Este artigo de pregação realiza uma análise expositiva e teológica do Salmo 56, explorando como Davi lidou com o medo à luz da fé e da confiança em Deus
Introdução narrativa
Entre os salmos de lamento individual, o Salmo 56 ocupa um lugar de profunda humanidade e sublime teologia. Ele nasce de um dos momentos mais vulneráveis da vida de Davi, um tempo em que o medo não era uma abstração, mas uma presença tangível, quase palpável. O título do salmo o situa “quando os filisteus o prenderam em Gate” (cf. 1Sm 21:10–15), episódio em que Davi, fugindo de Saul, busca refúgio justamente entre os inimigos de Israel. Desesperado, disfarça-se, finge insanidade e, entre lágrimas e incertezas, encontra no próprio Deus o único refúgio seguro. O pano de fundo histórico ilumina a intensidade do texto: o futuro rei de Israel é, por ora, um fugitivo humilhado, um homem acuado, um coração em crise, provavelmente, tomado pelo medo e desespero.
O tema universal do medo atravessa este salmo como um fio invisível que costura a experiência humana de todos os tempos. O medo é uma realidade intrínseca à condição humana: ele se manifesta quando o controle escapa, quando o futuro se torna desconhecido, quando as forças se mostram insuficientes e, portanto, é neste momento que nos encontramos com nossa insuficiência. Davi, o poeta-guerreiro, não o nega, não o disfarça, não o espiritualiza de modo superficial. Ele o reconhece, o nomeia e o transforma em oração. O salmo nos convida, assim, a compreender que o medo não é o oposto da fé, mas o terreno em que a fé é provada, refinada e purificada e, então, amadurecemos e estamos prontos para o exercício de algo mais elevado.
O propósito deste estudo1 é examinar como Davi lida com o medo de modo teologicamente consciente e espiritualmente saudável, oferecendo à comunidade de fé um modelo de oração sincera e confiança madura. Longe de ser apenas um registro emocional, o Salmo 56 é um tratado espiritual em forma poética, uma confissão da vulnerabilidade humana e da fidelidade divina. Em suas palavras, o medo é confrontado não por técnicas de autoajuda, mas pela lembrança da aliança e pela confiança no caráter imutável de Deus.
A tese que guia esta reflexão pode ser expressa assim: Davi nos ensina, no Salmo 56, que o medo não é vencido pela negação nem pela fuga, mas pela fé que se ancora na Palavra e no caráter de Deus.
É nessa tensão entre o temor e a confiança, entre a ameaça e a adoração, que este salmo revela a pedagogia divina, a arte de transformar o medo em fé e o desespero em louvor.

1. O Realismo do Medo (56:1–4)
“Tem misericórdia de mim, ó Deus, porque o homem procura devorar-me; pelejando todo o dia me oprime. Os meus inimigos me espreitam continuamente; porque são muitos os que pelejam contra mim, ó Altíssimo.” (Sl 56:1–2)
O salmo começa sem preâmbulos, sem enfeites, sem defesas. Davi abre a alma como quem rasga uma ferida ainda aberta. Ele não disfarça a dor, não oculta a angústia, não tenta parecer mais forte do que é. O homem segundo o coração de Deus começa dizendo: “Tem misericórdia de mim, ó Deus” e nessa súplica inicial está toda a teologia da dependência. Antes de qualquer heroísmo, Davi reconhece a própria fragilidade. Antes de confiar, ele confessa o medo. Antes de falar da fé, ele fala da carne e aqui somos todos iguais a Davi.
Há algo de profundamente libertador nesse gesto. Vivemos em tempos em que a fé é muitas vezes caricaturada como ausência de medo, e o medo, visto como sinal de fraqueza espiritual. Mas o texto nos convida a uma espiritualidade mais honesta: Davi tem medo, e mesmo assim é homem de fé. Ele não nega o medo, ele o apresenta a Deus. Essa é a diferença entre o medo que destrói e o medo que amadurece: o primeiro se esconde, o segundo ora.
O contexto histórico intensifica o drama. Davi se encontra em Gate, cidade dos filisteus, território inimigo, e o título do salmo indica que ele foi capturado. A arqueologia nos ajuda a visualizar o ambiente: portões fortificados, guardas estrangeiros, a lembrança do gigante Golias ecoando entre as muralhas. O jovem hebreu está cercado por inimigos, longe de casa, e, ironicamente, refém de um povo a quem já havia derrotado. O guerreiro vitorioso agora teme pela própria vida. O cenário é humilhante, mas é justamente nesse lugar de vulnerabilidade que o coração do salmista aprende a pulsar em ritmo de fé.
