Conteúdo
- 1 Nova Aliança a Aliança da Graça: Jeremias 31, Ezequiel 36, Hebreus 8–10 e o cumprimento escatológico da aliança de Deus com seu povo
- 2 1. Definição e Delimitação do Termo
- 3 2. Análise Histórica
- 4 3. Análise Exegética dos Textos Fundacionais
- 5 4. Análise Teológica Sistemática
- 6 5. Tabela Comparativa: Aliança Mosaica vs. Nova Aliança
- 7 6. Principais Posições Teológicas sobre a Nova Aliança
- 8 7. A Nova Aliança e o Decálogo: Conexão Central da Série
- 9 8. FAQ – Perguntas Frequentes
- 10 9. Conclusão: A Aliança Final
- 11 10. Sobre o Autor
- 12 11. Referências
Nova Aliança a Aliança da Graça: Jeremias 31, Ezequiel 36, Hebreus 8–10 e o cumprimento escatológico da aliança de Deus com seu povo

1. Definição e Delimitação do Termo
1.1 O Que É a Nova Aliança?
A Nova Aliança (hebraico: berit chadashah; grego: kaine diatheke) é a aliança escatológica prometida pelos profetas do AT e inaugurada por Jesus Cristo em seu sangue derramado na cruz. É chamada “nova” (chadash em hebraico, novo no sentido de renovado, qualitativo, não apenas numericamente diferente) em contraste com a aliança sinaítica que ela supera e cumpre.
Na teologia do pacto reformada, a nova aliança é a forma final e escatológica da única Aliança da Graça que perpassa toda a história da redenção desde Gênesis 3.15. Ela é o destino para o qual todas as alianças anteriores apontavam: o cumprimento da promessa abraâmica, o antitipo das sombras mosaicas, o objeto dos anseios davídicos e a realização da esperança profética.
1.2 Aliança da Graça e Nova Aliança: Distinção
É importante distinguir dois usos relacionados mas distintos da terminologia:
- Aliança da Graça (sentido amplo): a única aliança redentora de Deus com seu povo eleito, desde Gênesis 3.15 até a consumação, que se desdobra em múltiplas administrações históricas (noaica, abraâmica, mosaica, davídica, nova). É a categoria mais abrangente da teologia do pacto.
- Nova Aliança (sentido específico): a administração final e escatológica da aliança da graça, inaugurada por Cristo e vigente no período entre a primeira e segunda vindas. É a mais perfeita expressão da aliança da graça porque tem o melhor mediador, os melhores sacrifícios e as melhores promessas (Hb 8.6).
Este artigo usará ambas as terminologias, distinguindo conforme o contexto: “Aliança da Graça” quando referindo à categoria abrangente; “Nova Aliança” quando referindo à administração específica inaugurada por Cristo.
2. Análise Histórica
2.1 Patrística: A Nova Aliança e a Igreja
Os pais da Igreja primitiva utilizaram a nova aliança como argumento central contra o judaísmo e contra o marcionismo, os dois desafios opostos que a Igreja enfrentava. Contra o judaísmo, a Igreja afirmava que a nova aliança anunciada pelos profetas se havia cumprido em Cristo e que a aliança mosaica estava obsoleta. Contra Marcião, que rejeitava o AT inteiramente, a Igreja afirmava a continuidade das duas alianças como obra do mesmo Deus.
Ireneu de Lyon (c. 130–202 d.C.) foi o mais sistemático dos pais ao articular a relação entre as alianças. Em Contra as Heresias (IV.9–16), Ireneu defendeu que há uma única aliança de Deus com a humanidade, desdobrada em múltiplas renovações progressivas: Adão, Noé, Abraão, Moisés, e finalmente Cristo. A nova aliança não anula as anteriores, as recapitula e as cumpre. Esta perspectiva é essencialmente a da teologia do pacto reformada, antecipada pelo grande bispo de Lyon.
Tertuliano (c. 155–220 d.C.) foi o primeiro a usar explicitamente a distinção Vetus Testamentum / Novum Testamentum (Antigo/Novo Testamento) como categorias teológicas, conectando-as diretamente às alianças de Jeremias 31. Para Tertuliano, o “Novo Testamento” como documento escrito codificou as promessas da nova aliança que Cristo inaugurou.
