primeiro rei de Israel
- A ruptura com Saul: “Obedecer é melhor que sacrificar”
- A unção de Davi: Deus olha para o coração
- A morte de Samuel e a aparição em Endor
- Samuel no Novo Testamento: o primeiro dos profetas
- A arqueologia do período de Samuel: Siló e a transição
- Samuel e Jesus Cristo: a tipologia do profeta-juiz-ungidor
- Linha do tempo da vida de Samuel
- Lições da vida de Samuel para o cristão de hoje
- Versículos importantes sobre Samuel
- Perguntas frequentes sobre Samuel
- Conclusão
- Referências bibliográficas
1. Quem foi Samuel? Nome, origem e linhagem
O significado do nome
O nome Samuel (hebraico: Shemuel, שְׁמוּאֵל) é interpretado de duas formas principais pelos estudiosos:
- Shem (שֵׁם, “nome”) + El (אֵל, “Deus”) = “seu nome é Deus” ou “nome de Deus”
- Sha’ul me’El (שָׁאוּל מֵאֵל) = “pedido a Deus” ou “ouvido por Deus”
A segunda etimologia é a mais adotada pelos comentaristas — especialmente porque Ana declara ao desmamá-lo: “Ao Senhor o pedi” (1 Samuel 1.20, ACF). Samuel era literalmente o filho da oração — um homem cujo nome carregava a história de sua origem sobrenatural.
O comentarista David Tsumura (The First Book of Samuel, New International Commentary on the Old Testament, 2007) observa que a ambiguidade etimológica é teologicamente fecunda: Samuel é simultaneamente “ouvido por Deus” (quando Ana orou) e aquele que “ouve a Deus” (quando o Senhor o chama na noite). O nome define tanto sua origem quanto sua vocação.
Linhagem e tribo
Samuel era filho de Elcana, de Ramá (também chamada Ramataim-Zofim ou Ramá de Efraim), das montanhas de Efraim. 1 Crônicas 6.33-38 traça sua linhagem até Coate, filho de Levi — confirmando que Samuel era de descendência levítica, com sangue sacerdotal.
Esse detalhe é teologicamente significativo: Samuel não era apenas um profeta carismático ou um líder tribal. Tinha legitimidade sacerdotal que lhe permitia fazer sacrifícios, presidir atos litúrgicos e ungir reis com autoridade que excedia a de qualquer juiz anterior.
2. Ana: a mãe que orou Samuel à existência
O drama familiar em Ramá
Samuel não começa com Samuel — começa com Ana (hebraico: Channah, חַנָּה — “graça” ou “cheia de graça”). A narrativa de 1 Samuel 1 é uma das mais psicologicamente ricas do Antigo Testamento, começando não com o herói, mas com a mãe que o pediu antes de ele existir.
Elcana tinha duas esposas — prática comum mas problemática no Antigo Testamento. Penina tinha filhos; Ana era estéril. Elcana amava Ana mais e lhe dava porção dupla nos sacrifícios anuais — o que não aliviava sua dor e inflamava o ciúme de Penina, que a “provocava até a irritar” (1 Samuel 1.6, ACF).
O texto descreve uma dinâmica familiar de sofrimento crônico: cada ano, no santuário de Siló, Ana chorava e não comia. Elcana tentava consolar com uma frase que, apesar de bem-intencionada, demonstrava não compreender: “Não te sou eu melhor do que dez filhos?” (1 Samuel 1.8, ACF) — a resposta amorosa mas equivocada de um homem tentando substituir com sua presença o que só Deus poderia dar.
O voto no tabernáculo
Em profunda angústia de alma, Ana entrou no tabernáculo e orou em silêncio — apenas os lábios se movendo, sem voz audível. O sumo sacerdote Eli, vendo-a assim, concluiu que estava embriagada. Quando Ana explicou que estava “derramando sua alma” diante do Senhor, Eli a abençoou.
O voto de Ana é um dos mais solenes das Escrituras:
“Senhor dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva não te esqueceres, e deres à tua serva um filho varão, ao Senhor o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha.” — 1 Samuel 1.11 (ACF)
Três elementos do voto merecem atenção:
“Senhor dos Exércitos” (YHWH Tsavaot): Ana usou um dos títulos divinos mais carregados de poder soberano — o Senhor que comanda os exércitos celestiais. É a primeira ocorrência desse título nos livros de Samuel — e Ana o introduz numa oração de mulher comum, não num contexto militar ou real.
“Se… te lembrares”: Ana não estava barganhando com Deus como igual — estava apelando à fidelidade pactual de YHWH que se “lembra” do Seu povo (cf. Êxodo 2.24).
“Sobre a sua cabeça não passará navalha”: O voto nazireu vitalício — a mesma consagração de Sansão, mas desta vez imposta por uma mãe antes mesmo de o filho nascer. Samuel nasceria separado a Deus antes de poder escolher por si mesmo.
3. A oração de Ana: o cântico que prefigurou o Magnificat
Quando Samuel foi desmamado e entregue ao tabernáculo, Ana não chorou — cantou. O cântico de Ana (1 Samuel 2.1-10) é um dos textos poéticos mais teologicamente densos do Antigo Testamento — e o modelo literário que Maria utilizou como base para o Magnificat (Lucas 1.46-55), com paralelos tão diretos que muitos estudiosos chamam o Magnificat de “o cântico de Ana do Novo Testamento.”
| Cântico de Ana (1 Sm 2) | Magnificat de Maria (Lc 1) |
|---|---|
| “O meu coração se alegra no Senhor” (v.1) | “A minha alma glorifica ao Senhor” (v.46) |
| “Não há santo como o Senhor” (v.2) | “Santo é o seu nome” (v.49) |
| “O arco dos poderosos se quebrou” (v.4) | “Dispersou os soberbos” (v.51) |
| “Os fartos se alugam por pão” (v.5) | “Encheu de bens os famintos” (v.53) |
| “O Senhor… levanta o pobre do pó” (v.8) | “Exaltou os humildes” (v.52) |
| “O Senhor dará força ao seu Rei” (v.10) | “Para socorrer Israel” (v.54) |
O teólogo Gordon Wenham e a exegeta Phyllis Trible identificam no cântico de Ana o padrão da inversão divina que caracteriza toda a história bíblica: o forte é humilhado, o fraco é exaltado, o estéril produz vida. O que aconteceu com Ana é microcosmo do que Deus faz na história.
