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Análise Expositiva de Mateus: Introdução, Exegese, Teologia e Estrutura Completa

Análise Expositiva do Evangelho de Mateus

O Evangelho que abre o Novo Testamento e fecha o Antigo, uma análise expositiva completa: do contexto histórico à teologia do Reino, dos cinco discursos à tipologia Moisés-Cristo, da genealogia à Grande Comissão.

Mateus é o Evangelho das pontes. Ele fica de pé entre dois testamentos, com um pé em cada um, e sua função é mostrar que não há ruptura, apenas cumprimento. As 60 citações explícitas do Antigo Testamento, a genealogia que começa em Abraão, a estrutura de cinco discursos que ecoa o Pentateuco, a tipologia constante que coloca Jesus onde Moisés, Davi e Israel estiveram: tudo em Mateus aponta para um único argumento central, o que Deus prometeu, chegou.

É também o Evangelho que mais foi lido na Igreja primitiva. Citado com mais frequência pelos Pais da Igreja do que qualquer outro, primeiro na lista dos cânones mais antigos, o Evangelho que forneceu o texto do Pai Nosso e das Bem-Aventuranças à liturgia cristã por vinte séculos. Quando a Igreja precisava ensinar, pregava Mateus.

Esta análise expositiva foi construída para o pregador e o estudante que querem entrar em Mateus com profundidade real, com atenção ao grego, ao contexto histórico-cultural do século I judaico, à estrutura literária deliberada do evangelista, e ao coração cristológico que sustenta cada perícope. Ao final, cada bloco do Evangelho está indexado com os sermões expositivos completos disponíveis, para que análise e pregação caminhem juntas.

Exegese, Teologia e Análise Expositiva do Evangelho de Mateus - Rev. Fabiano Queiroz

O Nome, o Gênero e o Lugar de Mateus no Cânon

Por que “Evangelho segundo Mateus”

O título “Kata Matthaion”, Segundo Mateus, não é do autor. Como todos os títulos dos Evangelhos, foi adicionado por copistas no final do século II para distinguir os quatro relatos que circulavam juntos. Mas a atribuição é antiga e consistente: nenhum manuscrito sobrevivente apresenta o primeiro Evangelho sem o título que o associa a Mateus.

O próprio texto nunca nomeia seu autor, característica compartilhada com os outros três Evangelhos. Os Evangelhos são literatura de proclamação, não de autopromoção: o foco é Jesus, não quem escreve sobre ele.

Gênero Literário, Bios e Evangelho

O Evangelho de Mateus pertence ao gênero greco-romano conhecido como bios, biografia antiga. Mas não é biografia no sentido moderno: não há interesse em desenvolvimento psicológico do personagem, em cronologia exaustiva ou em fontes metodicamente verificadas. É bios no sentido antigo: narrativa que apresenta o caráter, os feitos e os ensinamentos de uma figura significativa para instruir e formar o leitor.

O termo “evangelho”, euangelion, vem de uma tradição diferente: a proclamação de boa notícia. Em Isaías 52.7 e 61.1, é o arauto que anuncia o reinado de Deus ao povo exilado. Marcos 1.1 usa ‘evangelho’ como título do próprio livro. Mateus usa o termo 5 vezes para descrever o que Jesus proclama, e o livro inteiro é a forma escrita dessa proclamação.

🔗 Leia mais: Introdução panorâmica do Evangelho de Mateus

Lugar Canônico: Por que Mateus Abre o Novo Testamento

Mateus não é o Evangelho mais antigo, Marcos provavelmente o é. E não é o mais extenso em conteúdo narrativo único. Mas ocupa o primeiro lugar no cânon do Novo Testamento por razões teológicas e eclesiásticas: é o Evangelho mais citado na Igreja primitiva, mais usado no ensino catequético, e o que mais explicitamente conecta Jesus à promessa veterotestamentária.