Agostinho de Hipona (354–430 d.C.) articulou a perspectiva que influenciaria toda a teologia medieval e reformada posterior: a diferença entre as duas alianças é a diferença entre a letra e o Espírito (2Co 3.6; De Spiritu et Littera). A lei mosaica, gravada em pedra externamente, é letra que mata porque revela o pecado sem dar poder para obedecê-la. A nova aliança, cujo Espírito escreve a lei no coração, dá poder para a obediência que a letra demandava sem fornecer.
2.2 A Reforma: A Nova Aliança e a Justificação
A Reforma do século XVI tornou a nova aliança o centro do debate teológico porque a doutrina da justificação pela fé é inseparável da doutrina da nova aliança. Lutero e Calvino concordavam que a nova aliança é o Evangelho de graça, mas divergiam na estrutura hermenêutica:
Lutero enfatizou a descontinuidade funcional: lei e Evangelho são sempre distintos; a lei sempre acusa, o Evangelho sempre perdoa. A nova aliança é a proclamação pura do Evangelho. Esta perspectiva tende a enfatizar a ruptura entre as duas alianças.
Calvino enfatizou a continuidade substancial: a nova aliança é a forma plena da mesma aliança de graça que estava presente desde Abraão, agora sem o véu tipológico. O diferencial não é a substância (a mesma graça, o mesmo Cristo prometido, a mesma fé salvífica) mas a forma (tipos e sombras vs. realidade cumprida, lei em pedra vs. lei no coração). Esta perspectiva é a base da teologia do pacto que Westminster codificou.
Heinrich Bullinger (1504–1575), sucessor de Zuínglio, desenvolveu a Uma Aliança como princípio hermenêutico central: há uma única aliança de Deus com seu povo, da qual o AT e o NT são expressões, fundamento da perspectiva reformada que une os dois Testamentos.
2.3 Westminster e a Codificação da Aliança da Graça
A Confissão de Westminster (Cap. VII.3) define:
| “O homem, por sua queda, tornou-se incapaz de ter vida por meio daquele pacto [de obras]; assim, o Senhor se agradou de fazer um segundo, comumente chamado de pacto de graça: pelo qual ele livremente oferece aos pecadores vida e salvação por Jesus Cristo, requerendo deles fé nele, para que sejam salvos…” Confissão de Westminster, Cap. VII.3 |
Westminster afirma ainda (Cap. VII.5–6) que a aliança da graça é substancialmente a mesma em suas diversas administrações veterotestamentárias e neotestamentária, diferindo apenas no modo de administração, não na substância. Esta afirmação de substancial continuidade é o coração da posição reformada e o ponto de maior debate com o dispensacionalismo e a teologia do novo pacto.
2.4 O Debate Moderno
O século XX viu três desafios principais à compreensão reformada clássica da nova aliança:
- O dispensacionalismo de Darby e Scofield: que separou a nova aliança em dois cumprimentos distintos, um para Israel (nacional, futuro) e um para a Igreja (espiritual, presente), negando que a Igreja seja a beneficiária plena das promessas da nova aliança.
- A Teologia do Novo Pacto (Wellum, Gentry, Reisinger): que afirmou a nova aliança como qualitativamente diferente das anteriores, não apenas mais uma administração da mesma aliança, mas uma aliança genuinamente nova que supera e substitui as anteriores. Esta posição é mais discontinuísta do que Westminster sem ser dispensacionalista.
- A Nova Perspectiva sobre Paulo (Sanders, Dunn, Wright): que reinterpretou as cartas de Paulo em contexto do judaísmo do Segundo Templo, argumentando que Paulo não contrasta lei e graça, mas duas comunidades (judaísmo e Igreja). Esta perspectiva tem implicações para a compreensão da nova aliança, embora seja ela mesma muito debatida.
3. Análise Exegética dos Textos Fundacionais
3.1 Jeremias 31.31–34: A Profecia Central
| “Eis que dias vêm, diz o Senhor, em que estabelecerei uma nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá; não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito… Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará mais cada um o seu próximo, nem cada um o seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor; porque perdoarei a sua iniquidade e dos seus pecados não me lembrarei mais.” Jeremias 31.31–34 |
Este texto, o único no AT onde a expressão berit chadashah aparece, é o texto profético mais importante sobre a nova aliança e é citado integralmente em Hebreus 8.8–12. Seus quatro elementos são teologicamente precisos:
- Não como a aliança do Egito (v.32): a nova aliança é explicitamente contrastada com a aliança mosaica — há descontinuidade real, não apenas continuidade.