A conclusão do cântico é profética: “O Senhor dará força ao seu Rei e exaltará o poder do seu Ungido” (1 Samuel 2.10, ACF). A palavra “Ungido” em hebraico é Mashiach — Messias. Ana cantou sobre o Messias antes que a monarquia existisse em Israel. Seu filho se tornaria o fazedor de reis — e pelo filho que faria, a promessa messiânica avançaria.
4. A criança no tabernáculo: crescendo entre a corrupção e a presença de Deus
O contexto de Siló: beleza e corrupção simultâneas
Samuel cresceu em Siló (Khirbet Seilun na arqueologia moderna) — o santuário central de Israel onde a Arca da Aliança havia permanecido desde os dias de Josué. Escavações conduzidas pelo arqueólogo Israel Finkelstein da Universidade de Tel Aviv em Khirbet Seilun revelaram que o sítio foi uma importante cidade da Idade do Ferro I (c. 1200–1050 a.C.), com evidências de destruição massiva por incêndio consistente com o período em que os filisteus capturaram a Arca — corroborando o contexto de 1 Samuel 4.
Samuel crescia em um ambiente de profunda contradição: o tabernáculo era o lugar mais sagrado de Israel, e os sacerdotes encarregados de servi-lo — Hofni e Finéias, filhos de Eli — eram corruptos de maneira específica e documentada:
- Tomavam a carne dos sacrifícios antes mesmo de ser queimada a gordura (1 Samuel 2.13-14) — violação direta da lei levítica
- Praticavam imoralidade com as mulheres que serviam à entrada do tabernáculo (1 Samuel 2.22)
O texto registra a resposta de Deus ao quadro: “O menino Samuel crescia e ia adquirindo favor tanto diante do Senhor como diante dos homens.” (1 Samuel 2.26, ACF) — as mesmas palavras que Lucas 2.52 usará sobre Jesus aos doze anos no Templo. Samuel era a vida saudável e crescente no meio da instituição moribunda.
Eli: o sacerdote que amava os filhos mais do que a Deus
O sumo sacerdote Eli não era mau — era fraco. Ele sabia do que seus filhos faziam e os repreendeu verbalmente (1 Samuel 2.23-25) — mas não os removeu do cargo nem os disciplinou efetivamente. A acusação divina contra Eli é precisa:
“Por que hollaste nos meus sacrifícios… e honraste os teus filhos mais do que a mim?” — 1 Samuel 2.29 (ACF)
A falha de Eli não foi de crença, mas de coragem pastoral. Ele sabia a vontade de Deus — e não a aplicou onde mais custaria. É o padrão do líder que ama a Deus em teoria e ama a família acima de Deus na prática.
5. O chamado na noite: “Fala, Senhor, que o teu servo ouve”
O contexto da escassez profética
O narrador de 1 Samuel 3 estabelece o contexto com uma frase que explica a necessidade urgente do que está prestes a acontecer: “A palavra do Senhor era preciosa naqueles dias; não havia visão frequente.” (1 Samuel 3.1, ACF)
O mundo espiritual de Israel estava em silêncio. Não havia profetas activos, não havia visões regulares, não havia palavra fresca de Deus ao povo. Era o nadir da vida espiritual nacional — e nesse vazio, Deus escolheu falar a uma criança.
O chamado que precisou de três tentativas
Samuel ouviu seu nome chamado na noite três vezes — e três vezes correu até Eli, pensando que era o sacerdote que o chamava. Eli — a princípio — também não reconheceu o que estava acontecendo. Somente na terceira vez o texto diz: “Eli entendeu que o Senhor chamava o menino.” (1 Samuel 3.8, ACF)
Eli então instruiu Samuel sobre como responder à voz de Deus — e nessa instrução, o sacerdote corrupto que havia falhado em tantas coisas fez algo fundamental: ele não competiu pela atenção de Deus com seu sucessor. Ensinou Samuel a receber o que ele mesmo havia deixado de buscar.
A resposta que Samuel foi instruído a dar — e que deu — tornou-se uma das declarações vocacionais mais citadas da Bíblia:
“Fala, Senhor, que o teu servo ouve.” — 1 Samuel 3.9 (ACF)
A primeira palavra profética que Deus deu a Samuel foi também a mais dura que Samuel já ouviria: julgamento sobre a casa de Eli. O menino foi chamado não para uma missão glamorosa, mas para anunciar o fim de um sacerdócio corrupto — começando com o homem que havia sido seu guardião.
De manhã, Samuel hesitou em contar a Eli. O sacerdote insistiu: “Não me ocultes nada.” E Samuel contou tudo. A resposta de Eli foi a mais madura de sua vida: “É o Senhor; faça o que bem lhe parecer.” (1 Samuel 3.18, ACF) — talvez a única afirmação de submissão genuína que o texto registra do velho sacerdote.