Sua posição de abertura do NT faz sentido estruturalmente: quem termina Malaquias (o último livro do AT hebraico) e abre Mateus está lendo continuidade, não ruptura. A genealogia de Mateus 1.1 começa com Abraão e Davi, os dois pilares da promessa do AT, e o leitor imediatamente sabe em que história está.

Autoria: Mateus, o Publicano e Apóstolo

Quem era Mateus, Levi, o Cobrador de Impostos

Mateus aparece nos três Sinóticos como cobrador de impostos chamado por Jesus. Em Marcos 2.14 e Lucas 5.27, ele é chamado de Levi, filho de Alfeu. Em Mateus 9.9, é chamado de Mateus, o mesmo nome que aparece nas listas dos Doze em Mateus 10.3, Marcos 3.18 e Lucas 6.15.

A identificação Levi = Mateus é antiga e consistente na tradição da Igreja. A diferença de nome tem explicação natural: era comum entre judeus do século I ter nome hebraico para uso cotidiano e nome grego ou aramaico para uso público, especialmente para alguém que trabalhava para o governo romano. O nome ‘Mateus’ possivelmente significa ‘dom de Deus’ (variante de Matias).

Coletores de impostos no século I eram funcionários do sistema de arrecadação romano, frequentemente contratados por publicanos privados que pagavam uma taxa antecipada ao Império e depois cobravam o que podiam dos contribuintes, ficando com a diferença. A profissão era socialmente desprezada por duas razões: colaboração com a ocupação romana e práticas de extorsão amplamente associadas ao cargo. A habilidade de taquigrafia mencionada nas fontes antigas faz sentido para alguém que precisava registrar transações rapidamente.

Evidências Internas de Autoria Mateana

Três evidências internas sustentam a autoria de Mateus. Primeiro, apenas o primeiro Evangelho identifica o cobrador de impostos chamado por Jesus como “Mateus” (9.9), enquanto Marcos e Lucas o chamam de Levi. Se o autor fosse anônimo, não haveria razão para substituir o nome de Levi pelo de Mateus.

Segundo, Mateus 9.9 narra o próprio chamado em terceira pessoa com a brevidade discreta de uma testemunha ocular que prefere não se destacar, em contraste com a versão de Lucas, que desenvolve mais o evento. É o estilo de quem escreve sobre si mesmo sem querer chamar atenção para si.

Terceiro, o interesse em detalhes financeiros e numéricos, as parábolas dos talentos (25.14-30), do servo que devia dez mil talentos (18.23-24), as moedas no peixe (17.27), sugere autor familiarizado com contabilidade. É o estilo mental de um homem que passou anos registrando transações.

Evidências Externas: Papias e os Pais da Igreja

O testemunho externo mais antigo é de Papias, bispo de Hierápolis (c. 60-130 d.C.), preservado por Eusébio de Cesareia: ‘Mateus coletou os oráculos (logia) do Senhor no dialeto hebraico (hebraidi dialektō), e cada um os interpretou como pôde.’

Essa declaração gerou debate por séculos: o Evangelho que temos está em grego sofisticado, sem marcas de tradução. As soluções propostas incluem: (a) Papias referia-se a uma coleção de ditos (logia) que Mateus produziu em aramaico, diferente do Evangelho grego atual; (b) ‘hebraidi dialektō’ refere-se ao estilo semítico de pensar e escrever, não necessariamente a uma língua diferente; (c) Mateus escreveu em aramaico e depois expandiu e revisou em grego.

Além de Papias: Irineu de Lyon (c. 180 d.C.) afirma explicitamente que ‘Mateus publicou entre os hebreus um Evangelho escrito em sua própria língua.’ Orígenes, Eusébio e Jerônimo repetem e desenvolvem o mesmo testemunho. O consenso patrístico é unânime na atribuição matiana.

