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Escatologia

Escatologia Bíblica: por que o fim dos tempos já começou e ainda não terminou

Existe uma percepção comum sobre escatologia que precisa ser desfeita antes que qualquer discussão séria sobre o tema possa acontecer: a ideia de que escatologia é o estudo de eventos futuros que ainda não ocorreram e que portanto dizem respeito principalmente ao que acontecerá depois da morte ou no fim da história. Nessa percepção, a escatologia é um departamento separado da teologia, relevante para especulação profética e para debates sobre cronogramas, mas relativamente desconectado da vida cristã ordinária do presente.

A teologia bíblica reformada, especialmente na forma em que Geerhardus Vos a desenvolveu, oferece uma visão radicalmente diferente e exegeticamente mais fundamentada: a escatologia não é primariamente sobre o futuro. É sobre a nova era que Cristo inaugurou com sua morte e ressurreição e que ainda não está completamente revelada. O crente não está esperando pela escatologia. Está vivendo dentro dela, na tensão entre o que já é verdade em Cristo e o que ainda não é visível na experiência. E essa tensão, longe de ser um problema a ser resolvido por um sistema profético mais sofisticado, é o ambiente normal e necessário em que a fé cristã opera.

A tese deste artigo é esta: a escatologia bíblica não é um calendário de eventos futuros. É a declaração de que o fim da história já começou em Cristo, que a ressurreição inaugurou uma nova era que coexiste com a era presente em tensão criativa, e que o crente vive entre o já e o ainda não como a postura mais realista e mais esperançosa disponível a qualquer ser humano. Entender isso a partir da Escritura inteira transforma não apenas a teologia do crente, mas a forma como ele vive cada dia ordinário.

O que é Escatologia Bíblica de Verdade

Além da especulação profética: a escatologia como categoria existencial

A palavra escatologia vem do grego eschaton, que significa o último, o final, e logos, estudo ou palavra. Literalmente, é o estudo das últimas coisas. Mas o que conta como última coisa é a questão decisiva, e é aqui que a teologia bíblica reformada diverge significativamente da escatologia popular. A escatologia popular tende a organizar o tema em torno de eventos futuros específicos: a segunda vinda, o milênio, o julgamento final, a eternidade. A escatologia bíblica, como Vos demonstrou em sua obra Teologia Bíblica, organiza o tema em torno de duas eras: a era presente, marcada pelo pecado, pela morte e pela incompletude, e a era vindoura, marcada pela justiça, pela vida e pela plenitude.

O que torna a escatologia bíblica radicalmente diferente da especulação profética popular é a afirmação de que a era vindoura já irrompeu na era presente com a vinda de Cristo. A encarnação, a morte, a ressurreição e a ascensão de Cristo são eventos escatológicos que já ocorreram. O derramamento do Espírito no Pentecostes é um evento escatológico já ocorrido. A Igreja vivendo entre a primeira e a segunda vinda não está esperando pela escatologia. Está vivendo dentro de uma escatologia inaugurada, numa era em que as duas eras coexistem em tensão, em que o crente já possui a vida eterna mas ainda não experimentou a ressurreição do corpo, em que o reino de Deus já chegou mas ainda não está completamente manifestado.

Herman Ridderbos, em sua obra O Reino de Deus, demonstra que toda a pregação de Jesus está estruturada sobre essa tensão entre inauguração e consumação. Jesus não anunciou que o reino viria em algum momento futuro indefinido. Anunciou que o reino havia chegado nele, que estava presente nas suas palavras e nos seus atos, e que seria consumado num futuro que a geração presente não poderia calcular mas deveria antecipar com esperança ativa. A escatologia de Jesus é a escatologia do já e do ainda não, e é essa estrutura que percorre todo o Novo Testamento.

Vos e a escatologia inaugurada como chave hermenêutica

Geerhardus Vos, em seu ensaio A Escatologia Paulina, publicado postumamente, formulou o conceito que se tornaria a contribuição mais influente da teologia bíblica reformada para a escatologia do século vinte: a ressurreição de Cristo é o evento escatológico central, e tudo o que vem antes dela na história é preparação, e tudo o que vem depois é consequência. A ressurreição não é apenas um milagre isolado que confirma a identidade de Jesus. É a irrupção da era vindoura na era presente, a primeira instância de algo que transformará toda a criação quando for completado.