No verso 3, Davi faz uma confissão que resume o processo interior da alma piedosa:
“No dia em que eu temer, hei de confiar em ti.”
Há aqui uma confissão paradoxal e belamente humana. Ele admite que vai temer, mas decide confiar mesmo assim. Fé, portanto, não é ausência de temor — é decisão de confiar em meio a ele. O verbo “temer” está no futuro, assim como o verbo “confiar”. Ambos caminham juntos, como se o salmista dissesse: “Eu sei que o medo virá, mas quando ele vier, eu já sei para onde correr.”
Essa é a maturidade espiritual que não se constrói em vitórias fáceis, mas em desertos e grutas, em noites sem respostas, quando o coração aprende a se apoiar naquilo que não muda — o caráter fiel de Deus.
O verso 4 amplia esse movimento:
“Em Deus, cuja palavra eu louvo — em Deus ponho a minha confiança; não temerei. Que me pode fazer o mortal?”
Aqui o medo já começa a ceder terreno à adoração. O mesmo homem que começou o salmo clamando por misericórdia agora louva a Palavra. O que mudou? Nada nas circunstâncias, tudo no coração. O ambiente ainda é hostil, os inimigos ainda estão lá, mas algo se deslocou dentro dele: a alma encontrou um ponto fixo. Davi passa do clamor à confiança, da ansiedade à lembrança da aliança. Ele não ignora o medo; ele o reposiciona à luz da revelação.
O realismo do salmo é precioso: o medo é real, mas a fidelidade de Deus é mais real ainda. A fé madura não destrói o medo, ela o redime, transformando-o em oportunidade de louvor. Um dos segredos está aqui, em dar um novo significado as circunstâncias difíceis.
Em um mundo onde a fé é muitas vezes medida pela ausência de lágrimas, Davi nos ensina que o verdadeiro homem de fé é aquele que ora chorando, mas ora. Ele teme, mas confia. Cai, mas se levanta. E enquanto seus inimigos o cercam, ele aprende o segredo mais profundo da espiritualidade bíblica: “No dia em que eu temer, hei de confiar em ti.”
2. A Transformação do Medo em Confiança (56:5–9)
“Todo o dia torcem as minhas palavras; todos os seus pensamentos são contra mim para o mal. Ajuntam-se, escondem-se, espionam os meus passos, quando esperam a minha alma. Porventura escaparão eles por meio da iniquidade? Ó Deus, derruba os povos na tua ira! Tu contas as minhas vagueações; põe as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas no teu livro? No dia em que eu clamar, os meus inimigos retrocederão; isto sei eu, porque Deus é por mim.” (Sl 56:5–9)
O texto nos conduz agora ao centro emocional e teológico do salmo. O perigo ainda não passou, as vozes da perseguição continuam ativas, “todo o dia torcem as minhas palavras” e o cerco se estreita. Davi descreve seus inimigos com precisão psicológica: eles distorcem, conspiram, observam, aguardam o momento da queda. É a experiência do justo em um mundo corrompido: o mal é ativo, persistente e dissimulado. Contudo, algo começa a mudar. O salmo não muda de cenário, mas de perspectiva. Davi sai de dentro do medo e começa a observá-lo à luz da soberania de Deus.
Observe como o foco se desloca: antes ele via o inimigo, agora ele vê o Senhor. Antes descrevia a ameaça, agora contempla o cuidado. O verso 8 é uma das declarações mais ternas e surpreendentes da poesia hebraica:
“Tu contas as minhas vagueações; põe as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas no teu livro?”
Aqui, o salmista introduz uma imagem pastoral e íntima de Deus — não o guerreiro distante, mas o Pai que recolhe as lágrimas de seus filhos. O verbo “contar” (no hebraico sapár) implica atenção detalhada, quase numérica; o odre sugere preservação; o “livro” evoca memória e propósito. Em outras palavras, Davi declara: “Nada do que sofro passa despercebido”. Esse versículo é uma das maiores confissões de fé do Antigo Testamento, uma fé que não precisa de respostas, apenas da certeza de que Deus vê.
É nesse ponto que o medo começa a se transformar. Não porque as circunstâncias mudaram, mas porque a consciência da presença divina se impôs sobre o pavor humano. O medo diminui quando a alma descobre que é observada amorosamente. O mesmo Davi que temeu a morte agora se vê recordado, notado, guardado. E, quando o coração entende que é guardado por Deus, o medo perde a tirania.