O Debate Moderno: Prioridade Marcana e Autoria Apostólica

O problema mais sério para a autoria mateana direta é o chamado Problema Sinótico. Mateus, Marcos e Lucas compartilham extenso material comum, em estrutura, sequência e até fraseado. A hipótese mais aceita academicamente é a prioridade marcana: Marcos teria sido escrito primeiro, e Mateus e Lucas o teriam usado como fonte, junto com uma fonte hipotética de ditos (Q, do alemão Quelle, “fonte”).

Se Mateus o apóstolo foi testemunha ocular de Jesus, por que dependeria de Marcos (que não era apóstolo) para contar a história? Essa é a objeção central. As respostas conservadoras incluem:

  • (a) um apóstolo pode valorizar e incorporar o testemunho de outro sem que isso negue sua autoria;
  • (b) a prioridade marcana não é fato estabelecido, a hipótese de Mateus ser primeiro (prioridade mateana, defendida por B.C. Butler, W.R. Farmer) tem defensores sérios;
  • (c) “uso de fontes” não nega autoria na literatura antiga, onde compilação era prática normal, do contrário outros textos da Bíblia também ficariam comprometidos.

Para o pregador: o debate sobre autoria e fontes é academicamente real mas pastoralmente secundário, eu até diria, irrelevante senão no seio dos seminários teológicos. A autoridade canônica do Evangelho de Mateus não depende de resolver o Problema Sinótico. O que importa para a pregação é que o texto que temos foi recebido pela Igreja como Palavra de Deus, e que seu argumento Cristológico e teológico é coerente e poderoso independentemente dessas questões.

Data: Lugar de Composição e Destinatários

Data: O Debate entre Pré-70 e Pós-70 d.C.

O debate sobre a data de Mateus gira em torno de um evento central: a destruição de Jerusalém e do Templo por Tito em 70 d.C. Mateus 24 inclui o discurso escatológico de Jesus sobre a destruição do Templo. Se o Evangelho foi escrito antes de 70 d.C., Mateus 24 é profecia genuína. Se foi escrito depois, pode ser relectura à luz do evento.

A posição conservadora, seguindo Carson, Moo e Morris (Commentary on Matthew), defende data pré-70 d.C., provavelmente entre 50-65 d.C. Os argumentos incluem: (a) Mateus 24 não descreve o cumprimento da profecia com a precisão que seria esperada de alguém escrevendo depois do evento; (b) a Didaqué (c. 80-120 d.C.) usa Mateus extensivamente, pressupondo que o texto já circulava; (c) Papias (c. 60-130 d.C.) conhece Mateus, sugerindo composição anterior.

A posição crítica majoritária prefere 80-90 d.C., baseada na dependência de Marcos (datado c. 65-70 d.C.) e na suposta refletição pós-destruição em Mateus 22.7. Nenhuma das duas posições é demonstrada de forma conclusiva, o pregador reformado tem boas razões para defender a data mais antiga.

Lugar de Composição: Antioquia da Síria

Antioquia da Síria é o candidato mais frequentemente citado para o local de composição, e as evidências são razoavelmente fortes. Antioquia era a terceira maior cidade do Império, centro do movimento cristão primitivo (Atos 11.19-26; 13.1-3), e tinha população mista de judeus e gentios, exatamente o perfil dos destinatários que Mateus parece pressupor.

A Didaqué, provavelmente composta na região da Síria, usa Mateus como texto litúrgico primário, sugerindo que o Evangelho tinha autoridade especial ali. Inácio de Antioquia (c. 108 d.C.) cita Mateus mais do que qualquer outro Evangelho, evidência de que o texto era especialmente venerado em sua cidade.

Antioquia do Orontes (atual Antioquia, sul da Turquia) tinha população estimada entre 300.000 e 500.000 habitantes no século I, a terceira maior cidade do Império depois de Roma e Alexandria. A comunidade judaica era grande e estabelecida. A congregação cristã de Antioquia foi a primeira a receber o nome ‘cristãos’ (Atos 11.26) e o centro de onde Paulo partiu para suas viagens missionárias.