A confirmação profética
O texto conclui com uma das mais completas afirmações de autoridade profética do Antigo Testamento:
“E Samuel cresceu, e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. E todo o Israel, desde Dã até Berseba, soube que Samuel era estabelecido profeta do Senhor.” — 1 Samuel 3.19-20 (ACF)
“Nenhuma das suas palavras deixou cair em terra” — todas as profecias de Samuel se cumpriram. Esse era o critério de Deuteronômio 18.22 para distinguir o verdadeiro profeta do falso. Samuel qualificou-se completamente.
6. A queda da casa de Eli e a captura da Arca
A derrota catastrófica
O julgamento profetizado chegou em forma de guerra. Os filisteus derrotaram Israel em Afeca — e Israel cometeu o erro teológico mais grave possível: trouxeram a Arca da Aliança para o campo de batalha como se fosse um talismã mágico. Os anciãos disseram: “Tomemos conosco do Siló a arca da aliança do Senhor… para que venha entre nós e nos salve da mão de nossos inimigos.” (1 Samuel 4.3, ACF)
A teologia subjacente era pagã: os deuses são objetos que se carregam para garantir vitória. Mas YHWH não é um objeto a ser manipulado — é o Soberano a ser obedecido. A consequência foi dupla e devastadora: Israel foi derrotado com trinta mil mortos, Hofni e Finéias morreram, e a Arca foi capturada pelos filisteus.
Quando a notícia chegou a Siló, Eli — noventa e oito anos, cego e gordo — caiu da cadeira, quebrou o pescoço e morreu. E a nora de Eli, ao dar à luz um filho naquele dia de desastre, nomeou-o Icabode — “A glória se foi de Israel.” (1 Samuel 4.21, ACF)
A destruição de Siló nesse período é arqueologicamente documentada. As escavações de Israel Finkelstein em Khirbet Seilun mostram uma camada de destruição massiva por fogo datada do século XI a.C. — consistente com o abandono do santuário após a captura da Arca. O profeta Jeremias citou essa destruição como aviso: “Fazei o que fiz a Siló” (Jeremias 7.14) — provando que a memória do colapso de Siló permanecia viva séculos depois como exemplo do julgamento divino sobre o culto corrompido.
7. Samuel como juiz: o circuito de Betel, Gilgal e Mispa
A liderança itinerante
Após a morte de Eli, Samuel emergiu como o líder espiritual e judicial de Israel — mas seu modelo de liderança era completamente diferente dos juízes militares anteriores. Em vez de comandar exércitos, Samuel percorria um circuito anual de três cidades: Betel, Gilgal e Mispa — julgando Israel em cada uma delas e depois retornando à sua casa em Ramá, onde também julgava.
“E julgou Samuel a Israel por todos os dias da sua vida. E ia todos os anos em volta, a Betel, e a Gilgal, e a Mispa; e julgava a Israel em todos esses lugares.” — 1 Samuel 7.15-16 (ACF)
O historiador John Bright (A History of Israel, 2003) descreve esse circuito itinerante como uma forma de administração judicial descentralizada — um sistema inovador que levava a justiça às regiões periféricas, funcionando como uma espécie de tribunal ambulante. Cada cidade do circuito tinha significado histórico e religioso próprio: Betel era o lugar da visão de Jacó; Gilgal era onde Josué havia erguido o memorial de doze pedras; Mispa seria o local das grandes assembleias nacionais.
O caráter íntegro documentado pelo próprio Samuel
No discurso de despedida de 1 Samuel 12, Samuel fez algo raro na liderança bíblica: convidou o povo a testemunhar contra ele se havia agido de forma corrupta durante seu juizado:
“Respondei contra mim diante do Senhor e diante do seu ungido: de quem tomei o boi? De quem tomei o jumento? A quem defraudei? A quem oprimi? De cuja mão tomei suborno para cegar os meus olhos com ele? E eu vo-lo restituirei.” — 1 Samuel 12.3 (ACF)
A resposta do povo foi unânime: “Não nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem da mão de alguém tomaste coisa alguma.” A integridade de Samuel era verificável publicamente — em contraste direto com seus filhos, a quem havia nomeado juízes em Berseba e que “não andavam nos seus caminhos, mas se inclinavam para a avareza, e aceitavam subornos, e pervertiam o direito.” (1 Samuel 8.3, ACF)
8. A vitória em Mispá: Ebenezer e a pedra do socorro
A batalha espiritual antes da batalha militar
Quando os filisteus ameaçaram Israel reunido em Mispa, o povo pediu a Samuel: “Não cesses de clamar ao Senhor nosso Deus por nós.” (1 Samuel 7.8, ACF) Samuel ofereceu um cordeiro como holocausto e clamou por Israel — e enquanto Samuel oferecia o sacrifício, o Senhor trovejou com grande estrondo sobre os filisteus, os confundiu, e Israel os derrotou.
Samuel então ergueu uma pedra memorial entre Mispa e Sen, chamando-a Ebenezer (אֶבֶן הָעֵזֶר):
“Até aqui nos ajudou o Senhor.” — 1 Samuel 7.12 (ACF)
Ebenezer significa “pedra do socorro” — eben (pedra) + ezer (socorro, a mesma raiz de ezer kenegdo, a “auxiliadora idônea” de Rute). A pedra não celebrava a habilidade militar de Israel — celebrava a fidelidade de YHWH. Era um monumento à memória de que a vitória não vinha da força humana, mas do Deus que troveja por Seu povo.
9. O pedido do rei: Israel rejeita a teocracia
O momento mais politicamente tenso da vida de Samuel
Quando Samuel envelheceu e seus filhos se revelaram corruptos, os anciãos de Israel fizeram um pedido que o texto qualifica cuidadosamente:
“Dá-nos agora um rei que nos julgue, como têm todas as nações.” — 1 Samuel 8.5 (ACF)
O pedido atingiu Samuel como rejeição pessoal — e Deus corrigiu essa leitura: “Não te rejeitaram a ti, mas a mim.” (1 Samuel 8.7, ACF) O povo não estava pedindo por um líder mais competente que Samuel. Estava pedindo para ser “como todas as nações” — renunciando à sua identidade singular como povo governado diretamente por YHWH.