A implicação hermenêutica dessa percepção é transformadora: a escatologia não é o último capítulo da teologia sistemática, adicionado depois que todos os outros temas foram tratados. É a estrutura que organiza toda a teologia bíblica. A criação aponta para uma consumação escatológica. A queda é o evento que introduziu a necessidade da redenção escatológica. Os pactos são o progresso da revelação em direção ao cumprimento escatológico. E a cristologia é o evento escatológico central em torno do qual toda a história gira. Tirar a escatologia da margem da teologia e colocá-la no centro é precisamente o que a teologia bíblica reformada faz, e é precisamente o que a leitura cuidadosa do Novo Testamento justifica.

“A escatologia não é o futuro adicionado ao presente. É o presente sendo julgado e transformado pelo futuro que já irrompeu em Cristo. O crente não espera pelo eschaton. Vive dentro dele.” — Geerhardus Vos, A Escatologia Paulina

O Reino de Deus no Antigo Testamento

Daniel 2 e 7: a pedra que cresce e o filho do homem que recebe o reino

O Antigo Testamento não usa a expressão reino de Deus com a frequência do Novo Testamento, mas a realidade que a expressão descreve permeia toda a narrativa veterotestamentária. Deus é rei desde a criação, e a história de Israel é a história de como esse reinado soberano opera através de reis humanos que são sombras do Rei definitivo que virá. Daniel 2 e 7 são os textos que mais explicitamente articulam a dimensão escatológica desse reinado, e eles o fazem de uma forma que o Novo Testamento citará e cumprirá repetidamente.

Daniel 2 apresenta a visão da estátua de quatro metais que representa os impérios sucessivos da história, e a pedra cortada sem mãos que golpeia a estátua nos pés e a destrói completamente, tornando-se uma grande montanha que enche toda a terra. A interpretação do próprio texto é clara: o Deus do céu levantará um reino que jamais será destruído, e esse reino não será deixado a outro povo, mas quebrará e consumirá todos esses reinos, e ele mesmo subsistirá para sempre. O reino de Deus não é um entre muitos reinos humanos. É o reino que substituirá e consumirá todos os outros, que crescerá até preencher toda a terra.

Daniel 7 complementa esse retrato com a visão do Filho do Homem que vem sobre as nuvens do céu e recebe do Ancião de Dias domínio, glória e reino, para que todos os povos, nações e línguas o sirvam. Esse domínio é eterno, não passará e seu reino não será destruído. Jesus aplicou esse título a si mesmo mais do que qualquer outro título veterotestamentário, e sua afirmação diante do sumo sacerdote em Mateus 26:64, de que veriam o Filho do Homem assentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu, era uma declaração messiânica-escatológica que o sumo sacerdote reconheceu imediatamente como tal.

Os Salmos 2 e 110 e a dimensão messiânico-escatológica do reino

Os Salmos 2 e 110, os dois textos veterotestamentários mais citados no Novo Testamento, revelam a dimensão messiânico-escatológica do reino de Deus com uma especificidade que Daniel havia deixado em linguagem mais simbólica. O Salmo 2 apresenta o Filho ungido estabelecido por Deus sobre Sião, a quem as nações serão dadas como herança e os confins da terra como possessão. É um texto de entronização real que o Novo Testamento aplica à ressurreição e à ascensão de Cristo como os eventos em que o Filho recebe o reino prometido.

O Salmo 110, cujo primeiro versículo Jesus cita em Mateus 22 para desconcertar os fariseus, apresenta o Senhor de Davi assentado à direita de Deus enquanto os inimigos são postos como escabelo de seus pés, e sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque. A combinação de realeza e sacerdócio num único personagem, que o sistema mosaico havia cuidadosamente separado, é a declaração de que o Rei escatológico será também o Mediador definitivo, o que somente Cristo pode ser. Hebreus 1 e 10 citam o Salmo 110 como a base escriturística para a posição atual de Cristo à direita do Pai, governando enquanto aguarda a consumação final do seu reino.

“O Antigo Testamento não está aguardando pela escatologia como quem aguarda por algo completamente desconhecido. Está aguardando pelo cumprimento de um retrato que se tornava mais nítido a cada revelação. Daniel e os Salmos são as últimas pinceladas antes da chegada do modelo.” — G. K. Beale, A Teologia Bíblica do Novo Testamento

Marcos 1:15 e a Inauguração do Reino

O já chegou que mudou tudo

Marcos 1:15 é provavelmente a declaração mais revolucionária do ministério público de Jesus, e sua densidade teológica é inversamente proporcional à sua brevidade: o tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho. A expressão o tempo está cumprido usa o verbo grego peplêrôtai, o perfeito passivo de plêroô, o mesmo verbo que Jesus usará em Mateus 5:17 para descrever o seu cumprimento da lei e dos profetas. O tempo não está quase cumprido. Está cumprido, com efeito permanente no presente.