Os Destinatários: Judeu-Cristãos e a Missão Universal

A orientação judaica de Mateus é evidente em cada página: 93 citações do Antigo Testamento (mais do que qualquer outro Evangelho), genealogia que começa em Abraão, Jesus apresentado como cumprimento da Lei e dos Profetas, debate constante com escribas e fariseus, uso de “Reino dos Céus” em vez de “Reino de Deus” (para evitar pronunciar o nome divino, prática judaica).

Mas Mateus não é exclusivista. A missão dos Magos do Oriente (2.1-12), a cura do servo do centurião com o maior elogio de fé em todo o Evangelho (8.10), a menção de quatro mulheres gentias na genealogia (Tamar, Raabe, Rute, Bate-Seba), e a Grande Comissão para “todas as nações” (28.19) mostram que o alcance do Evangelho é universal desde o início.

A tensão entre orientação judaica e alcance universal é deliberada, Mateus está escrevendo para comunidade que precisa entender como o messias de Israel é também Salvador do mundo. Esse é um dos projetos teológicos centrais do Evangelho.

Contexto Histórico, Político e Geográfico

A Palestina sob Roma, Ocupação, Tensão e Expectativa Messiânica

Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande (37-4 a.C.), rei-cliente de Roma que governou a Judeia com eficiência brutal. A morte de Herodes dividiu seu reino entre três filhos: Arquelau recebeu a Judeia e a Samaria (até ser deposto em 6 d.C. e substituído por prefeitos romanos), Antipas recebeu a Galileia e a Pereia, Filipe recebeu as regiões do nordeste.

Jesus cresceu na Galileia de Antipas, região relativamente próspera mas com tensões de classe e tributação romana crescente. O ministério público de Jesus acontece majoritariamente na Galileia antes de se deslocar para Jerusalém, onde a confrontação com as autoridades religiosas e romanas seria inevitável.

Sepphoris, a capital da Galileia a apenas 6 km de Nazaré, era cidade cosmopolita em reconstrução durante a infância de Jesus, Herodes Antipas a estava transformando em capital regional. Um jovem carpinteiro/construtor (tektōn) de Nazaré provavelmente trabalharia em Sepphoris. Isso sugere que Jesus cresceu em contato com o mundo urbano greco-romano, não apenas no isolamento rural que às vezes se imagina.

🔗 Leia mais: A Estrutura Histórica e Teológica do Evangelho de Mateus

As Correntes Religiosas de Israel no Século I

O judaísmo do século I era pluralista, não havia uma posição única, mas um espectro de grupos com teologias e práticas distintas. Mateus apresenta Jesus em conflito com escribas e fariseus com frequência, o que reflete a realidade histórica de um Jesus que desafiava as interpretações dominantes da Lei.

Fariseus: movimento leigo de renovação dedicado à observância rigorosa da Torah e das tradições orais. Eram respeitados pelo povo e influentes nas sinagogas. O conflito de Jesus com eles em Mateus não é sobre ‘judaísmo versus cristianismo’, é debate interno sobre o que a fidelidade à Torah significa à luz do Messias.

Saduceus: aristocracia sacerdotal controladora do Templo. Aceitavam apenas o Pentateuco escrito, rejeitavam a ressurreição e os anjos. Menos presentes em Mateus do que os fariseus, mas centrais na narrativa da paixão.

Zelotes e sicários: movimentos de resistência armada à ocupação romana. A escolha de Mateus (cobrador de impostos, colaborador romano) e Simão, o Zelote (Mateus 10.4) como discípulos lado a lado é teologicamente carregada, o Reino de Deus reúne quem o mundo político dividia.

Herodes, Pilatos e a Política da Narrativa de Mateus

Mateus é o único Evangelho que narra a tentativa de Herodes de matar o menino Jesus (2.13-18) e a fuga para o Egito. A referência ao “massacre dos inocentes” em Belém ecoa o massacre dos meninos hebreus no Egito (Êxodo 1.16), tipologia deliberada que coloca Jesus onde Moisés esteve.

