A Misericórdia de Deus: por que o amor mais gratuito do universo foi também o mais caro
Existe uma versão da misericórdia de Deus que o evangelicalismo contemporâneo produz com facilidade e que a Bíblia não reconhece: a misericórdia como indulgência divina, a ideia de que Deus é misericordioso da mesma forma que um pai ou um avô bonzinho que é misericordioso com o filho ou com o neto que quebrou alguma coisa, fechando os olhos, sorrindo com ternura e dizendo que não tem importância. Essa versão é reconfortante, é popular e é teologicamente devastadora, porque ela transforma a misericórdia de Deus numa virtude barata que não custa nada e que portanto não vale muito, pois geralmente o que é barato é também menosprezado com maior frequência.
A misericórdia que a Bíblia apresenta é radicalmente diferente. É a misericórdia de um Deus cuja santidade é absolutamente real, cujos padrões morais não podem ser suspensos por conveniência emocional, e que mesmo assim encontrou uma forma de ser misericordioso com o pecador sem trair a sua própria natureza que é Santa e Justa. Essa misericórdia custa infinitamente mais do que a indulgência, porque num ser perfeitamente santo, perdoar sem custo seria uma contradição. A misericórdia de Deus foi cara antes mesmo de chegar ao Gólgota, e no Gólgota ela revelou o seu preço definitivo.
A tese deste artigo é esta: a misericórdia de Deus não é fraqueza divina diante do pecado humano. É a expressão mais custosa da sua grandeza, porque num Deus perfeitamente santo, ser misericordioso exige mais do que ser justo. A cruz é a prova mais eloquente dessa tese, mas ela é construída ao longo de toda a narrativa bíblica, desde a autodeclaração de Deus em Êxodo 34 até o pai que corre em Lucas 15 e o Mas Deus de Efésios 2.
Êxodo 34:6-7: quando Deus se apresenta a si mesmo
A autodeclaração mais completa do caráter divino em toda a Escritura
Êxodo 34:6-7 é o texto sobre o caráter de Deus mais citado, mais ecoado e mais referenciado em todo o Antigo Testamento. Ele aparece direta ou indiretamente em mais de vinte passagens subsequentes, dos Salmos aos profetas, como o texto fundacional sobre quem Deus é. E o contexto em que ele é pronunciado é tão teologicamente significativo quanto o conteúdo: é logo depois do episódio do bezerro de ouro, o momento de maior apostasia de Israel no deserto, quando Moisés havia quebrado as primeiras tábuas da lei e quando a própria continuidade do pacto estava em questão.
É nesse contexto de fracasso catastrófico e de graça improvável que Deus passa diante de Moisés e proclama o seu próprio nome: o Senhor, o Senhor Deus misericordioso e clemente, tardio em irar-se, e grande em benignidade e fidelidade, que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado. Os primeiros atributos que Deus declara sobre si mesmo não são a sua onipotência, a sua onisciência ou a sua soberania. São a misericórdia, a clemência e a paciência. A misericórdia é o primeiro predicado da autodeclaração divina, o que revela onde Deus quer que o encontremos antes de encontrá-lo em qualquer outro lugar.
Mas o versículo 7 introduz uma tensão que a leitura superficial frequentemente ignora e que é teologicamente indispensável: que de nenhum modo justificará o culpado. A misericórdia que perdoa a iniquidade e a transgressão é declarada no mesmo texto que afirma que Deus não justifica o culpado. Não é uma contradição. É a tensão mais importante da teologia do Antigo Testamento, a tensão que somente a cruz resolverá completamente: como pode Deus ser ao mesmo tempo misericordioso com o pecador e justo com o pecado? Êxodo 34 levanta a pergunta com toda a força. O Novo Testamento responde.
