Aliança Davídica

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Aliança Davídica: O Pacto do Trono Eterno – Davi, o Messias e o Reino que não terá fim

Aliança Davídica - Rev. Fabiano Queiroz

1. Definição e Delimitação do Termo

1.1 O Que É a Aliança Davídica?

A Aliança Davídica é o pacto estabelecido por Deus com o rei Davi, registrado primariamente em 2 Samuel 7 (paralelo em 1 Crônicas 17), pelo qual Deus prometeu a Davi que sua dinastia seria perpétua, que um de seus descendentes edificaria a casa de Deus e que seu trono seria estabelecido para sempre. É a aliança que conecta diretamente a história da monarquia israelita à esperança messiânica e ao reino eterno de Cristo.

A aliança davídica ocupa um lugar pivotal na história das alianças: ela está firmada na aliança abraâmica (Davi é descendente de Abraão, e as promessas a ele se aprofundam as promessas a Abraão), requalifica a aliança mosaica nacional (o rei davídico deve guardar a lei de Moisés — 1Rs 2.3) e aponta diretamente para a nova aliança (o Messias da linhagem de Davi inaugura o reino eterno prometido).

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1.2 Terminologia

  • Aliança Davídica / Pacto Davídico: terminologia teológica padrão, referência ao beneficiário da aliança.
  • Aliança Real / Aliança do Trono: destaca o elemento central, a promessa de trono perpétuo.
  • Aliança Messiânica: destaca a dimensão escatológica, a aliança que aponta para o Messias, o ungido por excelência.
  • Oráculo de Natã: referência ao texto específico de 2 Samuel 7, entregue pelo profeta Natã a Davi.

2. O Texto Fundacional: 2 Samuel 7

2.1 O Contexto Narrativo

O oráculo de Natã em 2 Samuel 7 surge de um ato de piedade de Davi. O rei, estabelecido em seu palácio de cedro em Jerusalém, propõe ao profeta Natã construir uma casa para Deus, afinal, parece incongruente que Davi habite em cedro enquanto a arca de Deus permanece em tendas. Natã inicialmente aprova a ideia. Mas Deus intervém com uma resposta surpreendente: Davi não construirá uma casa para Deus, Deus construirá uma casa para Davi.

A inversão é teologicamente radical: Davi queria dar; Deus decide dar. E o presente que Deus oferece é imensamente maior do que o que Davi tinha em mente: não um templo de pedra, mas uma dinastia eterna. A aliança davídica é um presente unilateral de graça soberana, não foi buscada, não foi negociada, não foi conquistada por Davi. Deus a institui por pura iniciativa.

2.2 O Texto: 2 Samuel 7.8–16

“Assim dirás ao meu servo Davi: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eu te tirei do pasto, de detrás das ovelhas, para que fosses príncipe sobre o meu povo Israel… E farei contigo casa. E será que, quando se cumprirem os teus dias e tu dormires com teus pais, então farei levantar a tua descendência depois de ti… Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei o trono do seu reino para sempre… A tua casa e o teu reino serão estabelecidos para sempre diante de ti; o teu trono será firme para sempre.” 2 Samuel 7.8–9, 11b–13, 16

2.3 Elementos Estruturais da Aliança

  • A iniciativa de Deus (v.8): “Eu te tirei”, o mesmo padrão do prólogo de Êxodo 20.2. Deus age antes de exigir.
  • A promessa dinástica (v.11b–12): a “casa” (beth) que Deus promete a Davi é uma dinastia, a linhagem real que continuará.
  • O filho construtor do templo (v.13): um descendente específico edificará a casa de Deus. Salomão é o cumprimento histórico imediato; Cristo é o cumprimento escatológico pleno (Jo 2.19–21).
  • A relação pai-filho (v.14): “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho”, terminologia da adoção real que Paulo aplicará a Cristo (2Co 6.18; Hb 1.5).
  • A disciplina paterna (v.14b): o filho poderá ser disciplinado, mas a misericórdia não será retirada — distinção da aliança das obras, onde a desobediência acarretaria perda.
  • A perpetuidade do trono (v.16): “para sempre” (le-olam), o reino não terá fim. Esta é a promessa mais radical e a que mais claramente aponta além de qualquer rei humano para o Messias.

