Sexto Mandamento: Não Matarás

Sexto Mandamento: Não Matarás – A sacralidade da vida humana, o significado de ratsach e as implicações éticas contemporâneas

Sexto Mandamento - Não Matarás - Rev. Fabiano Queiroz
“Não matarás.” Êxodo 20.13
“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem chamar a seu irmão de idiota estará sujeito ao Sinédrio; e quem lhe chamar de louco estará sujeito ao fogo do inferno.” Mateus 5.21–22

1. Introdução: A Brevidade que Carrega um Universo

O sexto mandamento é, em hebraico, apenas duas palavras: lo tirtsach — “não matarás”. É o mais curto dos dez mandamentos. Mas esta brevidade é enganosa: por trás dessas duas palavras está toda a teologia da sacralidade da vida humana, o fundamento do direito natural, o limite de toda violência e o horizonte de toda bioética cristã.

A brevidade do mandamento é, em si mesma, eloquente. Deus não precisa de argumentações elaboradas para estabelecer que a vida humana é sagrada, basta a proibição direta. A vida humana não é sagrada porque um texto a declara sagrada; o texto a declara sagrada porque ela é, por ser portadora da imagem do Criador.

“Não matarás é o mandamento mais curto e o mais urgente. Em duas palavras, Deus traça um limite em torno de cada ser humano e diz: este espaço é meu. A vida que habita aqui pertence a mim antes de pertencer a qualquer Estado, família, ideologia ou decisão médica.” — Heber Carlos de Campos Pai

Leia mais: Artigos na Guia de Estudos Sobre Teologia, Exegese, Homilética, Hermenêutica e Pregação

2. Exegese: O Verbo Ratsach

2.1 Ratsach vs. Outros Verbos para Matar

O hebraico bíblico possui vários verbos para diferentes formas de causar a morte. A escolha do verbo ratsach (רָצַח) no sexto mandamento é exegeticamente decisiva. Uma comparação com outros verbos ilumina o significado específico:

  • Harag (הָרַג): matar em geral, usado para assassinato, execução judicial, guerra. É o verbo mais genérico.
  • Mût (מוּת): morrer, fazer morrer, usado para morte natural, execução, julgamento divino.
  • Shachat (שָׁחַט): abater, degolar, usado principalmente para o sacrifício de animais.
  • Ratsach (רָצַח): assassinar, matar ilegalmente, especialmente homicídio doloso ou por negligência culpável. É o verbo das cidades de refúgio (Nm 35), onde se distingue o homicídio intencional (ratsach) do acidental.

Esta distinção é crucial: o sexto mandamento não proíbe toda forma de matar, usa o verbo específico para o homicídio ilícito. Isso explica por que a mesma lei que contém “não matarás” também prescreve a pena de morte para certos crimes (Êx 21.12–17) e ordena guerras (Dt 20): essas formas de matar não são ratsach.

2.2 Ratsach nas Cidades de Refúgio

Números 35 é o texto veterotestamentário mais rico para compreender ratsach. As cidades de refúgio eram estabelecidas para distinguir o homicida intencional (que deve morrer — ratsach doloso) do homicida acidental (que pode viver — ratsach culposo). Esta distinção bíblica entre intenção e negligência antecipa o direito penal moderno em mais de três milênios.

2.3 Jesus e a Extensão do Mandamento

Em Mateus 5.21–22, Jesus estende o sexto mandamento do plano dos atos externos para o plano das atitudes internas. A ira injusta, o desprezo e a linguagem depreciatória são colocados na categoria do homicídio, não porque sejam juridicamente equivalentes ao assassinato, mas porque brotam do mesmo solo: o desrespeito pela dignidade do outro como portador da imagem de Deus.

Esta extensão não é uma inovação de Jesus, é a hermenêutica que os reformadores chamaram de “princípio da extensão”: cada mandamento proíbe não apenas o ato externo, mas todas as suas causas internas e todos os atos externos correlatos. O sexto mandamento proíbe o assassinato porque proíbe tudo o que desrespeita a vida humana como criação portadora da imagem divina.