E o reino de Deus está próximo, em grego êggiken, usa o perfeito de eggizô, que pode significar tanto está próximo como chegou. A ambiguidade gramatical é ela mesma teologicamente reveladora: o reino chegou na pessoa de Jesus de uma forma que ainda não está completamente manifestada. Está presente de forma inaugural mas não de forma consumada. É o já e o ainda não em sua forma mais comprimida e mais provocativa. O reino chegou. E ainda está chegando.

O que se segue no ministério de Jesus em Marcos é a demonstração concreta de que o reino inaugurado é real e não apenas proclamado. As curas são sinais escatológicos: Isaías 35 havia prometido que quando o reino de Deus chegasse, os cegos veriam, os surdos ouviriam, os coxos pulariam como veados. Os exorcismos são sinais escatológicos: Jesus mesmo declara em Mateus 12:28 que se ele expulsa demônios pelo Espírito de Deus, então é chegado a vós o reino de Deus. E a ressurreição de Lázaro, de Jairo e do filho da viúva de Naim são antecipações escatológicas da ressurreição geral que o fim da história trará.

Os sinais do reino como antecipações escatológicas

A categoria de sinal ou de antecipação escatológica é essencial para entender como o já e o ainda não operam no ministério de Jesus. Os milagres não são apenas demonstrações de poder divino. São vislumbres do que a era vindoura será em plenitude. Quando Jesus cura um cego, não está apenas aliviando o sofrimento individual de uma pessoa. Está mostrando o que a nova criação será quando a morte, a doença e toda consequência do pecado forem eliminadas completamente. Cada milagre é uma janela aberta para o futuro que está chegando, um momento em que a era vindoura irrompe na era presente de forma visível e tangível.

Anthony Hoekema, em sua obra A Bíblia e o Futuro, desenvolve esse conceito de forma pastoralmente rica: o crente que vive entre a primeira e a segunda vinda tem acesso a antecipações escatológicas reais na experiência presente. A resposta à oração é uma antecipação escatológica. A transformação do caráter pelo Espírito é uma antecipação escatológica. A comunhão entre crentes de culturas, línguas e histórias radicalmente diferentes é uma antecipação escatológica da multidão incontável de Apocalipse 7. Essas antecipações não são a plenitude do eschaton. Mas são reais, são presentes e são suficientes para fundamentar uma esperança que não envergonha.

“Os milagres de Jesus não eram demonstrações de poder para convencer céticos. Eram eruções da era vindoura na era presente, momentos em que o futuro de Deus tocou o presente humano de forma tangível e antecipou o que toda a criação será quando for renovada.” — Herman Ridderbos, O Reino de Deus

O Já e o Ainda Não: a Tensão que Estrutura Toda a Experiência Cristã

João 5:24-29: vida eterna presente e ressurreição futura

João 5:24-29 é o texto que mais claramente articula a estrutura do já e do ainda não na cristologia e na escatologia joanina. Nos versículos 24 e 25, Jesus declara: em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. A vida eterna é descrita como uma posse presente, algo que o crente tem agora. A ressurreição espiritual da morte para a vida aconteceu agora.

Mas os versículos 28 e 29 introduzem uma ressurreição futura que é distinta da presente: não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz e sairão: os que fizeram o bem, para a ressurreição da vida, e os que praticaram o mal, para a ressurreição do juízo. Essa ressurreição futura não é a mesma que a ressurreição espiritual presente dos versículos anteriores. É uma ressurreição física, universal e final, que inclui tanto os salvos quanto os perdidos. Os dois versículos descrevem duas ressurreições distintas que são aspectos diferentes do mesmo evento escatológico que Cristo inaugurou.

O que João 5 revela sobre a estrutura escatológica do Novo Testamento é que o eschaton opera em dois momentos que são qualitativamente o mesmo evento mas temporalmente separados: a ressurreição espiritual que o crente experimenta ao crer, e a ressurreição física que toda a humanidade experimentará no fim da história. O primeiro momento já ocorreu para cada crente. O segundo ainda não ocorreu para ninguém. E é precisamente essa estrutura de já e ainda não que define a existência cristã como uma existência escatológica, vivendo num estado em que o eschaton já chegou mas ainda não chegou completamente.