- Lei no coração (v.33): a lei de Deus não muda, o Decálogo continua sendo a expressão da lei moral. O que muda é o modo de escrita: de pedra externa para coração interno. O Espírito é o escriba da nova aliança.
- Conhecimento universal de Deus (v.34a): na nova aliança, o conhecimento de Deus não depende de instrução externa mediada por especialistas, é imediato, pessoal e universal entre os membros da aliança.
- Perdão definitivo (v.34b): o perdão da nova aliança é irrevogável, “não me lembrarei mais”. Este é o fundamento da segurança da salvação: o perdão que Deus concede na nova aliança não é provisório nem condicionado à fidelidade futura do crente.
3.2 Ezequiel 36.24–27: O Espírito Como Agente
| “Dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.” Ezequiel 36.26–27 |
Ezequiel 36 é o texto da nova aliança centrado no agente da transformação: o Espírito Santo. O que Jeremias 31 promete (lei no coração), Ezequiel 36 explica o mecanismo (o Espírito como o agente que escreve a lei no coração e capacita para a obediência). O coração de pedra, incapaz de obediência, é substituído pelo coração de carne, responsivo à palavra de Deus.
O versículo 27 é pneumatologicamente crucial: não apenas a lei é escrita no coração, mas o Espírito de Deus habitará nos membros da nova aliança e fará que andem nos estatutos de Deus. Isto é a doutrina da preservação dos santos antes de ser chamada assim: o Espírito que habita nos crentes garante que eles andarão nos caminhos de Deus, não perfeitamente nesta vida, mas de forma real e progressiva.
3.3 Hebreus 8–10: A Superioridade da Nova Aliança
A carta aos Hebreus é o comentário neotestamentário mais extenso sobre a nova aliança. O argumento central de Hebreus 8–10 é que a nova aliança é superior à mosaica em cada elemento:
- Mediador superior (8.6): Jesus é o mediador da nova aliança, que é estabelecida em melhores promessas.
- Cumprimento tipológico (8.5): o santuário terreno era cópia e sombra do celestial; Cristo ministrou no original.
- Obsolescência da primeira aliança (8.13): “ao dizer ‘nova’, tornou antiga a primeira; ora, o que se torna antigo e envelhece está próximo de desaparecer.”
- Sacrifício definitivo (9.25–26): Cristo não precisou oferecer-se repetidamente como os sacerdotes levíticos, ofereceu-se uma vez por todas.
- Eficácia real do perdão (10.1–4): a lei tinha sombra, não a própria imagem; os sacrifícios anuais lembravam os pecados, não os removiam. Cristo removeu.
3.4 Lucas 22.20 e 1 Coríntios 11.25: A Instituição
| “De igual modo, depois de haver ceado, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós.” Lucas 22.20 |
As palavras da instituição da Ceia do Senhor são a declaração mais explícita de Jesus sobre a inauguração da nova aliança. O sangue de Cristo é o sangue da nova aliança, a linguagem remete a Êxodo 24.8, onde o sangue dos sacrifícios selou a aliança mosaica. Cristo institui a nova aliança com seu próprio sangue, sendo simultaneamente o sacerdote que oferece e o sacrifício que é oferecido.
4. Análise Teológica Sistemática
4.1 As Quatro Promessas da Nova Aliança
Jeremias 31.31–34 organiza a nova aliança em torno de quatro promessas interdependentes que constituem uma progressão lógica:
- Lei no coração (v.33): a lei moral de Deus, que o pecador não pode cumprir por força de vontade, é escrita pelo Espírito no coração regenerado, tornando a obediência uma realidade interior, não apenas uma exigência exterior.
- Relacionamento pactual (v.33b): “eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo”, a fórmula clássica da aliança, presente em todas as administrações desde Abraão, recebe aqui seu cumprimento pleno na intimidade do relacionamento do crente com Deus.
- Conhecimento imediato de Deus (v.34a): na nova aliança, o crente tem acesso imediato a Deus, sem necessidade de intermediários humanos, porque tem o Espírito que “dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).
- Perdão definitivo (v.34b): “perdoarei a sua iniquidade e dos seus pecados não me lembrarei mais”, a linguagem do perdão irrevogável é a garantia da segurança da salvação e o fundamento da paz com Deus.