Leia mais: Os Dez Mandamentos: Origem, Significado Teológico e Relevância para a Vida Cristã

3. O Fundamento Teológico: Imago Dei

3.1 Gênesis 9.6 — O Texto Fundacional

O fundamento teológico mais explícito para a proibição do homicídio não está no Decálogo, mas em Gênesis 9.6:

“Quem derramar o sangue do homem, pelo homem terá o seu sangue derramado; porque Deus fez o homem à sua imagem.” Gênesis 9.6

A estrutura do versículo é reveladora: a razão para a proibição do homicídio é teológica, “porque Deus fez o homem à sua imagem”. Matar um ser humano não é apenas tirar uma vida biológica; é atacar a imagem de Deus que aquela vida porta. É um crime teológico antes de ser um crime social.

Vos destaca que Gênesis 9.6 estabelece o princípio antes da lei mosaica, na aliança noaica, que se dirige a toda a humanidade, não apenas a Israel. A sacralidade da vida humana, portanto, não é uma peculiaridade cultural israelita: é universal, inscrita na criação, válida para toda pessoa em todo tempo.

3.2 O Que É a Imagem de Deus?

A tradição reformada interpreta a imago Dei (imagem de Deus) como o conjunto de capacidades que tornam o ser humano semelhante a Deus e o distinguem de todas as outras criaturas: racionalidade, moralidade, espiritualidade, relacionalidade e domínio criativo. Estas capacidades foram danificadas pela queda, mas não eliminadas, o que explica por que mesmo após a queda (e mesmo em não-crentes), cada ser humano continua portando a imagem divina e merece respeito e proteção.

4. O Que o Sexto Mandamento Proíbe e Requer

4.1 O Que Proíbe

O Catecismo Maior de Westminster (P. 136) lista os pecados proibidos pelo sexto mandamento. Entre eles:

  • Homicídio doloso, matar intencionalmente um ser humano inocente.
  • Homicídio culposo, matar por negligência grave que poderia ter sido evitada.
  • Ira injusta, ódio, inveja e desejo de vingança, os estados internos que Jesus equiparou ao homicídio.
  • Linguagem e comportamento que destroem a reputação e a dignidade de outros.
  • Negligência com a saúde própria ou alheia, pôr em risco a vida desnecessariamente.
  • Opressão, tiranias e toda forma de exploração que destrói a vida humana.

4.2 O Que Requer Positivamente

O mandamento não é apenas negativo. O Catecismo Maior (P. 135) lista os deveres positivos:

  • Preservar a vida própria e alheia com todos os meios disponíveis.
  • Resistir a todas as tentativas injustas de tirar a vida.
  • Cuidar da saúde física e mental, do corpo como templo do Espírito Santo.
  • Prover alimento, vestuário e habitação para os necessitados, pois a negligência que deixa morrer é uma forma de matar.
  • Obras de misericórdia: cuidar dos enfermos, consolar os enlutados, defender os vulneráveis.
“O sexto mandamento não apenas proíbe matar, ordena proteger. Não basta não disparar o gatilho; é preciso construir a cerca, fornecer o pão, defender o fraco. O homicídio por negligência é tão real quanto o homicídio por ação.” — Heber Carlos de Campos Filho

5. Aplicações Éticas Contemporâneas

O sexto mandamento é o mandamento com maior número de aplicações éticas contemporâneas debatidas. A tabela a seguir apresenta as principais questões com seus fundamentos bíblicos, a posição reformada e uma síntese:

QuestãoFundamento BíblicoPosição ReformadaSíntese
AbortoVida começa na concepção (Sl 139.13–16; Jr 1.5; Lc 1.41–44). O nonato é ser humano portador da imagem de DeusA posição reformada clássica considera o aborto voluntário uma violação do sexto mandamento. Exceções terapêuticas (risco de vida da mãe) são debatidasProibido como homicídio do inocente, com nuances nas situações-limite
EutanásiaA vida pertence a Deus (Jó 1.21); o sofrimento pode ser redimido (Rm 8.18; 2Co 4.17). Cuidados paliativos são distintos da eutanásia ativaA eutanásia ativa (provocar deliberadamente a morte) viola o sexto mandamento. Cuidados paliativos que controlam a dor sem visar à morte são eticamente distintosEutanásia ativa: proibida. Retirada de tratamento fútil: debatida. Cuidados paliativos: permitidos
Pena de CapitalGn 9.6: quem derramar sangue humano, pelo homem terá o seu sangue derramado. Rm 13.4: o governo porta a espada para o malA tradição reformada clássica aceita a pena de morte como prerrogativa legítima do Estado para crimes capitais. Debate contemporâneo sobre aplicação justaLegítima em princípio; sua aplicação justa é responsabilidade do Estado
Guerra JustaA guerra pode ser justa quando: causa justa, autoridade legítima, intenção justa, último recurso, proporcionalidade, imunidade dos não-combatentesA tradição reformada (baseada em Agostinho e Tomás) aceita a guerra justa. O pacifismo absoluto não é a posição reformada, mas a guerra deve ser sempre o último recursoGuerra justa: permitida sob condições estritas
SuicídioA vida é dom de Deus; o corpo é templo do Espírito (1Co 6.19–20). Casos bíblicos (Saul, Judas) são registrados sem aprovaçãoO suicídio voluntário viola o sexto mandamento. Casos de perturbação mental grave são tratados com compaixão pastoral, a intenção e a capacidade racional são relevantes para o julgamentoProibido; abordagem pastoral para casos de saúde mental
Negligência e PerigoDt 22.8: parapeito na casa para evitar quedas. O texto implica responsabilidade pela segurança alheiaNegligência que coloca vidas em risco viola o espírito do sexto mandamento, proteção da vida vai além de não matar ativamenteResponsabilidade positiva de proteger a vida alheia

5.1 Aborto: A Questão Central

A posição reformada sobre o aborto repousa sobre duas afirmações bíblicas fundamentais:

“Porque tu formaste os meus rins, tu me teceste no ventre de minha mãe… Os meus ossos não te foram encobertos quando fui feito em oculto… Os teus olhos viram o meu embrião…” Salmo 139.13–16
“Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci…” Jeremias 1.5

O nonato, desde a concepção, é conhecido por Deus, formado por Deus e portador da imagem de Deus. O aborto voluntário, portanto, destrói um ser humano em sua forma mais vulnerável, violando diretamente o sexto mandamento. Heber Carlos de Campos Pai destaca que a posição pró-vida não é posição política, mas é a consequência direta da teologia da imago Dei aplicada ao ser humano pré-natal.

5.2 Guerra Justa: A Tradição Reformada

A tradição reformada, herdando de Agostinho e Tomás de Aquino, articula a doutrina da guerra justa com os seguintes critérios:

  • Causa justa: a guerra deve ser travada em defesa de inocentes ou reparação de injustiça grave.
  • Autoridade legítima: somente governos legítimos podem declarar guerra, não grupos privados.
  • Intenção justa: o objetivo deve ser a paz e a justiça, não a conquista ou a vingança.
  • Último recurso: todos os meios pacíficos devem ter sido esgotados.
  • Proporcionalidade: os meios usados devem ser proporcionais ao objetivo.
  • Imunidade dos não-combatentes: civis inocentes não podem ser alvos deliberados.

A guerra que cumpre estes critérios não viola o sexto mandamento, o Estado exerce sua função de “ministro de Deus, vingador para castigar o que faz o mal” – eles são os que carregam a espada da justiça, espada é instrumento de guerra (Rm 13.4). Entretanto, a guerra que os viola, especialmente o massacre deliberado de civis, viola gravemente o sexto mandamento.

6. O Sexto Mandamento e a Violência da Linguagem

Um dos aspectos mais pastoralmente relevantes do ensino de Jesus sobre o sexto mandamento é a equiparação da violência verbal à violência física. Mateus 5.22 menciona três graus de violência linguística: a ira injusta, chamar o irmão de idiota (gr. raka — vazio, sem valor) e chamar de louco (gr. mōros — tolo moral, indigno).

Mauro Meinster aplica isso pastoralmente: a cultura contemporânea das redes sociais normalizou uma violência verbal que, à luz do sexto mandamento na interpretação de Jesus, é eticamente grave. Desrespeitar, humilhar, difamar e destruir a reputação de outros online não é “apenas palavras”, é uma forma de matar a imagem de Deus no outro. O sexto mandamento governa o teclado tanto quanto governa a espada.