Pôncio Pilatos aparece em Mateus com uma particularidade única: sua esposa envia recado durante o julgamento (“Não te envolvas com esse justo”, 27.19) e Pilatos lava as mãos diante da multidão (27.24), cenas exclusivas de Mateus que desenvolvem a responsabilidade humana pela morte de Cristo.

A Galileia e Jerusalém como Geografias Teológicas

Em Mateus, a Galileia é o espaço do ministério, do chamado, dos milagres, dos discursos. Jerusalém é o espaço da confrontação, da rejeição e da morte, mas também da ressurreição e da comissão. A estrutura geográfica do Evangelho é teológica: Jesus vai de Galileia a Jerusalém (4.12—16.20 na Galileia; 19.1—28.20 na jornada a Jerusalém e na cidade).

A última aparição do Ressurreto em Mateus acontece num monte na Galileia (28.16-20), não em Jerusalém. O círculo se fecha: o ministério começa na Galileia das Nações (4.15, citando Isaías 9.1-2) e termina num monte galileu com a Grande Comissão para todas as nações.

Propósito e Ocasião do Evangelho

Apresentar Jesus como Messias de Israel e Salvador do Mundo

O propósito central de Mateus é cristológico: demonstrar que Jesus de Nazaré é o Messias prometido pelo Antigo Testamento, cumprimento de Abraão, Davi, Moisés e dos profetas. Cada uma das 60 citações explícitas do AT serve esse propósito. A fórmula “para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”, hina plērōthē to rhēthen dia tou prophētou, aparece 11 vezes em Mateus (mais do que em qualquer outro Evangelho) como marcador estrutural dessa demonstração.

Mas o messias que Mateus apresenta subverte as expectativas: não é rei militar que expulsa Roma, mas Servo Sofredor que carrega os pecados do povo (8.17, citando Isaías 53.4); não é restaurador do reino davídico terreno, mas inaugurador do Reino dos Céus que alcança todas as nações.

Instruir a Comunidade Cristã: Mateus como Manual Eclesial

Nenhum outro Evangelho tem tanta atenção à vida da ekklesia, a palavra “igreja” aparece apenas em Mateus entre os quatro Evangelhos (16.18; 18.17). Os cinco discursos foram projetados não apenas para relatar o que Jesus ensinou, mas para organizar esse ensino de forma que pudesse ser ensinado e transmitido.

O Sermão da Montanha é manual de ética do Reino. O discurso missionário é manual para a missão. As parábolas do Reino explicam como o Reino funciona. O discurso da comunidade resolve conflitos internos. O discurso escatológico prepara a comunidade para perseverança até o fim. Mateus é o Evangelho que a Igreja primitiva usava para catequese, e a estrutura confirma esse propósito.

Defender a Continuidade entre AT e NT contra Rupturas

A comunidade de Mateus estava navegando uma tensão real: eram judeus (ou judeu-cristãos) que precisavam explicar por que a fé em Jesus não era abandono da Torah, e ao mesmo tempo gentios-cristãos que precisavam entender sua relação com a herança judaica.

Mateus 5.17 é a declaração mais direta desse propósito: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir”. O verbo “cumprir”, plēroō, é a chave: Jesus não abole a Torah, ele a leva à sua intenção plena. O debate com fariseus não é sobre seguir ou não seguir a Lei, é sobre quem a interpreta com autoridade real.

Mensagem Central de Mateus

O Reino dos Céus Como Tema Organizador do Evangelho de Mateus

“Reino dos Céus”, basileia tōn ouranōn, aparece 32 vezes no evangelho de Mateus, exclusivamente. Os outros Evangelhos usam “Reino de Deus”; Mateus usa a forma perifrástica judaica para evitar pronunciar o nome divino. Isso é tanto evidência de ambiente judaico quanto afirmação teológica: o céu é onde Deus reina, e Jesus anuncia que esse reinado irrompe na história.