3. Análise Histórica

3.1 Patrística: A Aliança Davídica e a Cristologia

Os pais da Igreja interpretaram a aliança davídica quase exclusivamente de forma cristológica, como a promessa do Messias que se cumpriu em Jesus. Justino Mártir (c. 100–165 d.C.), no Diálogo com Trifão, argumenta extensamente que Salmo 2 e Salmo 110 são profecias messiânicas que se cumpriram em Jesus, não em nenhum rei histórico de Israel. Para Justino, a aliança davídica era fundamentalmente sobre Cristo.

Inácio de Antioquia (c. 35–108 d.C.) já na geração apostólica afirmava Cristo como “da linhagem de Davi segundo a carne” (Carta aos Romanos 7.3), aplicando diretamente Romanos 1.3 à identidade de Jesus. A descendência davídica de Cristo era um elemento central da cristologia apostólica.

Atanásio de Alexandria (296–373 d.C.) em De Incarnatione conecta a aliança davídica com a doutrina da encarnação: o Filho eterno de Deus assumiu a humanidade especificamente da linhagem de Davi para cumprir a promessa do trono eterno. A encarnação não foi aleatória quanto à linhagem, foi a entrada do Filho de Deus na história através da linha de Davi.

3.2 Medieval: Davi como Tipo de Cristo

A exegese medieval desenvolveu extensamente a tipologia Davi-Cristo. Bernardo de Claraval (1090–1153 d.C.) em seus sermões sobre o Cântico dos Cânticos e os Salmos tratou Davi como o tipo mais perfeito de Cristo no AT, o rei-pastor, o poeta-adorador, o guerreiro-misericordioso. A leitura alegórica dos Salmos como orações de Cristo foi a abordagem dominante da espiritualidade medieval.

Tomás de Aquino (1225–1274 d.C.) tratou a aliança davídica dentro de sua doutrina da revelação progressiva: as promessas a Davi foram dadas de forma mais explícita do que as promessas a Abraão, revelando progressivamente o plano divino para o Messias. Para Tomás, as promessas a Davi tinham um duplo sentido literal, aplicando-se tanto a Salomão quanto a Cristo, sem que o sentido cristológico fosse meramente alegórico.

3.3 A Reforma e a Interpretação Cristológica

João Calvino, em seus Comentários sobre 2 Samuel 7 e os Salmos, manteve a leitura cristológica como primária. Para Calvino, Salomão foi o cumprimento histórico imediato e imperfeito da promessa; Cristo é o cumprimento pleno e eterno. A promessa de um trono “para sempre” não pôde ser cumprida por nenhum rei mortal, aponta necessariamente além da história humana para o Filho de Deus encarnado.

Calvino desenvolveu também a tipologia sacerdotal-real: Davi era rei e parcialmente profeta; mas a promessa de 2 Samuel 7 aponta para alguém que seria simultaneamente rei, sacerdote e profeta de forma perfeita, os três ofícios que a teologia reformada (munus triplex) atribui a Cristo.

3.4 O Debate Moderno: O Milênio e a Restauração de Israel

A aliança davídica tornou-se o epicentro do debate escatológico moderno entre o dispensacionalismo e as teologias amilenaristas e pós-milenaristas. A questão central é: as promessas da aliança davídica foram completamente cumpridas na primeira vinda de Cristo, ou aguardam um cumprimento futuro literal sobre o trono de Davi em Jerusalém?

Os dispensacionalistas clássicos (Scofield, Ryrie) afirmaram que a Igreja herdou as promessas espirituais da aliança davídica, mas que as promessas literais e nacionais aguardam o milênio, quando Cristo reinará fisicamente em Jerusalém sobre Israel. Os teólogos do pacto (Murray, Robertson, Vos) responderam que a ascensão de Cristo ao trono à direita do Pai é o cumprimento pleno da promessa davídica, que o trono eterno é celestial e universal, não terreno e nacional.

