95 Teses de Martinho Lutero (1517)

A Disputa Sobre o Poder e Eficácia das Indulgências

As 95 Teses de Martinho Lutero - Rev. Fabiano Queiroz
As 95 Teses de Martinho Lutero – Rev. Fabiano Queiroz

BLOCO DE RESPOSTA RÁPIDA

Nome completoDisputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum (Disputa para a Elucidação do Poder das Indulgências)
Ano31 de outubro de 1517
AutorMartinho Lutero (1483–1546), monge agostiniano e professor de teologia em Wittenberg
Idioma originalLatim; traduzido para o alemão em semanas
Extensão95 teses (proposições para debate acadêmico)
Destinatário originalAlberto de Brandemburgo, Arcebispo de Mainz; o Papa Leão X
Propósito declaradoConvocar um debate acadêmico sobre a doutrina das indulgências e os abusos de sua pregação
Efeito imediatoAs teses se espalharam por toda a Alemanha em duas semanas graças à imprensa de Gutenberg
Significado históricoMarco convencional do início da Reforma Protestante; gerou o processo que levou à excomunhão de Lutero em 1521
TradiçãoLuterana (origem); fundamento de toda a tradição protestante

INTRODUÇÃO HISTÓRICA

O momento histórico: uma crise que vinha de longe

Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero, professor de teologia bíblica na recém-fundada Universidade de Wittenberg, enviou uma carta ao Arcebispo Alberto de Brandemburgo acompanhada de 95 proposições para debate acadêmico. Esse ato administrativo — rotineiro na universidade medieval — desencadeou a maior ruptura do cristianismo ocidental desde o Cisma do Oriente em 1054.

Mas a crise que as 95 Teses expressaram não era nova. Havia pelo menos duas gerações que figuras como João Hus (queimado em 1415) e Jerônimo de Praga clamavam por reforma da Igreja. O que Lutero acrescentou não foi apenas a audácia, foi a imprensa. Quando suas proposições começaram a circular, a tecnologia de Gutenberg fez em duas semanas o que séculos de manuscritos não haviam conseguido: colocar na mão de leitores comuns em toda a Alemanha o argumento de um professor universitário contra o sistema de indulgências.

Para entender por que as 95 Teses explodiram da forma que explodiram, é preciso entender a teia de interesses financeiros e políticos que sustentava o comércio das indulgências um contexto que quase nenhuma apresentação em português explora com a profundidade necessária.

A teia financeira: Albrecht, os Fugger e São Pedro

O estopim imediato das 95 Teses não foi uma questão abstrata de teologia. Foi Johann Tetzel, frade dominicano que pregava indulgências nas proximidades de Wittenberg com um slogan que Lutero considerava uma blasfêmia: “Assim que a moeda no cofre tilintar, a alma do purgatório saltará”.

Por que Tetzel estava ali? A resposta revela uma rede de corrupção que envolve Roma, um arcebispo ambicioso e os maiores banqueiros da Europa.

Alberto de Brandemburgo queria acumular três dioceses simultaneamente Magdeburgo, Halberstadt e Mainz. Isso contrariava o direito canônico, que proibia a pluralidade de bispados. Para obter a dispensa papal, Alberto precisava pagar uma taxa considerável à cúria romana. Ele tomou um empréstimo com a família Fugger, os banqueiros mais poderosos da Europa. O Papa Leão X, que precisava de dinheiro para as obras faraônicas da reconstrução da Basílica de São Pedro, a maior construção da época, um “turbilhão de dinheiro” nas palavras de um cronista contemporâneo chegou a um arranjo: autorizou Alberto a vender uma indulgência especial em seu território por oito anos. Os lucros seriam divididos: metade para o pagamento da dívida com os Fugger; metade para as obras de São Pedro.

Tetzel era o vendedor desse esquema. Ele pregava nas fronteiras do território do Eleitor Frederico, o Sábio protetor de Lutero, porque Frederico havia proibido a venda de indulgências em seus domínios. Mas os paroquianos de Wittenberg cruzavam a fronteira para comprar indulgências e voltavam mostrando-as a Lutero no confessionário, afirmando que não precisavam de penitência porque estavam perdoados. Foi isso que fez o professor agir.

Lutero escreveu ao Arcebispo Alberto não como revolucionário, mas como pastor indignado com o dano espiritual que o esquema causava aos seus fiéis. Não sabia — ou não queria acreditar — que o próprio arcebispo era o beneficiário direto do negócio.

