Uma definição bíblica, teológica e pastoral
Rev. Fabiano Queiroz
Pastor presbiteriano e teólogo
Tese
Pregação expositiva é pregação bíblica por excelência, pois a própria Escritura apresenta seus sermões como explicações, no presente, dos atos da revelação de Deus no passado, respeitando o progresso da revelação divina, a intenção original do autor bíblico e a compreensão dos ouvintes.
Essa afirmação não nasce de uma preferência metodológica moderna, nem de uma escola homilética específica, mas da observação atenta da própria Escritura. Antes de ser um modelo técnico, a pregação expositiva é um ato bíblico, moldado pela forma como Deus escolheu revelar-se, registrar essa revelação e comunicá-la ao seu povo ao longo da história.
1. Revelação divina e historicidade da pregação
A Bíblia apresenta a revelação divina não como um conjunto de ideias abstratas, mas como atos históricos de Deus. Deus cria, chama, julga, promete, salva e restaura dentro da história concreta, envolvendo povos, alianças, reis, profetas, culturas e línguas reais. A revelação é histórica sem deixar de ser teológica; ela acontece no tempo, mas procede da eternidade.
A pregação bíblica nasce exatamente nesse ponto de encontro entre revelação e história. Quando os pregadores das Escrituras se levantam para falar, eles não anunciam novidades espirituais, mas interpretam, no presente, aquilo que Deus já fez e disse no passado. Pregação, portanto, é um ato interpretativo que se ancora na memória redentiva do povo de Deus.
Essa dinâmica é visível desde os discursos veterotestamentários até os sermões do Novo Testamento. A Palavra é anunciada como explicação fiel da ação de Deus, e não como criação autônoma do pregador. A autoridade do púlpito não está na criatividade do mensageiro, mas na fidelidade à revelação recebida.
2. A Escritura como intérprete de si mesma
Ao observarmos os sermões registrados na Bíblia, percebemos um padrão consistente: a Escritura interpreta a própria Escritura. Os discursos bíblicos recorrem constantemente à revelação anterior para explicar a ação presente de Deus. O passado redentivo não é esquecido, mas reinterpretado à luz do agir contínuo do Senhor.
Esse princípio revela que a pregação expositiva não é uma imposição externa ao texto bíblico. Ela é o próprio movimento interno da revelação. A Bíblia não apenas contém sermões; ela modela a pregação. A exposição fiel do texto não fragmenta a mensagem, mas respeita a progressão da revelação e a unidade da história da redenção.
Assim, pregar expositivamente é submeter-se ao modo como a própria Escritura comunica a verdade: texto explicando texto, revelação iluminando revelação, sempre com coerência teológica e continuidade histórica.
3. Intenção autoral e inspiração das Escrituras
Um dos pilares inegociáveis da pregação expositiva é o respeito à intenção original do autor bíblico. Longe de enfraquecer a doutrina da inspiração, esse compromisso a fortalece. Deus escolheu revelar-se por meio de autores humanos, utilizando suas línguas, estilos, contextos e circunstâncias históricas.
Ignorar a intenção autoral é romper o elo entre revelação divina e comunicação humana. A pregação expositiva reconhece que o Espírito Santo não anulou a personalidade dos autores bíblicos, mas os guiou de tal forma que aquilo que escreveram corresponde exatamente à vontade revelada de Deus.
Por isso, o pregador expositivo se compromete com:
- a análise do contexto literário imediato e amplo;
- a consideração do gênero literário;
- a atenção ao pano de fundo histórico, cultural e geográfico;
- a coerência com a teologia bíblica do conjunto das Escrituras.
Esse cuidado não tem como objetivo a erudição vazia, mas a fidelidade. O pregador que respeita o texto honra o Deus que falou por meio dele.
4. Audiência, aplicação e responsabilidade pastoral
A pregação bíblica nunca permanece confinada ao passado. Ela se dirige sempre ao presente. Os sermões das Escrituras demonstram profunda sensibilidade pastoral ao considerar quem está ouvindo, em que contexto vive e quais desafios enfrenta.
A pregação expositiva leva a sério tanto o texto quanto o ouvinte. Aplicar a Escritura não é moldá-la às expectativas da audiência, mas revelar sua relevância intrínseca. A verdade de Deus já é pertinente; cabe ao pregador torná-la clara, inteligível e pastoralmente responsável.
Nesse sentido, a aplicação não é um acréscimo opcional ao sermão, mas parte essencial da exposição. A Palavra explicada corretamente confronta o pecado, consola o aflito, instrui o ignorante e conduz o povo de Deus à obediência da fé.
5. Centralidade cristológica da pregação expositiva
A pregação expositiva é necessariamente cristocêntrica, não por imposição artificial, mas por fidelidade à estrutura da revelação bíblica. A Escritura forma uma única narrativa redentiva que culmina na pessoa e na obra de Jesus Cristo.
Os atos de Deus no Antigo Testamento apontam para o Messias por meio de promessas, alianças, tipos, sombras e profecias. No Novo Testamento, essa esperança encontra seu cumprimento histórico e escatológico. Pregar expositivamente é conduzir o ouvinte, com responsabilidade hermenêutica, do texto ao Cristo do texto.
Essa abordagem evita tanto o moralismo desconectado do Evangelho quanto as leituras alegóricas arbitrárias. Cristo não é inserido no texto; Ele é revelado a partir do texto, respeitando o estágio da revelação e a intenção original da passagem.
6. Pregação expositiva como postura teológica
Pregação expositiva não é apenas um estilo entre outros. Ela é uma postura teológica diante da Palavra de Deus. Afirma que Deus falou, que essa revelação foi registrada nas Escrituras e que Ele continua falando quando sua Palavra é fielmente explicada e aplicada.
Essa postura exige humildade. O pregador se submete ao texto antes de falar ao povo. A mensagem governa o mensageiro, não o contrário. Onde essa submissão é abandonada, o púlpito perde sua autoridade espiritual, ainda que mantenha aparência de eloquência.
Conclusão
Pregação expositiva é pregação bíblica por excelência porque nasce da própria Escritura, segue o caminho da revelação e conduz o povo de Deus à obediência fiel depois de compreender a vontade de Deus, pois sem compreensão não há obediência saudável.
Onde a Palavra governa o púlpito, a Igreja é edificada.
Onde a Palavra é explicada com fidelidade, Cristo é exaltado.
Onde a Revelação é respeitada, Deus continua falando ao seu povo.
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- CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica.
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- GOLDWORTHY, Graeme. Pregação e Teologia Bíblica.
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