4. Análise Exegética

4.1 O Salmo 2: A Entronização do Filho

“Proclamarei o decreto: O Senhor me disse: Tu és meu filho; eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e os confins da terra por tua possessão.” Salmo 2.7–8

O Salmo 2 é o texto do AT mais citado no NT em conexão com a aliança davídica. O decreto real de entronização, “Tu és meu filho; eu hoje te gerei”, é citado três vezes no NT como cumprido em Cristo: na ressurreição (At 13.33), na encarnação/batismo (Hb 1.5) e na exaltação (Hb 5.5). A “herança das nações” aponta para o reino universal de Cristo, que transcende qualquer rei israelita histórico.

4.2 O Salmo 89: A Crise da Aliança

“Fiz aliança com o meu escolhido; jurei ao meu servo Davi: Estabelecerei a tua descendência para sempre… Mas tu rejeitaste e lançaste fora; encolerizaste-te com o teu ungido. Tornaste sem efeito a aliança do teu servo; lançaste ao chão a sua coroa.” Salmo 89.3–4, 38–39

O Salmo 89 é o Salmo da crise: a primeira parte celebra a aliança davídica com euforia (vv.1–37); a segunda clama pela aparente contradição entre a promessa e a realidade do exílio (vv.38–51). O exílio babilônico (586 a.C.) parecia negar a aliança davídica: onde estava o trono eterno prometido? Esta tensão é resolvida no NT pela ressurreição: o exílio escatológico do pecado e da morte foi revertido pela ressurreição de Cristo, que estabelece definitivamente o trono que o exílio histórico havia abalado.

4.3 Atos 2.29–36: Pedro e o Cumprimento Davídico

“Irmãos, é permitido dizer-vos, com franqueza, a respeito do patriarca Davi, que ele morreu, e foi sepultado, e o seu túmulo está entre nós… Pois Davi não subiu aos céus, mas ele mesmo diz: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita… Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” Atos 2.29–32, 34–36

Pedro no Pentecostes aplica explicitamente a aliança davídica à ressurreição e ascensão de Cristo. O argumento é exegético: Davi morreu e foi sepultado, portanto, quando o Salmo 16 fala de não ver corrupção, não pode ser sobre Davi. E quando o Salmo 110 fala de “sentar-se à direita” do Senhor, Davi o disse de Outro, seu Senhor. A aliança davídica, na leitura apostólica, se cumpriu na exaltação de Cristo ao trono celestial.

4.4 Lucas 1.30–33: O Anúncio a Maria

“Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; e reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim.” Lucas 1.32–33

O anúncio do anjo a Maria é a afirmação evangélica mais direta do cumprimento da aliança davídica: Jesus receberá o trono de Davi e seu reino não terá fim. O evangelista Lucas posiciona o nascimento de Jesus explicitamente dentro da estrutura da aliança davídica, ele é o herdeiro legítimo do trono prometido a Davi, e seu reino é o cumprimento definitivo da promessa de 2 Samuel 7.16.

5. Tabela: Os Elementos da Aliança Davídica e Seus Cumprimentos

Elemento da Aliança Davídica (2 Samuel 7)Cumprimento Histórico Parcial (Salomão e a monarquia)Cumprimento Escatológico Pleno (Jesus Cristo)
“Levantarei a tua descendência” (v.12)Salomão, filho de Davi, sucede ao tronoCristo como “filho de Davi” (Mt 1.1; Rm 1.3): descendente genealógico e o Filho de Deus
“Ele edificará uma casa para o meu nome” (v.13)Salomão constrói o Templo de Jerusalém (1Rs 6–8)Cristo é o templo (Jo 2.21); seu corpo, a Igreja, é o novo templo (1Co 3.16–17; Ef 2.19–22)
“Estabelecerei o trono do seu reino para sempre” (v.13)A dinastia davídica reinou por 400 anos; trono interrompido pelo exílio babilônico (586 a.C.)Cristo ressuscitado exaltado ao trono à direita do Pai (At 2.32–36); seu reino não terá fim (Lc 1.32–33; Ap 11.15)
“Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” (v.14)Relação pactual com cada rei davídico; disciplina como pai ao filhoPlenamente cumprido em Cristo como Filho eterno de Deus (Sl 2.7 citado em At 13.33; Hb 1.5)
“A tua misericórdia não se apartará dele” (v.15)Deus preservou a linha davídica mesmo em meio à apostasia e ao exílioCristo como o Rei que nunca apostata; a graça sobre ele é eterna e irrevogável
“A tua casa e o teu reino serão estabelecidos para sempre” (v.16)A promessa foi parcialmente cumprida, mas o exílio pareceu negá-laRessurreição e ascensão: Cristo estabelece o reino eterno; o exílio espiritual é revertido