βασιλεία τῶν οὐρανῶν (basileia tōn ouranōn), Reino dos Céus, não lugar geográfico pós-morte, mas reinado/soberania de Deus que irrompe no presente com Jesus. O paralelo com Marcos e Lucas que usam “Reino de Deus” confirma que as expressões são equivalentes. A dimensão escatológica é dupla: o Reino já chegou com Jesus (presente), mas ainda não chegou em plenitude (futuro). Essa tensão já-não-ainda governa toda a proclamação e ensino de Jesus em Mateus.

As parábolas do capítulo 13, o semeador, o trigo e o joio, o grão de mostarda, o fermento, o tesouro escondido, a pérola, a rede, são a seção mais densa sobre o que o Reino é e como funciona. O Reino vem de forma oculta, cresce contra resistência, mistura joio e trigo até o fim, surpreende quem o encontra, inclui o indesejado.

A Grande Comissão como Conclusão Teológica

Mateus 28.18-20   E, aproximando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.

A Grande Comissão não é apêndice do Evangelho, é sua conclusão teológica necessária. “Toda a autoridade no céu e na terra”, o Messias Ressurreto reivindica soberania total e universal, cumprindo Daniel 7.13-14 onde o Filho do Homem recebe domínio sobre todas as nações. A missão para “todas as nações” retoma o “todas as famílias da terra” da promessa a Abraão (Gênesis 12.3).

E a presença prometida, “eu estou convosco todos os dias”, ecoa o nome Emmanuel de Mateus 1.23: ‘Deus conosco.’ O Evangelho que começa com Emmanuel termina com a promessa da presença permanente do Ressurreto. A inclusão é teológica e deliberada.

“Não Vim Revogar, Mas Cumprir”: Continuidade e Superação

Mateus 5.17 é a declaração de método hermenêutico do Evangelho inteiro. Plēroō, cumprir, tem sentido de “levar à intenção plena”, não de ‘abolir’ nem de “manter igual”. Jesus cumpre a Torah ao revelar sua intenção mais profunda: a lei do coração que está por trás da lei da letra.

As seis antíteses do Sermão da Montanha, “Ouvistes que foi dito… Eu, porém, vos digo”, mostram esse padrão. Não contradição, mas aprofundamento: matar → ira no coração; adultério → olhar com desejo; divórcio → dureza do coração que a Lei tolerou. Jesus vai à raiz da intenção, não apenas à superfície da norma.

Estrutura Literária: Os Cinco Discursos e o Pentateuco de Jesus

A Descoberta de B.W. Bacon: O Novo Pentateuco

Em 1930, o estudioso B.W. Bacon publicou Studies in Matthew, onde propôs que Mateus organizou deliberadamente seu Evangelho em cinco livros de discursos precedidos por narrativa, espelhando a estrutura do Pentateuco de Moisés. A tese foi amplamente aceita e refinada por estudiosos subsequentes como W. D. Davies, Dale Allison e D. A. Carson.

A evidência está na fórmula de encerramento que aparece cinco vezes: “E aconteceu que, quando Jesus acabou de dizer estas palavras…” (7.28; 11.1; 13.53; 19.1; 26.1). Essa fórmula repetida é marcador estrutural deliberado, o evangelista sinalizando ao leitor que um bloco de discurso foi concluído.

A quíntupla estrutura dos discursos sugere que Mateus retratava Jesus como novo e maior Moisés. Como Moisés, ele proferiu sua lei num monte. Como Moisés, seu ensinamento está contido em cinco seções correspondentes ao Pentateuco.