O debate da porta: o que a história realmente sabe

Toda representação visual da Reforma mostra Lutero pregando suas teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg com um martelo, em 31 de outubro de 1517. É uma das cenas mais icônicas da história ocidental. E é também uma das mais questionadas pela historiografia.

Em 1961, o teólogo católico Erwin Iserloh publicou The Theses Were Not Posted (As Teses Não Foram Pregadas), argumentando que a afixação pertence ao domínio da lenda. Seus argumentos são substanciais: o primeiro relato da pregação das teses foi escrito por Philipp Melanchthon que só chegou a Wittenberg em 1518, portanto não foi testemunha ocular. Nenhuma impressão original das teses foi encontrada. A tipografia de Wittenberg havia sido transferida em outubro de 1517 e só retomou os trabalhos em novembro. E o próprio Lutero, em suas cartas e escritos posteriores, descreve o envio das teses ao arcebispo, mas nunca menciona a afixação pública.

Em 2007, um memorando do secretário de Lutero, Georg Rörer, foi descoberto e interpretado por alguns como prova da afixação. Mas verificou-se que Rörer não estava em Wittenberg na data o que enfraquece a evidência.

O estado atual do debate entre os especialistas: a maioria aceita que Lutero certamente enviou as teses ao Arcebispo Alberto em 31 de outubro. Se houve também afixação pública, que era prática universitária normal para convocar disputas acadêmicas, quando exatamente ocorreu e em que condições, permanece incerto. O que nenhum historiador sério questiona é que as teses circularam rapidamente e com efeito explosivo.

A lição teológica do debate historiográfico, apontada pelo próprio Iserloh, é relevante: se não houve o gesto dramático do martelo na porta, o que temos é um professor universitário enviando proposições acadêmicas para seu superior eclesiástico. Isso muda a narrativa de “ato revolucionário” para “petição de reforma interna” o que, ironicamente, corresponde melhor à intenção original de Lutero, que não desejava dividir a Igreja, mas reformá-la por dentro.

As 95 Teses como argumento, não como lista

O maior equívoco na apresentação das 95 Teses em português e em boa parte da literatura popular em inglês é tratá-las como 95 afirmações independentes sobre os abusos das indulgências. Elas não são isso.

As 95 Teses são um argumento progressivo e cuidadosamente estruturado, escrito no formato acadêmico medieval de disputatio proposições para debate, não declarações dogmáticas. O próprio subtítulo original indica isso: Disputa para a Elucidação do Poder das Indulgências. Lutero não estava proclamando; estava convidando ao debate.

A estrutura interna do argumento se organiza em quatro movimentos:

Teses 1–4 — O princípio: A penitência verdadeira é uma disposição interior de toda a vida cristã, não um ato exterior. “Quando nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse ‘Fazei penitência’, quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.” Tudo que segue deriva desse axioma.

Teses 5–29 — A autoridade limitada do papa: O papa tem poder sobre as penalidades canônicas que ele mesmo impôs não sobre as penalidades que Deus impõe. As teses desmontam sistematicamente a pretensão de que indulgências papais podem remitir penas do purgatório.

Teses 30–68 — A ilusão das indulgências: Indulgências não salvam; podem até prejudicar quem nelas confia em vez de confiar em Cristo. A tese 32 é o centro teológico do argumento: “Aqueles que creem ter certeza de sua salvação por causa das cartas de indulgência serão eternamente condenados, juntamente com seus mestres.”

Teses 69–95 — As perguntas dos leigos: Lutero articula as objeções que os leigos fazem e que a Igreja não tem respondido bem — incluindo a pergunta devastadora da Tese 86: “Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior que a dos mais ricos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta basílica de São Pedro, em vez de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?”

Compreender essa estrutura progressiva transforma a leitura do documento: não é uma lista de protestos, mas um argumento que começa pela natureza da penitência, desmonta a autoridade das indulgências, e termina com as vozes dos leigos que a Igreja silenciou.

A disseminação: a primeira “viralização” da história

Um aspecto das 95 Teses quase nunca abordado em português é a velocidade e o mecanismo de sua disseminação — que representa, para os historiadores da comunicação, a primeira “viralização” de um texto na história ocidental.

As teses foram escritas em latim, destinadas a teólogos. Mas em dias foram traduzidas para o alemão e, em duas semanas, cópias impressas circulavam em toda a Alemanha. Em um mês, estavam em Roma. Em dois meses, na Inglaterra e na França.