6. Análise Teológica Sistemática

6.1 A Aliança Davídica e a Cristologia

A aliança davídica é o ponto de articulação mais preciso entre a história do AT e a cristologia do NT. Ela especifica aquilo que as alianças anteriores deixavam em aberto: o Messias prometido a Abraão (Gn 12.3), o profeta como Moisés (Dt 18.15) e o sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.4) será da linhagem de Davi, reinará sobre um reino eterno e terá com Deus uma relação de filiação divina.

Os três ofícios de Cristo, profeta, sacerdote e rei, convergem na aliança davídica: o rei davídico era também o guardião da aliança (função profética), o ungido do Senhor (função sacerdotal) e o governante do povo de Deus (função real). Cristo cumpre todos os três de forma perfeita e definitiva.

6.2 Vos e a Escatologização da Aliança Davídica

Geerhardus Vos, em sua teologia bíblica, enfatiza que a aliança davídica escatologizou a esperança de Israel: as promessas de “para sempre” e “eternamente” que caracterizam a aliança davídica introduziram na consciência israelita uma dimensão que transcendia qualquer realização histórica. Nenhum rei humano poderia satisfazer a promessa de um trono eterno, a aliança davídica apontava, por sua própria natureza, para além da história, para o reino escatológico de Deus.

Esta perspectiva vosiana é fundamental: a aliança davídica não é apenas história política israelita, é a revelação progressiva do reino escatológico que Deus desde sempre planejou. O trono de Davi é o símbolo histórico do trono eterno de Deus sobre toda a criação, trono que Cristo, como Filho do homem e Filho de Deus, ocupa pela ascensão e ocupará plenamente na parousia.

6.3 A Aliança Davídica e a Eclesiologia

A aliança davídica tem implicações eclesiológicas que frequentemente são negligenciadas. Se Cristo é o Rei davídico que reina agora sobre seu povo, a Igreja é o reino davídico em sua forma presente, o povo sob o governo do Rei eterno. Isto significa:

  • A Igreja não é uma pausa no plano de Deus enquanto aguarda a “restauração de Israel”, ela é a realização presente do reino davídico prometido.
  • O ministério da Igreja, pregação, sacramentos, disciplina, é o exercício da autoridade real do Cristo davídico sobre seu povo.
  • A missão da Igreja é a expansão do reino davídico até os confins da terra, cumprindo a promessa de Salmo 2.8: “as nações por herança”.

7. As Principais Interpretações da Aliança Davídica

TradiçãoNatureza do CumprimentoO Trono de DaviIsrael e a Igreja
Teologia do Pacto ReformadaTipológico-espiritual: Cristo é o Davi definitivo que cumpriu todas as promessas; não há cumprimento físico-nacional futuro além do que Cristo já inaugurouJá estabelecido na ascensão de Cristo; ele reina agora à direita do PaiIsrael e Igreja são administrações diferentes do mesmo povo de Deus; as promessas a Israel se cumprem na Igreja
Dispensacionalismo Clássico (Scofield, Ryrie)As promessas têm dois cumprimentos: espiritual (Igreja) e literal-nacional (Israel futuro no milênio)Cristo reinará literalmente em Jerusalém sobre Israel por 1.000 anos (o milênio terreno)Israel e Igreja são dois povos distintos de Deus; as promessas a Israel não se cumprem na Igreja — aguardam o milênio
Dispensacionalismo Progressivo (Bock, Saucy)O reino davídico é inaugurado na ascensão de Cristo mas terá cumprimento escatológico expandido; Israel terá papel especial no futuroInaugurado mas não completado; aguarda cumprimento futuro mais plenoIsrael e Igreja distintos, mas as promessas se sobrepõem parcialmente
Premilenarismo Histórico (Ladd)Cristo cumpre a aliança davídica; um milênio terreno pode ser esperado, mas não requer restauração nacional de Israel como em Dt. ClássicoPresente espiritualmente; futuro também em forma mais plenaIsrael e Igreja distintos, mas as promessas a Israel se cumprem através da Igreja
Amilenialismo Reformado (Hoekema, Vos)Cristo cumpriu completamente a aliança davídica; o milênio é o período presente entre a primeira e a segunda vindasEstabelecido na ascensão; Cristo reina agora no céu sobre a Igreja e a históriaA Igreja é o Israel escatológico; as promessas a Israel se cumprem na nova criação