Samuel não cedeu em silêncio: obedeceu a Deus atendendo ao pedido, mas primeiro apresentou ao povo o “direito do rei” — uma lista das consequências que um governo monárquico traria:
- Os filhos seriam recrutados para o exército e para o trabalho agrícola do rei
- As filhas seriam tomadas como cozinheiras e perfumistas
- Os melhores campos, vinhas e olivais seriam confiscados
- Um décimo de tudo seria tributado
- “E clamará então ao Senhor por causa do vosso rei que vós mesmos escolhestes; e o Senhor não vos ouvirá naquele dia.” (1 Samuel 8.18, ACF)
O povo ouviu tudo — e respondeu: “Não! Teremos um rei sobre nós.” A advertência profética foi ignorada. O povo queria o que queria independentemente do que custaria.
O exegeta V. Philips Long (The Reign and Rejection of King Saul, 1989) descreve esse episódio como “a tensão central de toda a narrativa de Samuel”: como um homem de Deus administra a vontade de Deus dentro de um sistema que está se afastando de Deus. Samuel não se tornou amargo nem negligente — continuou servindo fielmente ao Deus que o havia chamado, mesmo dentro de uma estrutura que havia mudado ao redor dele.
10. A unção de Saul: o primeiro rei de Israel
A escolha que parecia perfeita
Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim, era o candidato visualmente mais convincente ao cargo de rei: “não havia entre os filhos de Israel homem mais formoso do que ele; da altura dos seus ombros para cima sobrepujava a todo o povo.” (1 Samuel 9.2, ACF)
O encontro com Samuel foi providencialmente orquestrado: Saul saiu procurar asnos perdidos do pai e encontrou o profeta de Deus. Um dia antes, Deus havia dito a Samuel: “Amanhã, a esta hora, enviar-te-ei um homem da terra de Benjamim.” (1 Samuel 9.16, ACF)
Samuel ungiu Saul em privado com óleo, o beijou e declarou: “Porventura, não te ungiu o Senhor por capitão sobre a sua herança?” (1 Samuel 10.1, ACF) Depois, convocou Israel a Mispa — e pelo processo do lançamento de sorte, Saul foi apontado publicamente. Mas ao ser procurado, descobriu-se que ele estava “escondido entre a bagagem” (1 Samuel 10.22, ACF) — primeiro sinal de ambivalência de um homem que nunca foi totalmente confortável com o poder que recebeu.
11. A ruptura com Saul: “Obedecer é melhor que sacrificar”
Dois episódios de desobediência — dois julgamentos
A rejeição de Saul pelo Senhor não ocorreu de uma vez — foi um processo de duas etapas:
Primeira desobediência (1 Samuel 13): Saul esperou sete dias por Samuel em Gilgal antes de uma batalha contra os filisteus. No sétimo dia, sem ver Samuel chegar e com o povo dispersando, Saul ofereceu ele mesmo o holocausto — função reservada ao sacerdote. Samuel chegou logo depois e pronunciou a sentença: “Procurou o Senhor um homem segundo o seu coração.” (1 Samuel 13.14, ACF) — a primeira referência ao homem que substituiria Saul.
Segunda desobediência (1 Samuel 15): Deus ordenou a Saul destruir completamente os amalecitas — povo, gado, tudo. Saul destruiu o povo — mas poupou o rei Agague e o melhor do gado, argumentando que o gado seria usado como sacrifício.
Quando Samuel encontrou Saul, o rei declarou que havia cumprido a ordem. Samuel respondeu com a pergunta que desmonta a racionalização religiosa de toda a desobediência:
“Acaso tem o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura dos carneiros.” — 1 Samuel 15.22 (ACF)
A teologia de 1 Samuel 15.22: o mais importante ensinamento sobre adoração do Antigo Testamento
Essa declaração de Samuel é um dos textos mais citados e mais mal compreendidos do Antigo Testamento. Não está dizendo que o sistema sacrificial era desnecessário — está dizendo que o ritual sem obediência é vazio e até ofensivo a Deus.
Saul havia usado o sacrifício como desculpa para a desobediência — o que é precisamente a forma mais comum de religiosidade falsa: substituir o que Deus realmente pediu (obediência) pelo que parece piedoso (ritual). Os profetas Amós, Isaías, Jeremias e Miquéias repetiriam variações desse mesmo tema ao longo dos séculos seguintes.
O comentarista Robert Bergen (1, 2 Samuel, New American Commentary, 1996) observa que essa passagem antecipa o argumento central do próprio Jesus: “Quero misericórdia, e não sacrifício.” (Mateus 9.13, citando Oséias 6.6). Samuel estava anunciando séculos antes o que Jesus afirmaria como princípio central de Sua missão.
A consequência foi definitiva: “Porquanto tu rejeitaste a palavra do Senhor, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.” (1 Samuel 15.23, ACF)
Samuel então executou Agague — cumprindo ele mesmo o que Saul havia deixado incompleto. E o texto registra o pathos da separação: “Samuel nunca mais viu Saul até o dia da sua morte; porém Samuel se entristecia com Saul.” (1 Samuel 15.35, ACF) O profeta amou o rei que precisou rejeitar — e carregou essa dor pelo resto da vida.