A misericórdia como o primeiro atributo da autodescrição divina
A ordem dos atributos na declaração de Êxodo 34 não é acidental. A tradição rabínica levou essa ordem muito a sério, observando que Deus se define primeiro pelo que ele é em relação à sua criatura antes de se definir pelo que ele é em si mesmo. A misericórdia, a clemência e a paciência são atributos relacionais, atributos que só fazem sentido num Deus que se relaciona com criaturas que precisam de misericórdia, que merecem julgamento e que testam a paciência. Deus não poderia ser misericordioso num vácuo. A misericórdia pressupõe uma criatura que precisa dela.
Isso significa que a misericórdia de Deus não é uma característica periférica do seu caráter, adicionada depois que o pecado entrou no mundo para lidar com uma situação imprevista. É uma característica central da sua natureza que encontrou no pecado humano o contexto para sua expressão mais plena. Agostinho, nas Confissões, observou que Deus não seria diminuído em nada se nenhuma criatura existisse, mas que a criação e a redenção revelam dimensões do caráter divino que a eternidade solitária não expressaria da mesma forma. A misericórdia de Deus brilha mais intensamente contra o fundo do pecado humano, da mesma forma que a luz brilha mais intensamente quanto mais profunda é a escuridão.
“Deus não é misericordioso porque o pecado o forçou a encontrar uma saída alternativa. Ele é misericordioso porque a misericórdia é quem ele é, e o pecado foi o contexto que revelou essa misericórdia em toda a sua profundidade.” — Agostinho de Hipona, Confissões
Hesed: o Amor Leal do Pacto que Não Depende do Parceiro
A palavra mais rica do Antigo Testamento
Hesed é provavelmente a palavra hebraica mais rica, mais ampla e mais difícil de traduzir de todo o Antigo Testamento. As versões bíblicas a traduzem como misericórdia, amor, bondade, graça, lealdade e amor constante, dependendo do contexto. Nenhuma dessas traduções isolada captura o campo semântico completo da palavra, porque hesed descreve uma realidade que combina amor, lealdade, compromisso de aliança e ação concreta numa única experiência que não tem equivalente preciso em nenhuma língua moderna.
O lexicógrafo hebraico Nelson Glueck, numa obra seminal sobre a palavra, argumentou que hesed é fundamentalmente um conceito de aliança: é o amor que flui de um relacionamento de compromisso mútuo, o amor que permanece fiel às obrigações do pacto mesmo quando o parceiro falha. Mas o que torna o hesed de Deus singular é que ele permanece fiel mesmo quando o parceiro humano viola completamente os termos do pacto. É um amor que não depende da reciprocidade para se manter. É unilateral na sua origem e bilateral apenas na sua expressão ideal.
O Salmo 103, o texto poético mais completo sobre o hesed divino, acumula imagens de misericórdia com uma intensidade que só a linguagem poética pode sustentar. Como o pai se compadece dos filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem. Porque ele sabe do que somos formados, e se lembra de que somos pó. O hesed de Deus é descrito como sendo do oriente ao ocidente, como é grande a distância dos nossos pecados de nós. É uma misericórdia que cobre toda a extensão possível da distância moral entre Deus e o homem, que não se esgota diante de nenhum pecado e que não se cansa diante de nenhuma reincidência.
Oseias: o hesed como amor conjugal de Deus por um povo infiel
O livro de Oseias é o texto narrativo mais intenso e mais desconcertante sobre o hesed divino em todo o Antigo Testamento. Deus instrui o profeta Oseias a casar com uma mulher que será infiel, e a relação entre Oseias e Gomer torna-se a metáfora viva da relação entre Yahweh e Israel. Gomer abandona Oseias repetidamente para se prostituir. E Deus instrui Oseias a ir buscá-la novamente, a comprá-la de volta da escravidão em que sua infidelidade a havia reduzido, e a restaurar o relacionamento.