O verso 9 traz o clímax dessa transição:
“No dia em que eu clamar, os meus inimigos retrocederão; isto sei eu, porque Deus é por mim.”
Aqui, Davi abandona o condicional e adota o indicativo da fé: “isto sei eu”. Ele ainda está em Gate, ainda é um fugitivo, mas já fala como quem possui uma vitória interior. É o mesmo espírito que Paulo expressaria séculos depois: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8:31).
A confiança não é produto da lógica, mas da lembrança, da memória da aliança, da experiência passada da fidelidade divina. Davi não se convence de que “vai dar certo”; ele se lembra de que Deus nunca o deixou. A teologia da memória (uma das partes menos abordadas da Teologia) torna-se o antídoto da ansiedade.
Em termos espirituais, o medo é sempre uma perda de foco. Quando olhamos demais para as circunstâncias, Deus nos parece pequeno; quando olhamos para Deus, as circunstâncias diminuem. Davi redescobre o centro da confiança ao recordar a Palavra e a história da graça. A transformação do medo, portanto, não acontece por força de vontade, mas pela reorientação do olhar, do perigo para a presença, da dor para a promessa.
O que impressiona aqui é a sobriedade da fé: não há euforia, não há fuga da realidade, apenas a calma certeza de que Deus é por mim. É uma fé que não grita, mas descansa; não nega, mas suporta; não exige, mas confia. Essa é a maturidade espiritual que se aprende apenas no vale, quando o medo é grande o bastante para revelar o tamanho de Deus.
3. A Vitória da Fé e a Adoração (56:10–13)
“Em Deus, cuja palavra eu louvo; no Senhor, cuja palavra eu louvo; em Deus tenho posto a minha confiança; não temerei o que me possa fazer o homem. Os teus votos estão sobre mim, ó Deus; eu te renderei ações de graças, pois livraste a minha alma da morte; não livraste também os meus pés de tropeçar, para que eu ande diante de Deus na luz dos viventes?” (Sl 56:10–13)
O salmo termina onde toda fé amadurecida desemboca: no louvor. O medo não é negado, mas superado por algo mais forte, a consciência da presença de Deus. Davi já não fala sobre o medo, nem contra os inimigos; agora ele fala com Deus. O salmo começa em súplica e termina em gratidão. O homem que antes pedia misericórdia agora promete adoração.
Há, portanto, um arco narrativo espiritual aqui: clamor → confiança → cântico.
O primeiro sinal dessa virada é a repetição enfática da expressão:
“Em Deus, cuja palavra eu louvo; no Senhor, cuja palavra eu louvo.”
A duplicação é intencional. O salmista repete, porque a alma precisa repetir para consolidar a fé. Enquanto o medo ecoa em gritos, a fé responde em refrãos. O foco agora é a Palavra, não as circunstâncias, não os sentimentos, mas a revelação divina.
O verbo “louvar” (halal), usado aqui, indica não apenas cantar, mas exaltar publicamente. Davi, o fugitivo escondido em Gate, já se vê como adorador no templo. A fé tem esse poder de antecipar o futuro: ela adora antes do livramento, porque já reconhece o caráter de Deus como certeza maior do que a própria libertação.
O verso 11 retoma a confissão anterior, “não temerei o que me possa fazer o homem”, mas agora com um tom mais maduro, mais sereno. Antes, Davi dizia isso em meio ao medo; agora, diz em meio à adoração. É como se tivesse descoberto que a confiança é uma forma de resistência: quando o homem confia, ele vence o medo não pela força, mas pela rendição, não à circunstância, mas ao Senhor.
O verso 12 marca o ponto de retorno da aliança:
“Os teus votos estão sobre mim, ó Deus; eu te renderei ações de graças.”
O salmista reconhece que não é apenas ele quem faz votos a Deus, mas Deus também fez votos a ele — promessas, alianças, palavras que sustentam. Aqui, Davi se lembra da sua vocação, do chamado que o separou ainda jovem, e entende que o medo não pode desfazer aquilo que Deus selou. Por isso, ele promete gratidão: “eu te renderei ações de graças”. O verbo está no futuro, ele ainda não saiu de Gate, mas já se compromete a agradecer. Essa é a confiança madura: agradecer por fé, antes da vitória.