4.2 A Continuidade da Lei Moral na Nova Aliança
Um dos pontos mais importantes, e mais frequentemente mal compreendidos, da nova aliança é a relação entre o novo pacto e a lei moral. Jeremias 31.33 não diz que a lei foi abolida, diz que foi interiorizada. A lei que está sendo escrita no coração é a mesma lei que estava nas tábuas de pedra. O que mudou não é o conteúdo, é o modo de escrita e a fonte do poder para obedecê-la.
Geerhardus Vos articulou este ponto com precisão: a nova aliança não aboliu o Decálogo, ela o tornou possível de ser obedecido de forma genuína e interior. O crente da nova aliança obedece ao Decálogo não porque está inscrito em pedra fora de si, mas porque o Espírito o escreveu dentro de si. O conteúdo ético da lei é o mesmo; o dinamismo da obediência é totalmente diferente.
| “A diferença entre a aliança antiga e a nova não é que a nova aliança aboliu a lei e a antiga a exigia. A diferença é que a nova aliança fez o que a antiga não pôde: escreveu a mesma lei no coração e deu o Espírito para cumpri-la. A lei não mudou, mudou o coração que a recebe.” — Geerhardus Vos, Biblical Theology |
4.3 A Nova Aliança e a Segurança da Salvação
A promessa do perdão definitivo, “não me lembrarei mais das suas iniquidades”, é o fundamento da doutrina reformada da perseverança dos santos. Na nova aliança, o perdão não é condicional à fidelidade futura do crente: é garantido pela obra acabada de Cristo, selado pelo Espírito e mantido pelo amor eterno de Deus.
Esta perspectiva responde a uma das questões pastorais mais urgentes: o crente que pecou gravemente pode perder sua salvação? A resposta da nova aliança é não, não porque o pecado seja irrelevante, mas porque o fundamento da salvação não é a fidelidade do crente, mas a fidelidade de Deus à sua aliança. O Espírito que iniciou a obra a completará (Fl 1.6).
4.4 A Nova Aliança e o Espírito Santo
Ezequiel 36 revela que o agente central da nova aliança é o Espírito Santo. A promessa da nova aliança é, em sua dimensão pneumatológica, a promessa do Espírito habitando nos crentes, o que Atos 2 identifica como o cumprimento de Joel 2.28–32 no Pentecostes. As promessas da nova aliança e a promessa do Espírito são, no NT, a mesma promessa:
- João 14.16–17: Cristo promete o Paracleto como o Espírito da verdade que habitará nos crentes.
- Atos 2.33: Cristo exaltado derramou o Espírito, inaugurando publicamente a nova aliança.
- Gálatas 3.14: “a bênção de Abraão chegasse aos gentios em Cristo Jesus, para que pela fé recebêssemos o Espírito prometido”, a promessa a Abraão = a promessa da nova aliança = a promessa do Espírito.
- Efésios 1.13: o Espírito é o “penhor da nossa herança”, a garantia de que as promessas da nova aliança serão completamente cumpridas na consumação.
5. Tabela Comparativa: Aliança Mosaica vs. Nova Aliança
| Dimensão | Aliança Antiga (Mosaica) | Nova Aliança |
| Base textual | Êxodo 19–24; Levítico; Deuteronômio | Jeremias 31.31–34; Ezequiel 36.26–27; Hebreus 8–10 |
| Mediador | Moisés — servo de Deus (Hb 3.5) | Jesus Cristo — Filho de Deus (Hb 3.6); mediador melhor (Hb 8.6) |
| Modo de escrita da lei | Tábuas de pedra — externas, exigentes, sem poder para cumprir | Corações — internas, pelo Espírito Santo (Jr 31.33; Ez 36.27) |
| Sacrifícios | Animais repetidos — lembrança anual dos pecados (Hb 10.3) | O único sacrifício de Cristo — suficiente para sempre (Hb 10.12) |
| Sacerdócio | Aarônico — mortal, imperfeito, necessitava de sucessores | Melquisedeque — eterno, perfeito, sem sucessores (Hb 7.24) |
| Perdão | Coberto tipologicamente — os pecados eram “lembrados” até Cristo | Removido definitivamente — Deus não se lembrará mais das iniquidades (Jr 31.34; Hb 10.17) |
| Conhecimento de Deus | Instrução externa necessária: “conhece o Senhor” (Jr 31.34a) | Conhecimento interior universal no povo da aliança: “todos me conhecerão” (Jr 31.34b) |
| Escopo | Nacional — Israel como nação | Universal — todos os povos (Mt 28.19; Ap 7.9) |