O que torna Oseias teologicamente explosivo é o que ele revela sobre a natureza do hesed divino: ele persiste através da traição. Ele vai buscar o que fugiu. Ele compra de volta o que se vendeu. Oseias 2:14-15 contém uma das imagens mais surpreendentes de toda a Escritura: mas eis que eu a atrairei para mim, e a levarei ao deserto, e lhe falarei ao coração. O Deus traído não abandona. Ele vai ao deserto onde o povo havia fugido e fala ao coração de quem o havia desprezado. É uma imagem de amor que não consegue ser extinto pela infidelidade do amado, e que é tanto mais poderosa quanto mais claramente o texto deixa estabelecido que a infidelidade foi real e repetida.
“O hesed de Deus não é um amor que encontra qualidades admiráveis no amado e por isso permanece. É um amor que permanece apesar da ausência de qualidades admiráveis, e que por isso mesmo cria o que não existia.” — Walter Brueggemann, Teologia do Antigo Testamento
Lamentações 3: Misericórdia no Fundo do Abismo
O texto mais emocionalmente honesto sobre a misericórdia divina
Lamentações é o livro mais sombrio do cânon bíblico. É uma coleção de poemas de luto escritos depois da destruição de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C., quando o templo havia sido incendiado, a cidade havia sido saqueada, a monarquia havia sido extinta e o povo havia sido levado ao exílio. É o fundo do abismo da experiência de Israel, o momento em que todas as garantias visíveis da presença e da proteção de Deus haviam sido removidas.
É nesse contexto de devastação total que Lamentações 3:22-23 pronuncia as palavras que se tornaram um dos textos de esperança mais amados de toda a Escritura: as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim. Renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. O poeta e profeta Jeremias não está escrevendo de um lugar de conforto e segurança. Está escrevendo de dentro das ruínas, com a fumaça do templo ainda no ar e o choro dos exilados ainda nos ouvidos. E é precisamente ali, no lugar onde as misericórdias de Deus parecem mais ausentes, que ele as declara com maior convicção.
A estrutura do poema em Lamentações 3 é ela mesma uma declaração teológica. Os versículos 1 a 18 são uma descrição do sofrimento com uma honestidade devastadora: ele me fez andar nas trevas e não na luz. Voltou a sua mão contra mim repetidas vezes o dia todo. E então, no versículo 21, o poeta escreve: isso farei voltar ao meu coração, por isso esperarei. A decisão de lembrar a misericórdia de Deus não é uma negação da realidade do sofrimento. É uma escolha deliberada de orientar o coração para além das circunstâncias para o caráter de Deus, que permanece quando as circunstâncias mudam.
A misericórdia que não depende das circunstâncias para ser real
O que Lamentações 3 contribui para a teologia da misericórdia divina é um insight que nenhum texto escrito em circunstâncias confortáveis poderia oferecer com a mesma credibilidade: a misericórdia de Deus não é uma experiência emocional que flutua com as circunstâncias. É uma realidade ontológica sobre o caráter de Deus que permanece verdadeira independentemente do que as circunstâncias sugerem. O poeta de Lamentações não sente a misericórdia de Deus quando escreve o versículo 22. Ele a declara. E a declaração, feita no fundo do abismo, é mais poderosa teologicamente do que qualquer declaração feita de um lugar de segurança e conforto.
Charles Spurgeon, pregando sobre Lamentações, observou que os textos mais ricos da Escritura sobre a fidelidade e a misericórdia de Deus foram frequentemente escritos por pessoas que estavam experimentando exatamente o oposto na superfície das suas circunstâncias. Davi escrevendo sobre o pastor que guia o rebanho enquanto fugia de Saul. Paulo escrevendo sobre a paz que excede todo entendimento de dentro de uma prisão. Jeremias declarando as misericórdias divinas de dentro das ruínas de Jerusalém. A fé que declara a misericórdia de Deus no fundo do abismo não é uma fé ingênua que ignora a realidade. É a fé mais robusta que existe, porque se recusa a deixar que as circunstâncias sejam mais eloquentes do que o caráter de Deus.