7. FAQ – Perguntas Frequentes

O suicídio é o pecado imperdoável?

Não. O suicídio viola o sexto mandamento, a vida pertence a Deus, não ao indivíduo, e destruí-la é usurpar a prerrogativa divina. Mas a posição reformada não o trata como o “pecado imperdoável”: a base da salvação é a fé em Cristo, não a ausência de pecados específicos. Casos de suicídio em estado de perturbação mental grave, onde a capacidade racional está comprometida, são tratados com compaixão pastoral e sem julgamento definitivo sobre o estado eterno da pessoa. O que o Deus justo e misericordioso faz nesses casos pertence à sua soberania.

É pecado matar em legítima defesa?

A tradição reformada aceita a legítima defesa como moralmente justificada, inclusive a defesa de terceiros inocentes. Êxodo 22.2–3 distingue o ladrão morto de noite (sem culpa para quem o mata) do ladrão morto de dia (culpa, pois havia alternativas). O princípio geral é que a defesa da vida inocente pode justificar o uso de força letal como último recurso. A intenção (defesa, não agressão) e a proporcionalidade são determinantes.

O sexto mandamento proíbe a pena de morte?

Não, na interpretação reformada. O verbo ratsach refere-se ao homicídio ilícito, não a toda forma de matar. A mesma lei que contém o sexto mandamento também prescrevia pena de morte para crimes como assassinato, sequestro e desonra aos pais (Êx 21.12–17). Gênesis 9.6 fundamenta a pena de morte precisamente na sacralidade da vida: quem tira uma vida portadora da imagem de Deus perde o direito à sua própria. A posição reformada clássica aceita a pena capital como prerrogativa legítima do Estado, embora reconheça a necessidade de sistemas judiciais justos para sua aplicação.

8. Conclusão: A Cerca em Torno de Cada Imagem

O sexto mandamento é uma cerca sagrada que Deus traçou em torno de cada ser humano. Esta cerca não é arbitrária, é ontológica: cada pessoa humana, desde a concepção até a morte natural, porta a imagem do Criador. Atacar essa imagem é atacar o próprio Criador; protegê-la é honrá-lo.

Em uma cultura que banaliza a violência, instrumentaliza a vida e debata os limites da humanidade com base em critérios de utilidade e autonomia, o sexto mandamento permanece como a afirmação mais contracultural possível: a vida humana tem valor absoluto, não porque seja produtiva, saudável, desejada ou conveniente, mas porque Deus a criou à sua imagem.

“A vida que Deus criou, só Deus tem o direito de encerrar. Tudo o mais, aborto, eutanásia, homicídio, suicídio, violência, é usurpação. O sexto mandamento é a afirmação de que a vida não nos pertence. E é exatamente por isso que ela é sagrada.” — Mauro Meinster

9. Sobre o Autor

Saiba mais sobre o autor e seu método →


10. Referências

Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.

  • VOS, Geerhardus. Biblical Theology: Old and New Testaments. Grand Rapids: Eerdmans, 1948.
  • CALVINO, João. Institutos da Religião Cristã. Livro II, Cap. 8. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
  • CAMPOS, Heber Carlos de (Pai). Pregação Expositiva. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
  • CAMPOS, Heber Carlos de (Filho). Série sobre o Decálogo. [referência pastoral].
  • MEINSTER, Mauro. O Decálogo e a Vida Cristã. [referência pastoral].
  • Catecismo Maior de Westminster (1647). Perguntas 134–136.
  • FRANCE, R.T. The Gospel of Matthew. NICNT. Grand Rapids: Eerdmans, 2007.
  • WENHAM, Gordon J. Story as Torah. Edinburgh: T&T Clark, 2000.
  • KÖSTENBERGER, Andreas; JONES, David. God, Marriage, and Family. Wheaton: Crossway, 2004.
  • GRISEZ, Germain. Abortion: The Myths, the Realities, and the Arguments. New York: Corpus Books, 1970.
  • HAUERWAS, Stanley. Naming the Silences: God, Medicine, and the Problem of Suffering. Grand Rapids: Eerdmans, 1990.