12. A unção de Davi: Deus olha para o coração
O segundo envio de Samuel
Deus tirou Samuel de sua tristeza com uma pergunta e um envio: “Até quando te entristecerás com Saul, pois eu o rejeitei para que não reine sobre Israel? Enche o teu corno de óleo e vai; enviar-te-ei a Jessé, o belemita, porque dentre os seus filhos me provei um rei.” (1 Samuel 16.1, ACF)
Samuel obedeceu — mas com medo real: “Como irei? Saul ouvirá isso e me matará.” (1 Samuel 16.2, ACF) Até os profetas de Deus têm medo. Deus providenciou uma cobertura: Samuel levaria uma bezerra para sacrifício em Belém, o que daria justificativa pública para a visita.
Os sete filhos de Jessé — e o oitavo
Jessé apresentou sete filhos a Samuel — cada um fisicamente impressionante. E a cada um, Deus disse não. Quando Samuel viu o primeiro, Eliabe, de boa aparência, pensou: “Certamente está diante do Senhor o seu ungido.” E Deus respondeu com a frase que se tornaria um dos textos-chave da antropologia bíblica:
“Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura; porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como o homem vê; pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração.” — 1 Samuel 16.7 (ACF)
Depois de sete “nãos”, Samuel perguntou se havia outro filho. Jessé respondeu que havia ainda o menor — que estava guardando as ovelhas. Mandaram buscá-lo.
Davi chegou — ruivo, de formosos olhos, de boa aparência. E desta vez Deus disse: “Levanta-te, unge-o, porque este é.” (1 Samuel 16.12, ACF) Samuel ungiu Davi em meio a seus irmãos — e o Espírito do Senhor se apossou de Davi a partir daquele dia.
A ironia é completa e deliberada: ao ungir Saul, Israel havia escolhido a aparência; ao ungir Davi, Deus escolheu o coração. O critério humano e o critério divino para liderança são opostos.
13. A morte de Samuel e a aparição em Endor
A morte do grande profeta
Samuel morreu antes que os conflitos entre Saul e Davi se resolvessem. O texto o registra com laconismo que ressoa de honra: “Morreu Samuel, e todo o Israel se ajuntou, e o pranteou, e o sepultaram em Ramá, na sua cidade.” (1 Samuel 25.1, ACF) — “todo o Israel” chorou. Que toda uma nação pranteie um único homem é o epitáfio mais eloquente possível.
O episódio da feiticeira de Endor: aparição póstuma
O episódio mais teologicamente perturbador associado a Samuel é sua aparição após a morte (1 Samuel 28). Saul, desesperado antes de uma batalha fatal, procurou a feiticeira de Endor — após ele mesmo ter banido todos os adivinhos e feiticeiros de Israel. A feiticeira evocou uma figura que se identificou como Samuel.
O que Samuel disse confirmou a palavra profética previamente pronunciada: “O Senhor… fez como falou por meu intermédio… O Senhor entregará Israel com os filisteus.” (1 Samuel 28.17-19, ACF)
Os comentaristas se dividem sobre a natureza desse episódio:
Posição 1 — O verdadeiro Samuel apareceu: Deus permitiu, por razão própria, que Samuel voltasse para pronunciar a sentença final sobre Saul. O texto apresenta a figura como Samuel sem qualificação — e o que ele diz é consistente com o que havia profetizado em vida. Posição de Joyce Baldwin (1 and 2 Samuel, Tyndale OT Commentary, 1988) e David Tsumura.
Posição 2 — Foi um demônio disfarçado: A prática de necromancia é explicitamente proibida (Levítico 19.31; Deuteronômio 18.10-12) e, portanto, o que a feiticeira evocou não poderia ter sido o verdadeiro Samuel. O que o “Samuel” disse pode ter sido conhecimento demoníaco baseado nas profecias já pronunciadas. Posição de muitos comentaristas reformados.
Posição 3 — Narrativa literária: O texto registra o que os personagens experimentaram e acreditaram, sem necessariamente afirmar metafisicamente que era o Samuel real. Posição de estudiosos como Walter Brueggemann (First and Second Samuel, Interpretation Commentary, 1990).
14. Samuel no Novo Testamento: o primeiro dos profetas
O Novo Testamento cita Samuel explicitamente em dois contextos que definem seu lugar na história da redenção:
Atos 3.24 (Pedro): “E todos os profetas, desde Samuel e os que se lhe seguiram, todos os que falaram, também anunciaram estes dias.” — Pedro posiciona Samuel como o ponto de partida da cadeia profética que conduzia a Cristo. Samuel não apenas era profeta — era o primeiro dos profetas que apontou para os dias do Messias.
Atos 13.20 (Paulo): “Depois disto, por uns quatrocentos e cinquenta anos, deu-lhes juízes, até ao profeta Samuel.” — Paulo confirma Samuel como o fechamento da era dos Juízes e a abertura da era profética/monárquica.
Hebreus 11.32: Samuel é listado no Salão da Fé ao lado de Gideão, Barac, Jefté, Davi e “os profetas” — como exemplo de quem “pela fé… alcançou promessas” e “foi valente na guerra, fez fugir exércitos estranhos.”
15. A arqueologia do período de Samuel: Siló e a transição
Siló: o santuário confirmado pela arqueologia
Siló (Khirbet Seilun, na atual Cisjordânia) foi sistematicamente escavado por Aage Schmidt (1917, 1922, 1929), Marie-Louise Buhl e Svend Holm-Nielsen (1963), e mais recentemente por Israel Finkelstein e sua equipe da Universidade de Tel Aviv.