Romanos 8: a gemida da criação e a esperança da glorificação

Romanos 8:18-25 é o texto que mais completamente descreve a experiência existencial de viver no já e no ainda não, e ele o faz de uma perspectiva cósmica que excede a experiência individual do crente. Paulo afirma que a criação inteira geme e suporta angústias até agora, aguardando a revelação dos filhos de Deus. Não apenas o crente individual geme. A criação inteira está numa postura de expectativa escatológica, aguardando o momento em que o eschaton que foi inaugurado em Cristo será revelado em sua plenitude e toda a criação for libertada da escravidão da corrupção.

O verbo grego para gemer, stenazô, é o mesmo usado para descrever o gemido dos israelitas escravizados no Egito em Atos 7:34, e o gemido do próprio Espírito intercedendo pelos crentes em Romanos 8:26. É um gemido que não é desespero. É uma expectativa intensa de quem conhece o que está vindo e que sente o peso do que ainda não chegou. Paulo descreve o crente como alguém que possui as primícias do Espírito, a primeira parcela do que a era vindoura oferecerá em plenitude, e que geme aguardando a adoção como filhos, a redenção do nosso corpo. O Espírito é o depósito, o penhor escatológico que garante a plenitude que ainda não chegou.

“Romanos 8 não é um texto sobre o sofrimento que precisa ser suportado até que a vida melhore. É um texto sobre o sofrimento que é habitado escatologicamente, com a consciência de que o que geme é precisamente quem já recebeu as primícias do que está por vir.” — John Murray, Comentário sobre Romanos

1 Coríntios 15: a Ressurreição como Evento Escatológico Central

Cristo como as primícias: o primeiro evento escatológico já ocorrido

1 Coríntios 15 é o texto mais extenso e mais sistematicamente elaborado sobre a ressurreição em todo o Novo Testamento, e seu argumento central é precisamente a afirmação de que a ressurreição de Cristo é um evento escatológico, não apenas um milagre isolado. Paulo usa a imagem das primícias, em grego aparche, para descrever a ressurreição de Cristo: mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. As primícias no contexto veterotestamentário eram as primeiras frutas da colheita, oferecidas a Deus como consagração e como garantia de que o restante da colheita viria. Cristo ressuscitado é a primeira fruta da colheita escatológica que incluirá todos os que pertencem a ele.

A estrutura do argumento de Paulo é cristalina: a ressurreição de Cristo e a ressurreição dos crentes são o mesmo tipo de evento, separados temporalmente mas inseparáveis ontologicamente. Se os mortos não ressuscitam, então Cristo tampouco ressuscitou. E se Cristo ressuscitou, então a ressurreição dos mortos é uma certeza. A ressurreição de Cristo é o fundamento lógico, teológico e escatológico da esperança cristã na ressurreição futura. Ela não é apenas uma prova de que Jesus era quem dizia ser. É a primeira instância do evento escatológico que transformará toda a criação.

O versículo 20 é escatologicamente explosivo na sua brevidade: mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. O mas agora, nuni de em grego, é o mesmo tipo de virada dramática que Paulo usa em Romanos 3:21 e em Efésios 2:4. Depois de um argumento hipotético sobre o que seria verdade se Cristo não houvesse ressuscitado, Paulo declara a realidade: mas agora ele ressuscitou. E essa ressurreição não é apenas um fato histórico passado. É o evento que define e garante todo o futuro escatológico dos que pertencem a ele.

A sequência escatológica: primícias, depois os que são de Cristo

1 Coríntios 15:23-28 revela a sequência escatológica que a ressurreição de Cristo inaugura: cada um em sua própria ordem: Cristo, as primícias, depois os que são de Cristo na sua vinda. Depois vem o fim, quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo principado, toda autoridade e todo poder. Porque importa que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte.

Essa sequência revela que entre a ressurreição de Cristo como primícias e a ressurreição dos crentes na sua vinda, há um período em que Cristo reina, destruindo progressivamente todos os poderes que se opõem ao seu reino, até que o último inimigo, a morte, seja destruído na ressurreição final. É a estrutura do já e do ainda não aplicada à cristologia: Cristo já reina, já está assentado à direita do Pai como o Salmo 110 declarou, já está destruindo os inimigos do seu reino. E ainda não consumou esse reinado, ainda não destruiu o último inimigo, ainda não entregou o reino ao Pai de forma que Deus seja tudo em todos.