Prólogo – Mateus 1–2: Genealogia, Nascimento e Infância

O prólogo de Mateus não é prefácio descartável, é síntese teológica. A genealogia (1.1-17) conecta Jesus a Abraão (promessa de bênção às nações) e a Davi (promessa de reino eterno). A estrutura 3×14 gerações é artificial e deliberada: 14 é o valor numérico do nome Davi em hebraico (dalet-vav-dalet = 4+6+4). Jesus é ‘filho de Davi’ numa proporção matemática inscrita na genealogia.

As quatro mulheres na genealogia, Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba, são todas figuras com histórias irregulares segundo padrões convencionais: Tamar seduziu seu sogro, Raabe era prostituta, Rute era moabita (estrangeira excluída), Bate-Seba foi adulterada por Davi. Sua presença sinaliza que a graça de Deus opera fora dos padrões esperados, preparando o leitor para Maria, cujo filho nasceu de forma humanamente inexplicável.

A estrela de Mateus 2.2, que guiou os Magos do Oriente, tem paralelos em textos judaicos e astronômicos do período. Números 24.17 (“uma estrela surgirá de Jacó”) era lido messianicamente. Júpiter, planeta do rei no simbolismo astronômico antigo, esteve em conjunção com Saturno e depois com Vênus em 7-6 a.C., período compatível com o nascimento de Jesus. Os Magos eram provavelmente astrônomos/astrólogos persas ou babilônicos, herdeiros da tradição que Daniel havia influenciado no exílio.

Discurso 1 – Mateus 5–7: Sermão da Montanha

O Sermão da Montanha é o discurso central de Mateus e o texto ético mais influente da história ocidental. Suas seções: Bem-Aventuranças (5.3-12), Sal e Luz (5.13-16), Jesus e a Torah (5.17-20), Seis Antíteses (5.21-48), Práticas de Piedade (6.1-18), Confiança no Pai (6.19-34), Relações na Comunidade (7.1-12), Conclusão (7.13-27).

O contexto “no monte” é tipológico: Moisés recebeu a Torah no Sinai. Jesus senta no monte e ensina, com a diferença crucial do versículo 29: “porque ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas”. Os escribas citavam autoridades anteriores. Jesus dizia “Eu, porém, vos digo”, autoridade de primeira pessoa que ou é messiânica ou é blasfêmia.

Discurso 2 – Mateus 10: O Discurso Missionário

O segundo discurso instrui os Doze enviados para missão em Israel. Inclui as instruções práticas (10.5-15), as advertências sobre perseguição (10.16-23) e os ditos sobre identificação com Cristo (10.24-42). A limitação a Israel, “não vades ao caminho dos gentios” (10.5), é temporal: a missão universal da Grande Comissão (28.19) é o cumprimento do que este discurso prepara.

Discurso 3 – Mateus 13: As Parábolas do Reino

Sete parábolas sobre o Reino dos Céus, o centro estrutural do Evangelho. O Semeador (13.3-23) com sua explicação explícita sobre como a Palavra é recebida. O Trigo e o Joio (13.24-30, 36-43), mistura de verdadeiros e falsos discípulos até o julgamento final. O Grão de Mostarda e o Fermento (13.31-33), crescimento desproporcional a partir de origem mínima. O Tesouro e a Pérola (13.44-46), valor absoluto do Reino que justifica tudo. A Rede (13.47-50), separação escatológica final.

A virada de 13.10-17, por que Jesus fala em parábolas, é teologicamente densa. As parábolas revelam e ocultam ao mesmo tempo: a quem tem, mais será dado; a quem não tem, até o que tem será tirado. O ensino em parábolas não é pedagogia inclusiva, é julgamento misericordioso que respeita a dureza do coração enquanto preserva a mensagem para ouvidos abertos.

Discurso 4 – Mateus 18: O Discurso da Comunidade

O quarto discurso resolve tensões internas da comunidade: grandeza no Reino (18.1-5), responsabilidade por os pequenos (18.6-14), disciplina eclesiástica (18.15-20) e perdão ilimitado (18.21-35). A parábola do servo que devia dez mil talentos e não perdoou cem denários é a formulação mais poderosa de Mateus sobre a relação entre receber perdão e conceder perdão.