O veículo foi a imprensa de Gutenberg — tecnologia que existia há setenta anos, mas que nenhum dissidente eclesiástico havia ainda explorado com essa eficácia. Lutero compreendeu rapidamente o que havia acontecido: numa carta de 1518, ele escreveu com espanto que as teses haviam sido “levadas além de qualquer intenção minha” pela imprensa. O documento que ele havia concebido como um convite acadêmico se tornara uma declaração pública endereçada à cristandade inteira.

Essa dinâmica — tecnologia de comunicação amplificando um argumento além do controle de seu autor — é um dos temas mais ricos da história da Reforma, explorado em profundidade por Elizabeth Eisenstein em The Printing Press as an Agent of Change (1980) e por Andrew Pettegree em Brand Luther (2015). Em português, esses ângulos são quase ausentes na discussão das 95 Teses.

A recepção: de convite a processo eclesiástico

Lutero esperava debate. O que recebeu foi silêncio dos eclesiásticos e escândalo nas ruas. Alberto de Brandemburgo — que tinha razões financeiras para não querer debate enviou as teses a Roma sem responder a Lutero. Roma iniciou um processo por heresia.

Em 1518, Lutero foi convocado para se retratar diante do Cardeal Cajetano em Augsburgo. Recusou. Em 1519, num debate em Leipzig com o teólogo dominicano João Eck, foi levado a admitir que defendia algumas posições de João Hus, o herético queimado um século antes. Isso foi decisivo: Eck fizera Lutero admitir publicamente que um concílio podia errar.

Em 1520, o Papa Leão X emitiu a bula Exsurge Domine, dando a Lutero 60 dias para se retratar de 41 proposições consideradas heréticas. Em dezembro de 1520, Lutero queimou a bula publicamente. Em janeiro de 1521, foi excomungado. Em abril de 1521, compareceu perante o Imperador Carlos V na Dieta de Worms e pronunciou as palavras que definiram a Reforma: “Aqui estou. Não posso fazer outra coisa. Que Deus me ajude.”

As 95 Teses, portanto, não foram a Reforma foram o primeiro dominó. Lutero mesmo diria que o debate sobre as indulgências era questão menor comparada à doutrina da justificação pela fé, que seria o verdadeiro coração da Reforma. As teses abriram a porta; o que entrou por ela foi muito maior do que Lutero havia previsto.

O que este documento não é — e o que é

Duas leituras equivocadas das 95 Teses persistem em círculos populares em PT:

Primeira leitura equivocada: as teses são uma declaração de fé evangélica completa. Não são. Lutero ainda era, em 1517, um monge católico que acreditava no purgatório, reconhecia a autoridade papal em certos limites, e não havia desenvolvido ainda a doutrina da justificação pela fé com a clareza que teria nos anos seguintes. As teses são o começo de uma jornada, não sua chegada.

Segunda leitura equivocada: Lutero estava atacando a Igreja por razões políticas ou pessoais. A evidência biográfica e textual aponta na direção oposta: o Lutero de 1517 era um pastor angustiado com o dano espiritual que as indulgências causavam aos seus fiéis pessoas que compravam uma falsa certeza de salvação em vez de buscarem a graça de Deus em Cristo. A preocupação pastoral é o motor do documento, não a ambição política.


FAQ – PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE AS 95 TESES DE LUTERO

O que são as 95 Teses de Lutero?

As 95 Teses são um documento escrito em latim por Martinho Lutero em 1517, contendo 95 proposições para debate acadêmico sobre a doutrina e a prática das indulgências na Igreja Católica da época. O título original é Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum — Disputa para a Elucidação do Poder das Indulgências. Foram enviadas ao Arcebispo Alberto de Brandemburgo em 31 de outubro de 1517 e rapidamente se espalharam por toda a Europa, tornando-se o documento fundacional da Reforma Protestante.

Lutero realmente pregou as 95 Teses na porta da Igreja de Wittenberg?

É uma questão historicamente disputada. A cena do martelo na porta é a imagem mais famosa da Reforma, mas os historiadores debatem sua veracidade desde pelo menos 1961, quando o teólogo católico Erwin Iserloh publicou um livro argumentando que a afixação pertence ao domínio da lenda. O primeiro relato da cena foi escrito por Philipp Melanchthon, que não estava em Wittenberg na data. O que os historiadores aceitam com certeza é que Lutero enviou as teses por carta ao Arcebispo Alberto de Brandemburgo em 31 de outubro de 1517. Se houve também afixação pública prática universitária normal na época, permanece incerto.