“A misericórdia de Deus é nova cada manhã não porque o dia anterior a tenha esgotado, mas porque cada dia apresenta uma nova necessidade que a misericórdia divina se apressa a suprir.” — Charles Spurgeon, Tesouros de Davi
Lucas 15: o Pai que Corre
As três parábolas da perda e o retrato mais vívido da misericórdia divina
Lucas 15 contém três parábolas que formam uma unidade literária e teológica deliberadamente construída por Jesus como resposta às críticas dos fariseus e escribas que murmuravam dizendo: este recebe pecadores e come com eles. As três parábolas, a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho pródigo, compartilham a mesma estrutura narrativa: algo de valor é perdido, há uma busca ou uma espera, o perdido é encontrado ou retorna, e há uma celebração desproporcional. A progressão das três parábolas é também uma progressão de valor, de uma ovelha entre cem para uma moeda entre dez para um filho, e de iniciativa, de uma busca ativa para uma espera vigilante.
A parábola do filho pródigo, ou mais precisamente do pai misericordioso, é o clímax da sequência e o retrato mais vívido da misericórdia divina em toda a literatura bíblica. O filho que pede a herança antes da morte do pai, um gesto que na cultura do Antigo Oriente Médio equivalia a desejar a morte do pai, que vai para um país distante, que desperdiça tudo em vida dissoluta e que retorna reduzido à condição mais humilhante possível, é o retrato da condição humana diante de Deus com uma honestidade que não tem paralelo.
Mas o elemento mais desconcertante da parábola não é a miséria do filho. É a reação do pai. Lucas 15:20 registra um detalhe que qualquer ouvinte judeu do primeiro século teria imediatamente reconhecido como extraordinário: quando ainda estava longe, seu pai o viu e, movido de íntima compaixão, correu, lançou-se ao seu pescoço e o beijou. Um homem de posição e de idade não corria no mundo do Mediterrâneo antigo. Correr era considerado indigno, uma exposição de vulnerabilidade e uma perda de decoro que nenhum patriarca respeitável se permitiria. Jesus está descrevendo um pai que perde a compostura completamente diante do retorno do filho, que corre para encontrá-lo no caminho e que o abraça antes que o filho tenha terminado o discurso de arrependimento que havia preparado.
O filho mais velho: o perigo da religiosidade sem misericórdia
A parábola não termina com a festa. Termina com o filho mais velho do lado de fora, recusando-se a entrar, indignado com a recepção que o irmão pródigo havia recebido. Ele declara ao pai que serviu fielmente por todos esses anos, que nunca transgrediu nenhum mandamento, e que nunca recebeu nem um cabrito para celebrar com os amigos. É o retrato de uma religiosidade que acredita que a fidelidade gera direitos, que o cumprimento das obrigações cria uma dívida de parte de Deus, e que a graça concedida a outros é uma injustiça cometida contra si mesmo.
A resposta do pai ao filho mais velho é uma das afirmações mais pastoralmente ricas de toda a narrativa de Jesus: filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas convinha fazer festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. O pai não valida a queixa do filho mais velho nem confirma que ele merecia mais do que recebeu. Ele simplesmente revela que a misericórdia concedida ao irmão não diminuiu em nada o que pertencia ao filho fiel. A misericórdia de Deus não é um recurso escasso que se esgota quando é concedida a outros. É um atributo infinito que não precisa ser racionado.
“O filho mais velho é o personagem mais perigoso da parábola porque é o mais parecido com o leitor religioso. Ele nunca saiu de casa. E mesmo assim estava tão longe do coração do pai quanto o irmão que havia ido para um país distante.” — Tim Keller, O Filho Pródigo
Efésios 2:4-5: o Mas Deus que Muda Tudo
A misericórdia como fundamento exclusivo da salvação
Efésios 2:1-3 é uma das descrições mais sombrias da condição humana fora de Cristo em todo o Novo Testamento. Paulo acumula imagens de morte espiritual, de obediência ao príncipe da potestade do ar, de vivência nas concupiscências da carne e de ser por natureza filhos da ira, como os demais. É um retrato sem retoques de uma humanidade que não apenas peca ocasionalmente, mas que está morta, que está escravizada e que está sob ira. Não há nenhum elemento de potencial humano não realizado nessa descrição. Há apenas morte, escravidão e condenação.