8. A Aliança Davídica e os Salmos

Os Salmos são o comentário teológico mais rico da aliança davídica. Vários Salmos chamados de “Salmos Reais” (2, 18, 20, 21, 45, 72, 89, 101, 110, 132, 144) desenvolvem a teologia da aliança davídica e são consistentemente aplicados a Cristo no NT:

  • Salmo 2: Entronização do Filho, citado em At 13.33; Hb 1.5; 5.5.
  • Salmo 22: O Rei sofredor, citado extensamente na narrativa da Paixão (Mt 27.46; Jo 19.24).
  • Salmo 45: O Rei e sua Noiva, aplicado a Cristo e à Igreja em Hb 1.8–9.
  • Salmo 72: O Rei de justiça e paz, cumprido no reino universal de Cristo.
  • Salmo 89: A crise e a fidelidade da aliança davídica.
  • Salmo 110: O Rei-Sacerdote à direita de Deus, o Salmo mais citado no NT, aplicado consistentemente a Cristo (Mt 22.44; At 2.34–35; Hb 1.13; 5.6; 7.17, 21; 10.13).
“O Salmo 110 é a chave para a aliança davídica e para a cristologia neotestamentária. Quando Davi chama seu descendente de ‘meu Senhor’, revela que a aliança davídica aponta para Alguém maior do que qualquer rei humano, o Filho de Deus que é ao mesmo tempo descendente de Davi e Senhor de Davi.” — Geerhardus Vos

9. Aplicação Pastoral

9.1 A Segurança do Reino

A aliança davídica garante ao crente a segurança do reino: Cristo reina agora, e seu reino não pode ser derrubado. O mundo pode parecer caótico; os poderes humanos podem parecer ameaçadores; a Igreja pode parecer fraca. Mas o Rei davídico está entronizado à direita do Pai, e toda autoridade nos céus e na terra já lhe foi dada (Mt 28.18). A aliança davídica é o fundamento da esperança e da confiança cristã no meio da tribulação.

9.2 O Presente e o Futuro do Reino

Heber Carlos de Campos Filho destaca a tensão pastoral criativa entre o “já” e o “ainda não” do reino davídico: o reino já foi inaugurado (Cristo reina agora), mas ainda não foi consumado (Cristo ainda não voltou para julgar e restaurar tudo). Esta tensão governa a vida da Igreja: vivemos como cidadãos do reino que já veio, aguardando a consumação do reino que ainda virá. Nenhum dos dois polos pode ser abandonado, nem o triunfalismo (que ignora o “ainda não”) nem o pessimismo (que ignora o “já”).

9.3 A Esperança Messiânica nos Salmos

Mauro Meinster sugere que a leitura dos Salmos Reais como orações de Cristo, uma tradição que vem de Agostinho e que a Reforma reavivou, é uma forma poderosa de aprofundar a experiência devocional do crente. Quando o Salmo 22 é lido como a oração de Cristo na cruz, ou o Salmo 110 como a proclamação de sua entronização, os Salmos tornam-se janelas para a história da redenção e instrumentos de adoração cristológica.

10. FAQ – Perguntas Frequentes

A aliança davídica inclui promessas territoriais?