Por que Lutero escreveu as 95 Teses?

A causa imediata foi a campanha de venda de indulgências conduzida por Johann Tetzel nas proximidades de Wittenberg. Lutero via seus paroquianos comprando indulgências e acreditando estar perdoados sem verdadeira penitência ou fé. A causa mais profunda era teológica: Lutero havia chegado à conclusão, pelo estudo das Escrituras, de que o perdão de Deus é concedido gratuitamente pela fé e não pode ser vendido ou comprado. Por trás da campanha de Tetzel havia uma teia de interesses financeiros: o Arcebispo Alberto de Brandemburgo havia tomado empréstimo com os banqueiros Fugger para pagar ao papa por múltiplos bispados, e a venda de indulgências era o mecanismo para quitar a dívida.

Quais as teses mais importantes das 95 Teses?

A Tese 1 estabelece o princípio de todo o argumento: toda a vida cristã deve ser penitência interior, não atos exteriores. A Tese 32 é o clímax teológico: quem confia nas indulgências para sua salvação será condenado. A Tese 62 antecipa a doutrina central da Reforma: “O tesouro verdadeiro da Igreja é o sagrado evangelho da glória e da graça de Deus.” E a Tese 86 é a mais audaciosa politicamente: por que o papa, o homem mais rico da época, não constrói São Pedro com seu próprio dinheiro em vez de extorquir os pobres?

As 95 Teses são um documento protestante?

Não exatamente, no sentido pleno do termo. Em 1517, Lutero era um monge católico que não pretendia fundar uma nova Igreja, mas reformar a existente. As teses ainda reconhecem a autoridade papal em certos limites, aceitam a existência do purgatório e não contêm a doutrina da justificação pela fé com a clareza que Lutero desenvolveria nos anos seguintes. São o começo de uma jornada que levaria à Reforma não a chegada. Lutero diria depois que as indulgências eram questão menor comparada à justificação pela fé.

Em que língua foram escritas as 95 Teses?

As 95 Teses foram escritas originalmente em latim, a língua acadêmica da época, adequada para um convite ao debate universitário. Mas em dias foram traduzidas para o alemão por colaboradores de Lutero, e foi nessa versão vernácula que se espalharam com velocidade extraordinária pela Alemanha e pela Europa. A velocidade de disseminação toda a Alemanha em duas semanas só foi possível pela imprensa de Gutenberg, e é considerada pelos historiadores da comunicação a primeira “viralização” de um texto na história ocidental.

Qual a relação entre as 95 Teses e a doutrina da justificação pela fé?

As 95 Teses não expõem diretamente a doutrina da justificação pela fé, essa seria desenvolvida por Lutero nos anos seguintes, especialmente em Da Liberdade Cristã (1520) e nos debates que culminaram na Confissão de Augsburgo (1530). Mas as teses já carregam a premissa que sustenta a doutrina: o perdão de Deus é gratuito, não pode ser comprado, e qualquer sistema que venda certeza de salvação está pregando um falso evangelho. A Tese 62 é a mais próxima de uma declaração proto-reformada: “O tesouro verdadeiro da Igreja é o sagrado evangelho da glória e da graça de Deus.”


NOTA EDITORIAL SOBRE O TEXTO

As 95 Teses foram escritas originalmente em latim em outubro de 1517 sob o título Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum. A tradução para o português apresentada neste acervo foi produzida e revisada por O Púlpito, cotejada com o texto latino original e com as principais edições críticas disponíveis. O texto está dividido nas 95 proposições originais, cada uma com âncora de link para citação direta. Títulos de seção foram adicionados editorialmente para facilitar a navegação, eles não fazem parte do documento original.


TEXTO INTEGRAL

Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum Disputa para a Elucidação do Poder das Indulgências

Martinho Lutero, Doutor em Teologia e professor ordinário em Wittenberg. Por amor à verdade e no desejo de trazê-la à luz, as seguintes proposições serão defendidas em Wittenberg. Por isso, pede que aqueles que não puderem estar presentes e debater conosco verbalmente o façam por escrito. Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.