E então Paulo escreve dois dos versículos mais explosivos de toda a sua epistolografia: mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em ofensas, nos deu vida juntamente com Cristo. Pela graça sois salvos. A conjunção adversativa mas Deus é o pivô de toda a teologia paulina da salvação. Ela não suaviza o retrato do versículo anterior. Ela o pressupõe completamente e então declara que a única razão pela qual a história não termina ali é a misericórdia de Deus.
A expressão sendo rico em misericórdia é teologicamente precisa e pastoralmente exuberante. Paulo não diz que Deus tem misericórdia suficiente para lidar com a situação, como quem tem recursos suficientes para pagar uma conta inesperada. Diz que Deus é rico em misericórdia, que a misericórdia é uma riqueza abundante que transborda, que excede a necessidade e que não corre risco de se esgotar diante de nenhuma demanda humana. A misericórdia que salva não é uma misericórdia racionada. É a misericórdia de um Deus cuja riqueza em misericórdia é tão real quanto sua riqueza em poder e em sabedoria.
Mortos em delitos: por que a misericórdia precisava ser tão radical
A radicalidade da misericórdia em Efésios 2 é proporcional à radicalidade da condição que ela veio endereçar. Mortos em delitos e pecados não é uma metáfora poética para uma situação difícil. É uma declaração ontológica sobre a condição do ser humano fora de Cristo. Os mortos não precisam de ajuda. Não precisam de conselhos, de motivação ou de melhores condições. Precisam de vida, e a vida é precisamente o que eles não podem gerar por si mesmos.
Isso significa que a salvação descrita em Efésios 2 não é Deus ajudando alguém que estava tentando mas precisava de um impulso extra. É Deus dando vida a quem estava morto, transformando inimigos em filhos, resgatando os que não tinham nenhum recurso para contribuir com o próprio resgate. E é exatamente essa impossibilidade humana que torna a misericórdia divina tão gloriosa: ela não complementa o esforço humano. Ela substitui a incapacidade humana com a capacidade infinita de um Deus rico em misericórdia.
“O mas Deus de Efésios 2 é a intervenção mais dramática da história do universo. Toda a devastação dos versículos anteriores existe para que o leitor entenda o que a misericórdia de Deus venceu.” — John Stott, A Mensagem de Efésios
A Cruz: onde a Misericórdia e a Justiça se Abraçam
O único lugar onde Deus pode ser simultaneamente misericordioso e justo
A questão que Êxodo 34:7 deixou em aberto, como pode Deus ser misericordioso com o pecador sem justificar o culpado, encontra sua resposta definitiva no Gólgota. A cruz não é apenas uma demonstração do amor de Deus. É a solução para o problema mais profundo da teologia, o problema de como um Deus perfeitamente justo pode ser misericordioso com seres perfeitamente culpados sem trair a sua própria natureza.
Paulo articula esse ponto em Romanos 3:25-26 com uma precisão que ainda impressiona depois de dois mil anos: para demonstrar a sua justiça, por ter deixado sem punição os pecados anteriores, na tolerância de Deus, a fim de demonstrar a sua justiça no tempo presente, para ser ele mesmo justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. A cruz é a demonstração simultânea da justiça e da misericórdia de Deus. Ela prova que Deus levou o pecado a sério, que ele não fechou os olhos, que a justiça foi satisfeita completamente. E ela prova que Deus é misericordioso, que o pecador pode ser justificado, que o culpado pode ser declarado inocente.