Por fim, o verso 13 fecha o salmo com uma pergunta retórica que soa como exaltação:
“Pois livraste a minha alma da morte; não livraste também os meus pés de tropeçar, para que eu ande diante de Deus na luz dos viventes?”
Davi se vê de novo em movimento, não mais fugindo, mas andando diante de Deus. O medo o havia paralisado; a fé o põe de pé. A metáfora dos “pés que não tropeçam” remete à estabilidade espiritual, e “a luz dos viventes” à comunhão e à presença divina. O homem que antes estava escondido nas sombras do medo agora caminha sob a luz da graça. O cântico termina, mas a jornada da fé continua, porque a adoração não é o fim do medo, mas o lugar onde o medo é continuamente vencido.
Davi nos ensina, portanto, que a vitória sobre o medo não está em não sentir medo, mas em adorar a Deus através da confiança. O medo some quando o coração encontra algo maior para temer e o único temor capaz de libertar de todos os outros é o temor do Senhor. Assim, o salmo não é apenas uma oração de socorro, mas uma liturgia de maturidade espiritual. Em cada linha, Davi revela que a verdadeira coragem não nasce da autoconfiança, mas da Deus-confiança. A fé triunfa, e o medo se cala — porque a alma aprendeu a cantar.
Considerações Finais
O Salmo 56 é mais do que uma canção antiga, é o retrato eterno da alma humana em seus vales mais sombrios e em suas montanhas mais luminosas. Davi, o salmista perseguido, transforma o medo em matéria de oração e faz do desespero o solo onde brota a fé. Ele não vence o medo pela força, mas pela lembrança: a lembrança de quem Deus é, do que Ele prometeu e de como sempre sustentou. Esse é o coração da espiritualidade bíblica, uma fé que não apaga o medo, mas o redime, transformando-o em confiança e louvor.
O percurso do salmo é o percurso da vida de todo crente fiel: começa com o clamor (“Tem misericórdia de mim, ó Deus”), amadurece na confiança (“No dia em que eu temer, hei de confiar em ti”) e culmina na adoração (“Em Deus, cuja palavra eu louvo”). A fé e o amadurecimento cristão não surgem no conforto, mas da dor que ora; e a adoração não é o prêmio da vitória, mas a reação natural de quem percebe que foi sustentado pela graça.
O ensinamento de Davi é simples e, ao mesmo tempo, profundo: o medo é parte da caminhada, mas não é o destino. Quando a alma aprende a colocar o olhar na fidelidade de Deus, o medo se torna um mestre involuntário, conduzindo-nos ao altar. No fim, Davi nos mostra que a adoração é o ponto mais alto da confiança, quando o coração, antes aflito, descansa na certeza de que o Senhor é maior do que todas as ameaças visíveis e invisíveis.
Assim, o Salmo 56 se torna uma escola de fé para pregadores, líderes e estudiosos da Palavra: um mapa espiritual que conduz da angústia à adoração. Esse Salmo não apenas revela o drama do homem diante do medo, mas também a pedagogia divina que transforma o medo em louvor, a lágrima em testemunho, a fuga em fidelidade.
Este artigo é um reflexo dessa convicção, de que a pregação expositiva é o caminho mais seguro para conduzir o povo de Deus à maturidade espiritual, unindo teologia bíblica, história, cultura e devoção em uma só voz. O estudo aqui apresentado faz parte da mesma visão que inspira a coleção “Esboços Completos de Sermões Expositivos em Todos os Livros da Bíblia2”, uma série voltada a pregadores, seminaristas e estudiosos que desejam aprofundar-se na Palavra de Deus com rigor, sensibilidade e fidelidade.
Assim como Davi transformou seu medo em louvor, o pregador é chamado a transformar o texto em vida, e a Escritura em alimento para a alma do povo de Deus.
NOTAS
- BRUCE, F. F., Comentário Bíblico NVI Antigo e Novo Testamento. São Paulo: VIDA, 2009.
QUEIROZ, Fabiano. Coleção de Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva: Curitiba: OPulpito, 2025.
KEENER, Craig S. Cultural Historical Commentary on The Old Testament. Zondervan, 2014.
MACARTHUR, John. Bíblia de Estudos John MacArthur (ARA). São Paulo: SBB, 2010.
WALTON, John H. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament. IVPress, 2014. ↩︎ - Salmos: A Bíblia de Sermões do Pregador: Esboços Bíblicos para Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos – Rev. Fabiano Queiroz ↩︎

