I. A natureza da penitência (Teses 1–4) {#sec-1}

1. {#t-1} Quando nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse “Fazei penitência” (Mt 4,17), quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2. {#t-2} Esta palavra não pode ser entendida como referindo-se à penitência sacramental, isto é, à confissão e satisfação, que se celebra pelo ministério dos sacerdotes.

3. {#t-3} Contudo, ela não significa apenas penitência interior; a penitência interior é nula a menos que produza exteriormente toda sorte de mortificação da carne.

4. {#t-4} Portanto, a pena permanece enquanto permanece o ódio de si mesmo — isto é, a verdadeira penitência interior, ou seja, até a entrada no reino dos céus.


II. A autoridade limitada do papa (Teses 5–29) {#sec-2}

5. {#t-5} O papa não quer nem pode remitir quaisquer penas além das que impôs por seu próprio arbítrio ou pelas normas canônicas.

6. {#t-6} O papa não pode remitir qualquer culpa, mas somente declarar e confirmar a remissão feita por Deus; ou então remitir nos casos reservados a ele mesmo. Se ele despreза isto, a culpa permanece absolutamente.

7. {#t-7} Deus não perdoa a culpa de ninguém sem ao mesmo tempo sujeitá-lo humildemente ao sacerdote, seu vigário em todas as coisas.

8. {#t-8} As leis penitenciais canônicas foram impostas somente aos vivos e, segundo elas mesmas, nada devem ser impostas aos moribundos.

9. {#t-9} Portanto, o Espírito Santo, em nós pelo papa, nos faz bem quando este em seus decretos sempre excepciona o artigo da morte e o da necessidade.

10. {#t-10} Agem ignorantemente e mal os sacerdotes que, nos casos dos moribundos, reservam as penas canônicas para o purgatório.

11. {#t-11} Esta cizânia de mudar a pena canônica em pena do purgatório foi certamente semeada enquanto os bispos dormiam.

12. {#t-12} Antigamente as penas canônicas eram impostas não depois, mas antes da absolvição, como provas de verdadeira contrição.

13. {#t-13} Os moribundos pagam todas as suas dívidas pela morte, e estão já mortos para as leis canônicas, tendo direito a ser isentos delas.

14. {#t-14} A saúde imperfeita ou o amor imperfeito do moribundo traz necessariamente consigo grande medo e, quanto menor o amor, tanto maior o medo.

15. {#t-15} Este medo e horror são suficientes por si sós — para não dizer outra coisa — para constituir a pena do purgatório, pois estão muito próximos do horror do desespero.

16. {#t-16} O inferno, o purgatório e o céu parecem diferir como diferem o desespero, a quase-falta de esperança e a segurança.

17. {#t-17} Parece necessário que nos souls no purgatório o horror diminua e o amor aumente.

18. {#t-18} Parece não se poder provar, nem pela razão nem pela Escritura, que elas estejam fora do estado de mérito e de aumento do amor.

19. {#t-19} Isto também parece não estar provado: que estejam certas e seguras de sua bem-aventurança, ao menos não todas, ainda que nós estejamos muito certos disso.

20. {#t-20} Portanto, o papa, quando usa as palavras “remissão plenária de todas as penas”, não significa verdadeiramente de todas, mas somente das por ele impostas.

21. {#t-21} Erram, portanto, os pregadores das indulgências que dizem que o homem é absolvido e salvo de toda pena pelas indulgências do papa.

22. {#t-22} Pois o papa não remite às almas do purgatório nenhuma pena que elas deveriam ter pago nesta vida segundo as normas canônicas.

23. {#t-23} Se a remissão plena de todas as penas pode ser concedida a alguém, é certo que ela é concedida somente aos mais perfeitos, ou seja, a pouquíssimos.

24. {#t-24} Por isso a maior parte do povo é necessariamente enganada por essa indiscriminada e pomposa promessa de isenção da pena.

25. {#t-25} O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório em geral, cada bispo tem em sua diocese e cada pároco na sua paróquia, em particular.

26. {#t-26} O papa faz muito bem quando concede às almas a remissão, não pelo poder das chaves — que não tem —, mas por via de intercessão.

27. {#t-27} Pregam doutrina humana os que dizem que assim que o dinheiro tilinta no cofre, a alma sai voando do purgatório.

28. {#t-28} É certo que, quando o dinheiro tilinta no cofre, o lucro e a avareza podem aumentar; mas a intercessão da Igreja depende somente da vontade de Deus.

29. {#t-29} Quem sabe se todas as almas do purgatório querem ser resgatadas, como se diz ter acontecido com São Severo e São Pascoal?