| Sinal | Circuncisão e sábado como sinais nacionais israelitas | Batismo e Ceia do Senhor — sinais da nova criação em Cristo |
| Status atual | Obsoleta e prestes a desaparecer (Hb 8.13) — em sua administração; lei moral permanece | Vigente e consumando-se até a parousia |
6. Principais Posições Teológicas sobre a Nova Aliança
| Tradição | Relação Nova Aliança / Alianças Anteriores | A Lei na Nova Aliança | Israel e Igreja |
| Teologia do Pacto (Westminster, Calvino) | A nova aliança é a mesma aliança de graça em sua forma final e plena; substancialmente idêntica às administrações anteriores | Lei moral (Decálogo) continua, agora escrita no coração pelo Espírito; leis cerimoniais abolidas | Israel e Igreja são o mesmo povo de Deus em administrações diferentes; promessas a Israel cumpridas na Igreja |
| Teologia do Novo Pacto (Wellum, Gentry) | A nova aliança é qualitativamente nova — não apenas mais uma administração; representa descontinuidade real com as alianças anteriores | A “lei de Cristo” (Gl 6.2) é o padrão; somente o que o NT reafirma é normativo; não há continuidade automática do Decálogo | Israel e Igreja distintos; a Igreja não é simplesmente o “novo Israel”; as promessas a Israel têm cumprimento específico |
| Dispensacionalismo Clássico (Scofield, Chafer) | A nova aliança tem duas formas: uma para Israel (ainda futura, cumprimento nacional no milênio) e uma para a Igreja (espiritual, presente) | A Igreja não está sob nenhuma aliança veterotestamentária; a “lei de Cristo” é princípio distinto | Israel e Igreja são dois povos distintos de Deus; as promessas nacionais a Israel não se aplicam à Igreja |
| Dispensacionalismo Progressivo (Bock, Saucy) | A nova aliança inaugurada por Cristo beneficia Israel e a Igreja; tem cumprimento presente e futuro | Continuidade parcial; as obrigações éticas gerais permanecem, mas o Decálogo como código não é a norma direta | Israel e Igreja distintos mas relacionados; as promessas a Israel se cumprem em estágios |
| Luteranismo (Lutero, Fórmula de Concórdia) | A nova aliança é o Evangelho puro; a distinção lei/Evangelho é mais fundamental do que a distinção entre alianças | Lei sempre acusa; Evangelho sempre salva; os usos da lei são funcionais, não estruturais pactualmente | A Igreja é o povo de Deus da nova aliança; Israel histórico não tem papel escatológico especial |
7. A Nova Aliança e o Decálogo: Conexão Central da Série
A nova aliança é o contexto teológico definitivo em que o Decálogo deve ser compreendido e pregado. Ela responde à questão mais urgente sobre o Decálogo: qual sua função para o crente cristão? A resposta da nova aliança é precisa e dupla:
7.1 O Decálogo Revelou o Que a Nova Aliança Cumpre
O Decálogo revelou o padrão de obediência que o coração humano caído não consegue cumprir. Esta revelação, produzida pelo segundo uso da lei, é o diagnóstico que prepara para a boa nova da nova aliança: Deus promete um coração novo que pode cumprir o que o coração de pedra não conseguia. O Decálogo aponta para a nova aliança como o problema aponta para a solução.
7.2 O Decálogo Descreve o Que a Nova Aliança Produz
A lei que Deus escreve no coração na nova aliança é o conteúdo do Decálogo. O cristão que vive na nova aliança não está sob o Decálogo como código externo de condenação, está sob o Decálogo como lei inscrita internamente pelo Espírito. A obediência ao Decálogo é a descrição da vida transformada pela nova aliança, não a condição para entrar nela. É exatamente o que o Catecismo de Heidelberg afirma ao colocar o Decálogo na seção “Da Gratidão”.
| “A nova aliança não aboliu o Decálogo, cumpriu a promessa que o Decálogo continha implicitamente: a promessa de que um dia, o povo de Deus obedeceria não por coerção externa, mas por amor interno. O Espírito da nova aliança é o Espírito que faz do Decálogo um prazer em vez de um fardo.” — Heber Carlos de Campos Filho |
8. FAQ – Perguntas Frequentes
Como a nova aliança se relaciona com Israel?