As descobertas confirmam:
- Ocupação intensa durante o Ferro I (c. 1200–1050 a.C.) — exatamente o período de Samuel
- Evidências de destruição massiva por incêndio no século XI a.C. — consistente com o abandono após a captura da Arca
- Grandes quantidades de cerâmica do período da Idade do Ferro I, incluindo vasos de armazenamento que poderiam ter sido usados no contexto do santuário
- O sítio nunca foi reocupado como centro religioso após a destruição — coerente com o deslocamento do culto para Nobe e depois para Jerusalém
Finkelstein conclui que a arqueologia confirma que Siló funcionou como um centro regional importante durante o período dos Juízes, com o declínio e abandono ocorrendo exatamente no período descrito em 1 Samuel 4-7.
A Estela de Tel Dan e o contexto monárquico
A Estela de Tel Dan (descoberta em 1993–1994) menciona a “Casa de Davi” — confirmando que a linhagem davídica, inaugurada pela unção de Samuel, foi historicamente significativa o suficiente para ser registrada em inscrições contemporâneas do século IX a.C. Isso sustenta indiretamente a historicidade da transição monárquica narrada nos livros de Samuel.
16. Samuel e Jesus Cristo: a tipologia do profeta-juiz-ungidor
Samuel não é tipicamente listado entre as tipologias diretas de Cristo — mas sua vida apresenta paralelos estruturais que os Pais da Igreja e os teólogos reformados reconheceram consistentemente.
| Dimensão | Samuel | Jesus Cristo |
|---|---|---|
| Nascimento de mãe estéril por oração | Filho de Ana, estéril, concedido por Deus em resposta à oração (1 Sm 1.19-20) | Nascimento de Maria por obra do Espírito Santo — geração sobrenatural (Lc 1.35) |
| Consagrado antes do nascimento | Voto nazireu de Ana antes da concepção (1 Sm 1.11) | “Antes que te formasse no ventre te conheci” (Jr 1.5); Filho desde a eternidade |
| Cresceu no templo | Cresceu no tabernáculo de Siló desde pequeno (1 Sm 2.18) | Aos doze anos, “nos negócios de meu Pai” no Templo (Lc 2.49) |
| “Crescia em favor com Deus e com os homens” | “Samuel crescia e ia adquirindo favor tanto diante do Senhor como diante dos homens” (1 Sm 2.26) | “Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2.52) |
| Profeta, Juiz e Sacerdote simultaneamente | Exerceu os três ofícios simultaneamente — único no AT antes de Cristo | Jesus é o único que cumpre plenamente os três ofícios: profeta, sacerdote e rei/juiz (Hb 1.1-3; 4.14; Ap 19.11-16) |
| O primeiro dos profetas messiânicos | “Desde Samuel todos os profetas… anunciaram estes dias” (At 3.24) | Jesus é o cumprimento de toda a cadeia profética que Samuel inaugurou |
| Ungiu o rei segundo o coração de Deus | Ungiu Davi — o homem segundo o coração de Deus, o tipo mais direto de Cristo no AT | “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17) — o Ungido definitivo |
| Intercessor fiel pelo povo | “Também da minha parte, longe de mim pecar… cessando de orar por vós” (1 Sm 12.23) | “Vivo para sempre, a fim de interceder por eles” (Hb 7.25) — intercessão eterna |
| Repreendeu o poder com a Palavra de Deus | Confrontou Saul com “obedecer é melhor que sacrificar” sem recuar por medo (1 Sm 15.22) | Jesus confrontou os líderes religiosos sem recuar: “Mas eu vos digo…” (Mt 5) |
17. Linha do tempo da vida de Samuel
| Período | Evento | Referência |
|---|---|---|
| c. 1105 a.C. | Nascimento de Samuel em Ramá; filho de Ana e Elcana | 1 Sm 1.19-20 |
| c. 1102 a.C. | Ana entrega Samuel ao tabernáculo de Siló após o desmame; cântico de Ana | 1 Sm 1.24–2.10 |
| c. 1102–1090 a.C. | Samuel cresce em Siló sob os cuidados de Eli; crescia em favor | 1 Sm 2.11-26 |
| c. 1090 a.C. | O chamado na noite: “Fala, Senhor, que o teu servo ouve” | 1 Sm 3.1-21 |
| c. 1085 a.C. | Derrota em Afeca; captura da Arca; morte de Hofni, Finéias e Eli; destruição de Siló | 1 Sm 4 |
| c. 1070 a.C. | Assembleia em Mispa; vitória sobre os filisteus; pedra de Ebenezer | 1 Sm 7.1-14 |
| c. 1070–1050 a.C. | Juizado itinerante: Betel, Gilgal, Mispa e Ramá | 1 Sm 7.15-17 |
| c. 1050 a.C. | Filhos de Samuel corrompidos; povo pede um rei | 1 Sm 8.1-9 |
| c. 1050 a.C. | Encontro com Saul; unção privada em Ramá | 1 Sm 9.1–10.1 |
| c. 1050 a.C. | Confirmação pública de Saul em Mispa | 1 Sm 10.17-27 |
| c. 1045 a.C. | Discurso de despedida de Samuel em Mispa | 1 Sm 12 |
| c. 1040 a.C. | Primeira desobediência de Saul em Gilgal; primeira sentença | 1 Sm 13.8-14 |
| c. 1025 a.C. | Segunda desobediência de Saul (Agague); “obedecer é melhor”; separação definitiva | 1 Sm 15 |
| c. 1025 a.C. | Unção de Davi em Belém entre seus irmãos | 1 Sm 16.1-13 |
| c. 1015 a.C. | Morte de Samuel; “todo o Israel o pranteou”; sepultado em Ramá | 1 Sm 25.1 |
| c. 1010 a.C. | Aparição póstuma na feiticeira de Endor (véspera da morte de Saul) | 1 Sm 28.3-20 |
18. Lições da vida de Samuel para o cristão de hoje
- A oração perseverante de uma mãe pode mudar o curso da história. Ana orou um filho à existência — e esse filho mudou Israel. O impacto de quem você é e do que você faz pode ser precedido décadas pela oração de alguém que amou você antes de você nascer.