III. A ilusão das indulgências (Teses 30–68) {#sec-3}

30. {#t-30} Ninguém tem certeza da sinceridade de sua própria contrição, muito menos da consecução da remissão plenária.

31. {#t-31} Tão raro é o verdadeiramente penitente quanto é raro o que compra indulgências de boa fé; ou seja, são raríssimos.

32. {#t-32} Serão eternamente condenados, juntamente com seus mestres, aqueles que acreditam estar certos de sua salvação pelas cartas de indulgência.

33. {#t-33} Devemos guardar-nos muito dos que dizem que essas indulgências papais são o inestimável dom de Deus pelo qual o homem se reconcilia com ele.

34. {#t-34} Pois essa graça das indulgências se refere somente às penas das satisfações sacramentais, estabelecidas por homens.

35. {#t-35} Não pregam doutrina cristã os que ensinam que para resgatar almas ou para comprar cartas de confissão não é necessária a contrição.

36. {#t-36} Todo cristão verdadeiramente arrependido tem remissão plena da pena e da culpa, que lhe é devida mesmo sem carta de indulgência.

37. {#t-37} Todo verdadeiro cristão, vivo ou morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, dada por Deus, mesmo sem cartas de indulgência.

38. {#t-38} A remissão e participação do papa não devem ser desprezadas de modo algum, pois — como já disse — são a declaração da remissão divina.

39. {#t-39} É muito difícil, mesmo para os teólogos mais doutos, exaltar ao mesmo tempo, diante do povo, a munificência das indulgências e a verdade da contrição.

40. {#t-40} A verdadeira contrição procura e ama as penas; a munificência das indulgências relaxa as penas e faz que os homens as odeiem; ao menos lhes dá ocasião para isso.

41. {#t-41} Com cautela devem ser pregadas as indulgências apostólicas, para que o povo não entenda erroneamente que são preferíveis a outras obras de amor.

42. {#t-42} Deve-se ensinar aos cristãos que o papa de forma alguma pensa que a compra de indulgências possa comparar-se às obras de misericórdia.

43. {#t-43} Deve-se ensinar aos cristãos que quem dá ao pobre ou empresta ao necessitado faz melhor do que quem compra indulgências.

44. {#t-44} Pois a caridade cresce mediante a obra caritativa e o homem se torna melhor; mas com as indulgências não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

45. {#t-45} Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um necessitado e, passando por ele, compra indulgências, não compra as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

46. {#t-46} Deve-se ensinar aos cristãos que, se não têm riquezas superabundantes, são obrigados a guardar o necessário para sua casa e de modo algum devem esbanjá-lo em indulgências.

47. {#t-47} Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não forçada.

48. {#t-48} Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, ao outorgar indulgências, tem mais necessidade e mais desejo de uma oração devota por si do que de dinheiro pronto.

49. {#t-49} Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências papais são úteis se nelas não depositam sua confiança, mas muito nocivas se por causa delas perdem o temor de Deus.

50. {#t-50} Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa conhecesse as extorsões dos pregadores das indulgências, preferiria ver a basílica de São Pedro reduzida a cinzas a vê-la construída com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51. {#t-51} Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, como é seu dever, deseja e deve — se necessário, vendendo a basílica de São Pedro — dar do seu dinheiro aos muitos pobres dos quais os pregadores das indulgências extorquem o dinheiro.

52. {#t-52} A confiança na salvação pelas cartas de indulgência é vã, mesmo que o comissário — mais ainda, o próprio papa — empenhasse por elas sua alma.

53. {#t-53} São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa das indulgências, mandam que a palavra de Deus fique completamente em silêncio nas outras igrejas.

54. {#t-54} Faz-se injustiça à palavra de Deus quando se gasta em um sermão tanto ou mais tempo nas indulgências do que nela.

55. {#t-55} A opinião do papa forçosamente é: se as indulgências — mínimas coisas — são celebradas com sino, procissão e cerimônia, o Evangelho — máxima coisa — deve ser pregado com cem sinos, cem procissões e cem cerimônias.

56. {#t-56} Os tesouros da Igreja, de onde o papa distribui as indulgências, não são suficientemente nomeados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

57. {#t-57} Fica claro que não são temporais, pois muitos dos pregadores não os distribuem facilmente, mas somente os acumulam.