“A ressurreição de Cristo não foi o fim da história. Foi o começo do fim. O começo da colheita escatológica que ainda não foi completada, mas que, tendo começado, não pode ser interrompida.” — Anthony Hoekema, A Bíblia e o Futuro

Isaías 65 e 66 e Apocalipse 21: a Nova Criação como Destino Final

A visão veterotestamentária da nova criação

Isaías 65:17-25 e 66:22-24 contêm a visão veterotestamentária mais completa da nova criação, e eles revelam que o destino escatológico da história não é a dissolução do mundo material mas a sua renovação e transformação. Porque eis que crio novos céus e nova terra, e não haverá memória das coisas passadas, nem virão mais ao pensamento. Mas exultai e alegrai-vos perpetuamente naquilo que eu crio, porque eis que crio Jerusalém para ser exultação, e o seu povo para ser alegria.

A nova criação de Isaías não é um mundo imaterial, etéreo ou desconectado da criação original. É esta criação renovada, transformada, libertada de tudo o que o pecado havia introduzido. O lobo e o cordeiro pastarão juntos. O leão comerá palha como o boi. Não haverá mais choro de crianças nem morte prematura de adultos. É uma visão de shalom restaurado, de criação funcionando como Deus havia pretendido antes que o pecado a distorcesse. G. K. Beale demonstra que a nova criação de Isaías é a ampliação escatológica do jardim do Éden, o retorno ao propósito original da criação em escala cósmica.

O que essa visão revela sobre a natureza da esperança cristã é pastoralmente decisivo: a esperança cristã não é escapar do mundo para um paraíso etéreo. É a transformação deste mundo numa nova criação onde a justiça habita permanentemente. O crente que cuida da criação, que trabalha pela justiça, que investe na cultura e nas relações humanas, não está fazendo algo que o fim da história descartará. Está antecipando e participando do processo de renovação que a nova criação completará.

Apocalipse 21 e 22: o cumprimento definitivo

Apocalipse 21:1-5 é o cumprimento definitivo de tudo o que Isaías havia prometido e de tudo o que a estrutura escatológica do Novo Testamento havia preparado: vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar não existe mais. Vi também a santa cidade, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. E ouvi uma grande voz do trono, dizendo: eis o tabernáculo de Deus com os homens. Ele habitará com eles, e eles serão povos dele, e o próprio Deus estará com eles.

A imagem do tabernáculo de Deus com os homens é a culminação de toda a história pactual e escatológica da Bíblia. O que o tabernáculo no deserto havia representado de forma externa e mediada, a presença de Deus habitando no meio do povo, o que o templo havia prefigurado, o que a encarnação havia inaugurado de forma pessoal e o que o derramamento do Espírito havia realizado de forma interior e individual, a nova criação realizará de forma universal, permanente e sem mediação. Deus habitará com os homens. Sem véu. Sem mediador além de Cristo. Sem gemido. Sem morte. Sem lágrimas. E o versículo 5 sela tudo com uma declaração de autoridade divina: eis que faço novas todas as coisas.

G. K. Beale demonstra que a nova Jerusalém que desce do céu em Apocalipse 21 é simultaneamente uma cidade e um jardim, combinando as imagens do Éden de Gênesis com a cidade de Deus que a história de Israel havia prefigurado. É a criação retornando ao seu propósito original mas em escala expandida, incorporando tudo o que a história redentora havia acrescentado. É o fim que torna inteligível todo o caminho que a história percorreu para chegar até ele.

“A nova criação não é o fim do mundo. É o mundo finalmente sendo o que Deus sempre quis que fosse. E o crente que aguarda essa nova criação não aguarda o fim de algo. Aguarda o começo de tudo.” — G. K. Beale, O Novo Testamento e o Cumprimento do Antigo Testamento

A Ética da Escatologia Inaugurada

Como viver hoje à luz do fim que já começou

A escatologia bíblica não é apenas uma doutrina a ser crida. É uma realidade que deve transformar a forma de viver. E a transformação que ela produz não é no sentido do escapismo, de uma fé que desengaja do mundo presente porque o futuro é mais importante. É precisamente o oposto: a certeza escatológica do fim liberta o crente para investir plenamente no presente com uma orientação que os que não conhecem o fim não conseguem sustentar.