A aliança davídica em si não inclui promessas territoriais explícitas, ao contrário da aliança abraâmica (Gn 12.7; 17.8). A aliança davídica é primariamente sobre a dinastia, o filho-construtor e o trono eterno. As promessas territoriais pertencem à aliança abraâmica e à aliança mosaica. Na perspectiva reformada, estas promessas territoriais se cumprem escatologicamente na nova terra (nova criação), não em um Israel nacional restaurado geograficamente.

Por que Deus disse que Davi não construiria o templo?

1 Crônicas 22.8 e 28.3 revelam que Deus impediu Davi de construir o templo porque era “homem de guerra” que havia derramado muito sangue. O construtor deveria ser um homem de paz, Salomão, cujo nome deriva de shalom (paz). Isso é tipologicamente significativo: Cristo, o Príncipe da Paz (Is 9.6), é quem efetivamente edifica o templo espiritual, a Igreja, como o verdadeiro Salomão escatológico.

Deus está cumprindo as promessas a Davi agora, ou aguarda o milênio?

A posição reformada é que o cumprimento está em andamento agora e será completado na parousia. Cristo recebeu o trono davídico na ascensão (At 2.34–36); ele reina agora sobre seu povo e sobre a história; na segunda vinda, este reino se manifestará de forma plena e visível para todo o cosmos. Não é necessário um milênio terreno em Jerusalém para cumprir as promessas davídicas, a ascensão e a parousia são suficientes.

11. Conclusão: O Trono que Não Cai

A aliança davídica é a aliança da esperança: no meio da história de fracassos, exílios e apostasias dos reis israelitas, Deus manteve sua promessa de um trono eterno. Quando o último rei davídico foi exilado para a Babilônia (586 a.C.) e o trono pareceu extinto, a aliança davídica foi mantida na expectativa profética, na proclamação de Isaías sobre o Broto de Jessé (Is 11), na visão de Ezequiel sobre o príncipe davídico futuro (Ez 37.24–25), no anúncio de Jeremias sobre o Ramo Justo (Jr 23.5–6).

E quando o anjo proclamou a Maria que seu filho receberia “o trono de Davi seu pai” (Lc 1.32), a aliança davídica chegou ao seu cumprimento, não no palácio de Jerusalém, mas no ventre de uma virgem; não com exércitos de cavalaria, mas com manjedoura em Belém; não com o poder que o mundo esperava, mas com o poder que Deus havia planejado desde antes da fundação do mundo.

“O trono de Davi não está vazio, nunca esteve. Está ocupado pelo Filho de Deus encarnado, que morreu para conquistar seu reino, ressuscitou para inaugurá-lo e voltará para consumá-lo. A aliança davídica é a promessa de que o universo tem um Rei, e que esse Rei é bom.” — Heber Carlos de Campos Filho

12. Sobre o Autor

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13. Referências

Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.

  • VOS, Geerhardus. Biblical Theology: Old and New Testaments. Grand Rapids: Eerdmans, 1948.
  • ROBERTSON, O. Palmer. The Christ of the Covenants. Phillipsburg: P&R Publishing, 1980.
  • CALVINO, João. Comentários sobre os Salmos. São Paulo: Fiel, 2009.
  • HORTON, Michael. God of Promise: Introducing Covenant Theology. Grand Rapids: Baker Books, 2006.
  • ATANÁSIO. Da Encarnação do Verbo. São Paulo: Paulus, 2012.
  • LADD, George Eldon. A Theology of the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1974.
  • HOEKEMA, Anthony A. The Bible and the Future. Grand Rapids: Eerdmans, 1979.
  • GENTRY, Peter J.; WELLUM, Stephen J. Kingdom through Covenant. Wheaton: Crossway, 2012.
  • CAMPOS, Heber Carlos de (Pai). Pregação Expositiva. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
  • MEINSTER, Mauro. O Decálogo e a Vida Cristã. [referência pastoral].
  • ANDERSON, A.A. 2 Samuel. WBC 11. Dallas: Word Books, 1989.
  • DEMPSTER, Stephen G. Dominion and Dynasty. Downers Grove: IVP Academic, 2003.
  • SCOFIELD, C.I. The Scofield Reference Bible. New York: Oxford University Press, 1917.

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