58. {#t-58} Não são os méritos de Cristo e dos santos, porque estes, mesmo sem o papa, sempre operam graça no homem interior, cruz, morte e inferno no exterior.

59. {#t-59} São Pedro Damião disse que os tesouros da Igreja são as chaves de São Pedro, dadas pelo mérito de Cristo. Mas este uso é claramente contrário ao costume na maioria dos casos.

60. {#t-60} Sem imprudência, dizemos que as chaves da Igreja — concedidas pelo mérito de Cristo — são esse tesouro.

61. {#t-61} Pois é claro que o poder do papa é suficiente por si só para a remissão das penas e dos casos reservados.

62. {#t-62} O tesouro verdadeiro da Igreja é o sagrado Evangelho da glória e da graça de Deus.

63. {#t-63} Mas este é justamente odiado, porque os primeiros são os últimos.

64. {#t-64} Enquanto o tesouro das indulgências é justamente amado, porque os últimos são os primeiros.

65. {#t-65} Por isso os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens de riquezas.

66. {#t-66} Os tesouros das indulgências são as redes com que agora se pescam as riquezas dos homens.

67. {#t-67} As indulgências, que os pregadores proclamam como as maiores graças, são reconhecidas como tal por serem o que de mais lucrativo produzem.

68. {#t-68} Entretanto, na realidade, são as menores graças comparadas com a graça de Deus e com a piedade da Cruz.


IV. As perguntas dos leigos (Teses 69–95) {#sec-4}

69. {#t-69} Os bispos e os párocos são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda a reverência.

70. {#t-70} Mas são muito mais obrigados a observar com todos os olhos, a ouvir com todos os ouvidos, para que estes não preguem sonhos em lugar do que o papa mandou.

71. {#t-71} Quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas, que seja anátema e maldito.

72. {#t-72} Mas quem se colocar contra a maldade e a petulância das palavras dos pregadores das indulgências, que seja bendito.

73. {#t-73} Assim como o papa justamente fulmina os que usam de qualquer arte para prejudicar o comércio das indulgências.

74. {#t-74} Muito mais pretende fulminar os que, sob o pretexto das indulgências, usam de artifícios para prejudicar a santa caridade e a verdade.

75. {#t-75} Pensar que as indulgências papais têm tanto poder a ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violado — coisa impossível — a mãe de Deus, é loucura.

76. {#t-76} Dizemos pelo contrário que as indulgências papais não podem retirar o menor dos pecados veniais quanto ao pecado.

77. {#t-77} Dizer que nem mesmo São Pedro, se fosse papa, poderia conceder graças maiores, é uma blasfêmia contra São Pedro e o papa.

78. {#t-78} Dizemos pelo contrário que esse papa, como qualquer outro, tem graças maiores: o Evangelho, os poderes espirituais, os dons de curas etc., como está escrito em 1Co 12.

79. {#t-79} Dizer que a cruz adorada de emblemas com as armas do papa é igualmente poderosa à Cruz de Cristo, é blasfêmia.

80. {#t-80} Os bispos, os párocos e os teólogos que permitem que tais discursos sejam feitos ao povo prestarão contas por isso.

81. {#t-81} Essa pregação descarada das indulgências torna difícil, mesmo para os homens doutos, defender a reputação do papa contra as calúnias ou, ao menos, contra as perspicazes questões dos leigos.

82. {#t-82} Como, por exemplo: “Por que o papa não esvazia o purgatório por causa da santíssima caridade e da suma necessidade das almas — o que seria a mais justa das causas — se resgata infinitas almas por causa do poderosíssimo dinheiro para a construção da basílica — o que é motivo levíssimo?”

83. {#t-83} Do mesmo modo: “Por que se mantêm as missas e as comemorações pelos mortos e por que o papa não devolve ou permite que se devolvam as fundações instituídas em seu favor, se já não é lícito orar pelos já redimidos?”

84. {#t-84} Do mesmo modo: “Que nova piedade de Deus e do papa é esta, que permitem que o ímpio e inimigo pague com dinheiro para libertar uma alma piedosa e amiga de Deus, e não a liberam antes gratuitamente por causa desta mesma piedade e amor?”

85. {#t-85} Do mesmo modo: “Por que os cânones da penitência, que de fato e pelo desuso são há muito revogados e mortos, são satisfeitos ainda hoje pelo dinheiro, como se fossem totalmente vivos?”

86. {#t-86} Do mesmo modo: “Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior que a dos mais ricos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta única basílica de São Pedro, em vez de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?”