A resposta depende do sistema teológico. Para a teologia do pacto reformada, as promessas de Jeremias 31 à “casa de Israel e de Judá” se cumprem na Igreja, o Israel escatológico composto de judeus e gentios em Cristo (Gl 3.28–29; Ef 2.11–22; Rm 11). Para o dispensacionalismo, estas promessas terão cumprimento literal e nacional para Israel no milênio. Para a teologia do novo pacto, Cristo é o verdadeiro Israel que cumpre as promessas, e a Igreja participa deste cumprimento sem ser simplesmente identificada com o Israel histórico.
Quem são os membros da nova aliança?
A questão tem implicações práticas para o batismo. A posição reformada clássica: os membros da nova aliança são os crentes e seus filhos, a aliança continua tendo uma dimensão familiar/geracional, como as alianças anteriores. A posição da teologia do novo pacto e dos batistas: apenas crentes confessos, pois a nova aliança promete conhecimento universal de Deus entre seus membros (Jr 31.34), o que implicaria que todos os membros são regenerados, não apenas professantes. Este debate é o fundamento da controvérsia sobre o batismo de infantes.
A nova aliança já foi completamente cumprida?
Inaugurada, mas não consumada. A nova aliança foi inaugurada pela morte, ressurreição e ascensão de Cristo, e seus benefícios estão sendo aplicados pelo Espírito desde o Pentecostes. Mas seu cumprimento pleno aguarda a parousia: a ressurreição do corpo, a renovação de toda a criação e a habitação definitiva de Deus com seu povo (Ap 21.3). A tensão “já/ainda não” governa a vida da nova aliança: as promessas são reais agora, mas ainda incompletas em sua plenitude.
9. Conclusão: A Aliança Final
A nova aliança é o destino de toda a história das alianças. Desde a promessa do protoevangelium em Gênesis 3.15, Deus foi progressivamente revelando o que sempre planejou: um povo cujos corações fossem transformados pelo seu Espírito, que o conhecesse diretamente e pessoalmente, cujos pecados fossem removidos definitivamente e que obedecesse à sua lei por amor e não por coerção.
Esta aliança foi inaugurada no sangue de Cristo na última ceia e no Calvário. Ela está sendo realizada pelo Espírito em cada coração que crê. Será consumada quando Cristo voltar e Deus habitar definitivamente com seu povo, “eles serão os seus povos, e Deus mesmo estará com eles” (Ap 21.3).
Para o crente, a nova aliança é o fundamento de toda esperança e de toda obediência: esperança, porque o perdão é definitivo e a preservação é garantida; obediência, porque a lei está no coração e o Espírito habilita o que a lei demanda. A nova aliança não é apenas boa notícia para o futuro, é o alicerce de toda a vida cristã agora.
| “A nova aliança é o coração de todo o Evangelho. Tudo o que Deus prometeu desde Abraão, tudo o que a lei de Moisés tipificava, tudo o que Davi esperava, encontrou seu cumprimento definitivo na aliança que Cristo inaugurou com seu sangue. Esta aliança não pode ser quebrada, não pode ser perdida, não pode ser superada. É a aliança final.” — Mauro Meinster |
10. Sobre o Autor
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11. Referências
Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.
- VOS, Geerhardus. Biblical Theology: Old and New Testaments. Grand Rapids: Eerdmans, 1948.
- ROBERTSON, O. Palmer. The Christ of the Covenants. Phillipsburg: P&R Publishing, 1980.
- IRENEU DE LYON. Contra as Heresias. Livro IV. São Paulo: Paulus, 2011.
- AGOSTINHO. De Spiritu et Littera. In: NPNF vol. 5. Edinburgh: T&T Clark, 1887.
- CALVINO, João. Institutos da Religião Cristã. Livro II, Cap. 10–11. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
- Confissão de Westminster (1647). Cap. VII: Do Pacto de Deus com o Homem.
- HORTON, Michael. God of Promise: Introducing Covenant Theology. Grand Rapids: Baker Books, 2006.
- GENTRY, Peter J.; WELLUM, Stephen J. Kingdom through Covenant. Wheaton: Crossway, 2012.
- HOEKEMA, Anthony A. The Bible and the Future. Grand Rapids: Eerdmans, 1979.
- CAMPOS, Heber Carlos de (Pai). Pregação Expositiva. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
- MEINSTER, Mauro. O Decálogo e a Vida Cristã. [referência pastoral].
- DUMBRELL, William J. Covenant and Creation. Carlisle: Paternoster, 1984.
- HOLWERDA, David E. Jesus and Israel: One Covenant or Two? Grand Rapids: Eerdmans, 1995.
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