A misericórdia que custa tudo é a misericórdia mais credível que existe. Um pai que perdoa o filho que o feriu sem nenhum custo para si mesmo está exercendo uma misericórdia fácil, que não revela a profundidade do amor nem a seriedade da ofensa. O pai que perdoa o filho absorvendo ele mesmo o custo da ofensa está exercendo uma misericórdia que honra simultaneamente o amor que perdoa e a justiça que reconhece que a ofensa foi real. É precisamente esse tipo de misericórdia que a cruz revela: não uma misericórdia que ignora o pecado, mas uma misericórdia que o absorve, que paga o seu preço, que satisfaz a justiça para que o perdão seja genuíno e não uma ficção moral.
A misericórdia recebida como fundamento da misericórdia praticada
A misericórdia de Deus não é apenas um objeto de contemplação teológica. É o fundamento e o modelo da misericórdia que o crente é chamado a praticar. Jesus, no Sermão da Montanha, declara: bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. E na parábola do devedor impiedoso em Mateus 18, o servo que havia recebido o perdão de uma dívida impagável e que em seguida negou misericórdia a um devedor por uma quantia ínfima é descrito como tendo incompreendido completamente a misericórdia que havia recebido.
Paulo, em Efésios 4:32, formula o princípio com precisão: sede bondosos e misericordiosos uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, assim como também Deus vos perdoou em Cristo. A misericórdia praticada pelo crente não é uma virtude autônoma cultivada por esforço moral. É o eco da misericórdia recebida, a resposta natural de um coração que compreendeu a profundidade do que lhe foi dado. Quem entendeu que foi alcançado pela misericórdia de um Deus rico em misericórdia quando estava morto em delitos não consegue reter essa misericórdia de outros que precisam dela.
“A medida da nossa misericórdia com os outros é a medida da nossa compreensão da misericórdia que recebemos. Quem é difícil de perdoar ainda não entendeu o quanto foi perdoado.” — Martinho Lutero, Sermão sobre o Pai Nosso
Conclusão: a Misericórdia como o Primeiro e o Último Atributo
A misericórdia de Deus, percorrida do Êxodo ao Gólgota e do Gólgota à vida cotidiana do crente, é simultaneamente o atributo mais gratuito e o mais caro que existe. Gratuito porque nada no receptor a justifica ou a provoca. Caro porque num Deus perfeitamente santo, ser misericordioso exige que o custo do pecado seja absorvido por alguém, e Deus, na cruz, absorveu esse custo ele mesmo.
Êxodo 34 revelou que a misericórdia é o primeiro predicado da autodescrição divina, o lugar onde Deus quer ser encontrado antes de ser encontrado em qualquer outro atributo. Hesed demonstrou que essa misericórdia é um amor de aliança que não depende da fidelidade do parceiro para permanecer, que vai ao deserto buscar o que fugiu e que compra de volta o que se vendeu. Lamentações 3 provou que essa misericórdia é declarável mesmo no fundo do abismo, que ela não flutua com as circunstâncias porque está ancorada no caráter imutável de Deus. Lucas 15 colocou rosto nessa misericórdia: é o pai que corre, que perde a compostura, que abraça o que cheira a porcos e que organiza uma festa antes que o discurso de arrependimento seja concluído. Efésios 2 revelou que essa misericórdia é o único fundamento da salvação, o mas Deus que interrompe a trajetória de morte e a redireciona para a vida. E a cruz provou que essa misericórdia não é barata, que ela honra simultaneamente o amor que perdoa e a justiça que reconhece a realidade do pecado.
O crente que habita essa misericórdia não a recebe apenas como benefício pessoal. Recebe-a como vocação. Porque o Deus que é rico em misericórdia chama os seus filhos a participar da sua própria natureza misericordiosa, a serem no mundo o que o pai da parábola foi para o filho pródigo: aquele que vê de longe, que corre, que abraça e que celebra o retorno do que estava perdido. A misericórdia recebida que não se transforma em misericórdia praticada é uma misericórdia ainda não compreendida em toda a sua profundidade.
Sobre o Autor
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BIBLIOGRAFIA
Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.
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