87. {#t-87} Do mesmo modo: “O que é que o papa remite ou concede aos que pela contrição perfeita têm direito à remissão e participação plenária?”

88. {#t-88} Do mesmo modo: “Que bem maior adviria à Igreja, se o papa, como o faz uma vez, fizesse cem vezes ao dia, concedendo a qualquer fiel estas remissões e participações?”

89. {#t-89} Do mesmo modo: “Uma vez que o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e as indulgências já concedidas, se têm a mesma eficácia?”

90. {#t-90} Suprimir estas argutas objeções dos leigos somente pela força, sem resolvê-las com razões, é expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e tornar infelizes os cristãos.

91. {#t-91} Se, portanto, as indulgências fossem pregadas segundo o espírito e o pensamento do papa, todas essas dificuldades se resolveriam com facilidade — ou melhor, não existiriam.

92. {#t-92} Por isso que se vão todos os profetas que dizem ao povo de Cristo “paz, paz” onde não há paz!

93. {#t-93} Abençoados sejam todos os profetas que dizem ao povo de Cristo “cruz, cruz” onde não há cruz!

94. {#t-94} Deve-se exortar os cristãos a que sigam com dedicação seu Cabeça, Cristo, pelas penas, mortificações e castigos.

95. {#t-95} E assim confiem mais em entrar no céu por meio de muitas tribulações do que pela segurança de uma falsa paz.


Martinho Lutero, Wittenberg, 31 de outubro de 1517


FONTES E LEITURA ADICIONAL

Fontes primárias e críticas consultadas

  • SOUZA, Fabiano Queiroz. Teologia: Doutrinas Essenciais para Pregadores do Evangelho: As doutrinas que todo pregador precisa dominar para pregar com fidelidade. Curitiba: OPulpito, 2025.
  • Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.
  • Lutero, Martinho. Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum (1517). Texto latino em: D. Martin Luthers Werke. Weimar: Böhlau, 1883 (WA 1, 233–238). — A edição crítica de referência (Weimarer Ausgabe).
  • Iserloh, Erwin. The Theses Were Not Posted: Luther Between Reform and Reformation. Boston: Beacon Press, 1968. — O estudo que abriu o debate historiográfico sobre a pregação das teses.
  • Eisenstein, Elizabeth. The Printing Press as an Agent of Change. Cambridge University Press, 1980. — Estudo fundamental sobre o papel da imprensa na disseminação das teses.
  • Pettegree, Andrew. Brand Luther: 1517, Printing, and the Making of the Reformation. New York: Penguin, 2015. — A análise mais recente e completa do papel da imprensa e da “marca Lutero” na Reforma.
  • Oberman, Heiko. Luther: Man Between God and the Devil. New Haven: Yale University Press, 1989. — A melhor biografia intelectual de Lutero em qualquer língua.
  • Brecht, Martin. Martin Luther: His Road to Reformation, 1483–1521. Minneapolis: Fortress Press, 1985. — A biografia acadêmica padrão.

Para aprofundar em português

  • Lutero, Martinho. Da Liberdade Cristã e Outros Escritos. São Paulo: Martins Fontes, 1998. — Para compreender o Lutero maduro que as teses prenunciam.
  • González, Justo L. A Era dos Reformadores. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. — Contexto histórico acessível.
  • Bayer, Oswald. A Teologia de Martinho Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 2007. — A melhor análise teológica sistemática de Lutero em português.

O que não existe em português — e por que importa

Três questões são ricamente tratadas em inglês e alemão, mas praticamente ausentes em PT:

  1. A estrutura argumentativa das 95 Teses como disputatio acadêmica: em inglês há múltiplos estudos analisando como as teses não são 95 afirmações independentes, mas um argumento progressivo em quatro movimentos. Em PT, as teses são apresentadas como lista.
  2. A teia financeira Albrecht-Fugger-Roma: a conexão entre a ambição pessoal de Alberto de Brandemburgo, o empréstimo com os Fugger e o esquema de financiamento de São Pedro é o contexto imediato das teses. Em PT raramente aparece descrita com essa precisão.
  3. O debate Iserloh e a historiografia da “porta de Wittenberg”: o debate aberto em 1961 e ainda não resolvido sobre se Lutero realmente pregou as teses é tratado na academia mas inexistente no material em PT destinado ao leitor comum e ao pregador.

NAVEGAÇÃO

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