- “Fala, Senhor, que o teu servo ouve” é a postura de toda a vida espiritual. Samuel ouviu a Deus na infância porque alguém o ensinou a ouvir (Eli). Aprender a reconhecer a voz de Deus é processo que requer mentoria, prática e disponibilidade — não apenas experiência mística pontual.
- Obedecer é melhor que sacrificar. O princípio mais importante de 1 Samuel 15 é que a religiosidade que substitui a obediência pela performance ritual é a forma mais sofisticada de desobediência. Deus prefere um coração que cede à Sua palavra a uma liturgia elaborada que compensa o que o coração não entregou.
- O Senhor olha para o coração. O critério de Deus para escolher Davi — e para julgar qualquer pessoa — não é aparência, eloquência, estatura ou reputação. É o coração. Isso é simultaneamente consolador (Deus vê o que os outros não veem em você) e exigente (o coração não pode ser performático).
- A intercessão pelo povo é uma responsabilidade, não uma opção. Samuel declarou: “Da minha parte, longe de mim pecar contra o Senhor, cessando de orar por vós.” (1 Samuel 12.23, ACF) Parar de interceder pelo povo era, na visão de Samuel, um pecado. A oração pelos outros não é suplemento opcional da liderança — é sua fundação.
- A integridade verificável é o maior legado de um líder. Samuel desafiou o povo a testemunhar contra ele — e ninguém encontrou corrupção. O legado mais duradouro de qualquer ministério não é o número de batalhas vencidas ou reis ungidos, mas a resposta que o líder pode dar à pergunta: “A quem defraudei? A quem oprimi?”
19. Versículos importantes sobre Samuel
“Fala, Senhor, que o teu servo ouve.” — 1 Samuel 3.9 (ACF) — A declaração vocacional de Samuel; o modelo de toda disponibilidade ao chamado de Deus.
“Até aqui nos ajudou o Senhor.” — 1 Samuel 7.12 (ACF) — Ebenezer: a memória da fidelidade divina como fundamento da confiança futura.
“Não atentes para a sua aparência… porque o Senhor não vê como o homem vê; pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração.” — 1 Samuel 16.7 (ACF) — O mais importante ensinamento sobre o critério de Deus na escolha de líderes.
“Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura dos carneiros.” — 1 Samuel 15.22 (ACF) — A declaração mais importante sobre adoração verdadeira do Antigo Testamento.
“Também da minha parte, longe de mim pecar contra o Senhor, cessando de orar por vós.” — 1 Samuel 12.23 (ACF) — A definição de Samuel da intercessão como responsabilidade inalienável do líder espiritual.
“Todos os profetas, desde Samuel e os que se lhe seguiram, todos os que falaram, também anunciaram estes dias.” — Atos 3.24 (ACF) — Pedro confirmando Samuel como o inaugural da cadeia profética que apontava para Cristo.
20. Perguntas frequentes sobre Samuel
Quem foi Samuel na Bíblia? Samuel foi o último dos juízes e o primeiro dos grandes profetas de Israel — a figura de transição entre o período dos Juízes e a Monarquia. Filho de Ana (mulher estéril que o pediu a Deus em oração e o consagrou como nazireu), cresceu no tabernáculo de Siló, ouviu a voz de Deus ainda criança, julgou Israel com circuito itinerante por décadas, ungiu Saul como primeiro rei, declarou sua rejeição, ungiu Davi, e morreu pranteado por toda a nação. Atos 3.24 o reconhece como o inaugurador da linha profética que apontava para Jesus Cristo.
Por que Samuel foi importante para Israel? Samuel foi importante por múltiplas razões simultâneas: foi o último juiz que manteve a unidade espiritual de Israel; foi o primeiro dos profetas messiânicos (Atos 3.24); foi o único que exerceu simultaneamente os ofícios de sacerdote, juiz, profeta e ungidor de reis; e foi o homem que inaugurou a monarquia davídica pela qual o Messias viria. Sem Samuel, não há unção de Davi; sem Davi, não há linhagem messiânica; sem a linhagem messiânica, não há Jesus como Filho de Davi.
O que significa “obedecer é melhor que sacrificar”? É a declaração de Samuel a Saul em 1 Samuel 15.22, após Saul desobedecer à ordem de destruir completamente os amalecitas e usar o argumento de que o gado poupado seria sacrificado a Deus. Samuel afirmou que Deus não aceita ritual como substituto para obediência — o que Deus pediu foi obediência, e nenhum sacrifício pode compensar a desobediência. Esse princípio é repetido pelos profetas (Amós 5.21-24; Isaías 1.11-17; Miquéias 6.6-8) e por Jesus (Mateus 9.13; 12.7, citando Oséias 6.6).
Quem foi Ana, mãe de Samuel? Ana foi a primeira esposa de Elcana, de Ramá — mulher estéril que foi provocada pela co-esposa Penina durante anos. Em profunda angústia, orou no tabernáculo de Siló com tal intensidade que o sacerdote Eli pensou que estava embriagada. Fez um voto de consagrar o filho como nazireu vitalício a Deus. Deus abriu seu ventre, ela concebeu Samuel, e após o desmame o entregou ao tabernáculo cumprindo o voto — cantando então o Cântico de Ana (1 Samuel 2.1-10), que serviu de modelo literário para o Magnificat de Maria (Lucas 1.46-55).