2 Pedro 3:10-13 formula a conexão entre esperança escatológica e ética presente de forma que é ao mesmo tempo exigente e libertadora: como tudo isso deve ser dissolvido, que pessoas deveis ser em santa conduta e piedade, aguardando e apressando a vinda do Dia de Deus? A santidade não é apresentada como meio de ganhar a nova criação. É apresentada como a resposta adequada de quem sabe que a nova criação está vindo e que quer viver de forma consistente com o destino para o qual está se movendo. O crente que vive santamente à luz da escatologia não está tentando merecer o futuro. Está praticando o futuro no presente.

Colossenses 3:1-4 formula a mesma ética escatológica de outra perspectiva: portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Visai as coisas do alto, não as que são da terra, porque morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória. A orientação escatológica não é fuga da terra. É ancoragem na realidade mais fundamental, a vida escondida com Cristo em Deus, que se manifestará completamente quando o eschaton for consumado.

A esperança como resistência e como investimento

A esperança escatológica bíblica tem duas dimensões práticas que precisam ser sustentadas em tensão. A primeira é a resistência: o crente que conhece o fim da história não precisa se deixar moldar pelos valores e pelas pressões da era presente, porque sabe que essa era está passando e que o que ela oferece não dura. A segunda é o investimento: o crente que sabe que a nova criação é o destino da história investe no presente com uma seriedade que os que não têm esperança não conseguem sustentar, porque sabe que o trabalho fiel no presente tem um peso eterno que a nova criação revelará.

Paulo encerra 1 Coríntios 15, o capítulo mais denso sobre escatologia do Novo Testamento, não com um convite à especulação sobre cronogramas, mas com uma exortação ao trabalho presente: portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor. A certeza da ressurreição futura não produz passividade no presente. Produz abundância na obra do Senhor, com a consciência de que nenhum trabalho fiel feito em Cristo será perdido quando a nova criação revelar o peso eterno de cada ato de fidelidade presente.

Bonhoeffer, escrevendo da prisão sobre a esperança cristã, observou que o cristão que espera pela vida futura não é aquele que desengaja do presente. É aquele que vive o presente com uma plenitude que somente a esperança genuína pode produzir, porque não está preso à necessidade de que o presente seja tudo. O crente escatológico pode investir o presente completamente precisamente porque sabe que o presente não é o investimento final.

“A ressurreição de Cristo é o fundamento sobre o qual o crente constrói não apenas a sua teologia, mas a sua segunda-feira de manhã. Porque se Cristo ressuscitou, então nada do que é feito em fidelidade a ele neste mundo é desperdiçado.” — N. T. Wright, A Ressurreição do Filho de Deus

Conclusão: a Escatologia como a Doutrina mais Prática da Teologia Cristã

A escatologia bíblica, lida com fidelidade ao texto e à estrutura da teologia bíblica reformada, não é o departamento mais especulativo da teologia. É o mais prático. Porque ela responde à pergunta mais fundamental que um ser humano pode fazer: para onde a história está indo? E a resposta que a Escritura oferece é ao mesmo tempo humilhante e gloriosa: ela está indo para a nova criação, para a habitação de Deus com os homens sem véu e sem mediação, para o momento em que o que já é verdade em Cristo será visível para toda a criação.

O reino de Deus que Daniel viu como pedra crescendo até preencher a terra foi inaugurado por Jesus em Marcos 1:15 com a declaração de que o tempo estava cumprido. A ressurreição de Cristo que 1 Coríntios 15 apresenta como as primícias da colheita escatológica já ocorreu e garante a colheita completa. A vida eterna que João 5 descreve como posse presente do crente é o depósito da ressurreição futura que ainda não ocorreu. A gemida da criação de Romanos 8 é a expressão cósmica de uma expectativa escatológica que está fundamentada na certeza da nova criação que Isaías prometeu e Apocalipse 21 descreveu.

O crente que vive no já e no ainda não não está vivendo num estado de incompletude frustrada. Está vivendo na postura mais realista disponível a qualquer ser humano, porque ele conhece tanto o que já é verdade quanto o que ainda está por vir, e essa dupla consciência é precisamente o que a fé cristã produce quando é fundamentada na escatologia bíblica e não na especulação profética. Ele geme com a criação, porque sente o peso do ainda não. E aguarda com esperança que não envergonha, porque possui as primícias do já. E trabalha com abundância na obra do Senhor, sabendo que o seu trabalho não é vão, porque o fim da história já começou em Cristo e não pode ser interrompido por nada.

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BIBLIOGRAFIA

Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.

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