Samuel ungiu quantos reis? Samuel ungiu dois reis: Saul (da tribo de Benjamim) como primeiro rei de Israel, ungido privadamente em Ramá e confirmado publicamente em Mispa (1 Samuel 10); e Davi (da tribo de Judá) como segundo rei, ungido em Belém entre seus irmãos antes de qualquer posição pública (1 Samuel 16). A unção de Davi estabeleceu a linhagem davídica que culminaria em Jesus Cristo.
O que foi o episódio da feiticeira de Endor? Na véspera da batalha de Gilboa (em que morreria), Saul consultou uma feiticeira em Endor — prática que ele mesmo havia proibido em Israel. A feiticeira evocou uma figura identificada como Samuel, que confirmou a palavra profética previamente dada: a rejeição de Saul e sua morte iminente na batalha. Os comentaristas divergem sobre se era o Samuel real (permitido por Deus), um demônio disfarçado, ou uma experiência interpretada como Samuel pelos personagens. O que é claro é que a mensagem confirmou o que Samuel havia profetizado em vida — a rejeição de Saul foi irreversível.
Samuel está no “Salão da Fé” de Hebreus 11? Sim. Hebreus 11.32 lista Samuel entre os heróis da fé: “E que mais direi? Faltaria o tempo se eu quisesse falar de Gideão, de Baraque, de Sansão, de Jefté, de Davi, de Samuel e dos profetas.” Ele é listado como exemplo de quem pela fé “alcançou promessas”, “foi valente na guerra” e “fez fugir exércitos estranhos” — embora sua grandeza não tenha sido militar, mas espiritual e profética.
21. Conclusão
A vida de Samuel é a vida de um homem que ouviu quando a Palavra de Deus era “preciosa e rara” — e que manteve esse ouvido aberto por toda a vida, mesmo quando o que Deus disse era difícil de transmitir.
Ouviu a sentença sobre a casa de Eli ainda criança. Ouviu o pedido do povo por um rei — e o atendeu mesmo discordando. Ouviu a rejeição de Saul — e a pronunciou mesmo amando o homem que havia ungido. Ouviu o chamado para ungir um pastor de ovelhas ruivo como rei — e obedeceu sem entender o plano completo.
Samuel não fez grandes milagres. Não partiu mares. Não derrubou muralhas. O que fez foi mais raro: ouviu a Deus e disse o que ouviu — na infância, no juizado, diante dos reis, nas horas difíceis.
E por isso, quando Pedro queria descrever a cadeia de profetas que havia preparado o mundo para Jesus Cristo, ele não começou com Isaías ou Elias. Começou com Samuel:
“E todos os profetas, desde Samuel e os que se lhe seguiram, todos os que falaram, também anunciaram estes dias.” — Atos 3.24 (ACF)
O menino que respondeu “Fala, Senhor, que o teu servo ouve” numa noite em Siló iniciou uma corrente de vozes proféticas que foi crescendo, geração após geração, até que a Palavra que havia sido anunciada em fragmentos se tornou carne e habitou entre nós.
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Referências e Indicação de Leitura
SOUZA, Fabiano Queiroz. XXXXX: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.
Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.
Fontes primárias
Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida, Edição Corrigida e Revisada Fiel (ACF). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS). Edited by Karl Elliger and Wilhelm Rudolph. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.
Arqueologia e contexto histórico
FINKELSTEIN, Israel. “Shiloh Yields Some, But Not All, of Its Secrets.” Biblical Archaeology Review, v. 12, n. 1, jan./fev. 1986.
FINKELSTEIN, Israel; BUNIMOVITZ, Shlomo; LEDERMAN, Zvi. Shiloh: The Archaeology of a Biblical Site. Tel Aviv: Tel Aviv University, Sonia and Marco Nadler Institute of Archaeology, 1993.
KITCHEN, Kenneth A. On the Reliability of the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 2003. (Cap. 4: Período dos Juízes e transição monárquica.)
BRIGHT, John. A History of Israel. 4. ed. Louisville: Westminster John Knox Press, 2000.
Comentários exegéticos
BERGEN, Robert D. 1, 2 Samuel. The New American Commentary, v. 7. Nashville: Broadman & Holman, 1996. (Comentário evangélico conservador de referência.)
TSUMURA, David Toshio. The First Book of Samuel. The New International Commentary on the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 2007.
BALDWIN, Joyce G. 1 and 2 Samuel. Tyndale Old Testament Commentaries. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988.
BRUEGGEMANN, Walter. First and Second Samuel. Interpretation: A Bible Commentary for Teaching and Preaching. Louisville: John Knox Press, 1990.
LONG, V. Philips. The Reign and Rejection of King Saul: A Case for Literary and Theological Coherence. Society of Biblical Literature Dissertation Series, 118. Atlanta: Scholars Press, 1989.
Teologia bíblica e tipologia
CLOWNEY, Edmund P. The Unfolding Mystery: Discovering Christ in the Old Testament. Phillipsburg: P&R Publishing, 2013.
GOLDSWORTHY, Graeme. According to Plan: The Unfolding Revelation of God in the Bible. Downers Grove: InterVarsity Press, 2002.
PROVAN, Iain; LONG, V. Philips; LONGMAN III, Tremper. A Biblical History of Israel. Louisville: Westminster John Knox Press, 2003.
Dicionários e obras de referência
FREEDMAN, David Noel (ed.). Anchor Bible Dictionary. 6 vols. New York: Doubleday, 1992. (Artigos: “Samuel”, “Hannah”, “Eli”, “Shiloh”, “Saul”, “Anointing”, “Nazir”.)
BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles A. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB). Oxford: Clarendon Press, 1907. (Verbetes: Shemuel, Channah, Tsavaot, Mashiach, Ebenezer, shama.)
DOUGLAS, J. D. et al. (eds.). Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2006.Compartilhar.
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