Mateus 18.20, “porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”, é texto fundamental sobre a presença de Cristo na comunidade reunida. No contexto do capítulo, refere-se especificamente ao processo de disciplina eclesiástica, Cristo presente no processo de restauração.

Discurso 5 – Mateus 24–25: O Discurso Escatológico

O discurso escatológico do Monte das Oliveiras é o mais longo dos cinco e o mais hermeneuticamente disputado. Responde à pergunta dos discípulos sobre a destruição do Templo (24.2-3) com um discurso que mistura referências ao julgamento de Jerusalém em 70 d.C. e à segunda vinda de Cristo.

O projeto hermenêutico principal para o pregador é distinguir o que Jesus diz sobre 70 d.C. (24.4-35) do que diz sobre o fim (24.36-25.46). “Esta geração não passará sem que todas estas coisas aconteçam” (24.34) refere-se provavelmente à geração que veria a destruição de Jerusalém, cumprida em 70 d.C. “Aquele dia e aquela hora ninguém sabe” (24.36) marca a transição para o tema da segunda vinda, cujo tempo é incognoscível.

Epílogo – Mateus 26–28: Paixão, Morte e Ressurreição

O epílogo de Mateus é a narrativa mais longa e mais densamente carregada do Evangelho. A unção em Betânia (26.6-13), a Última Ceia com a traição de Judas (26.14-30), o Getsêmani (26.36-46), a prisão e os julgamentos (26.47—27.26), a crucificação (27.27-56), a sepultura (27.57-66), a ressurreição (28.1-10) e a Grande Comissão (28.16-20).

Mateus é o único Evangelho que narra a morte de Judas (27.3-10), o sonho da mulher de Pilatos (27.19), o lavamento das mãos (27.24-25), o terremoto e a abertura dos túmulos na morte de Jesus (27.51-53), e a guarda no sepulcro (27.62-66; 28.11-15).

A Tipologia Moisés-Cristo: O Eixo Hermenêutico de Mateus

Jesus como Novo Moisés: As Correspondências Estruturais

Mateus constrói sistematicamente a tipologia Moisés-Cristo, não como alegorização forçada, mas como demonstração que Jesus cumpre o padrão que Moisés inaugurou e Deuteronômio 18.15-18 prometia: ‘O Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, dos teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvireis.’

As correspondências são estruturais, não superficiais:

  • Massacre de bebês na infância: Faraó ordenou a morte dos meninos hebreus (Êxodo 1.16); Herodes ordenou o massacre em Belém (Mateus 2.16). Ambos os protagonistas sobrevivem.
  • Fuga para o Egito e retorno: ‘Do Egito chamei o meu filho’ (Mateus 2.15, citando Oséias 11.1), Jesus recapitula o êxodo de Israel.
  • Quarenta dias no deserto: Israel errou 40 anos no deserto em desobediência; Jesus jejeua 40 dias e vence as tentações que Israel havia falhado (Mateus 4.1-11). As três respostas de Jesus ao diabo são todas de Deuteronômio, o livro que registra os erros de Israel no deserto.
  • A Lei do Monte: Moisés recebeu a Torah no Sinai; Jesus ensina a nova Torah no monte (Mateus 5.1).
  • Cinco livros: o Pentateuco de Moisés tem cinco livros; o Evangelho de Mateus tem cinco discursos.
  • A Transfiguração: o rosto de Moisés brilhou depois de encontrar Deus no Sinai (Êxodo 34.29-35); o rosto de Jesus brilhou na transfiguração (Mateus 17.2). E Moisés aparece ao lado de Jesus no monte da transfiguração, não como rival, mas como testemunha.

Maior que Moisés: A Superioridade de Cristo (veja Eco em Hebreus)

A tipologia em Mateus não é de equivalência, é de superação. Moisés transmitia a Palavra de Deus: “Assim diz o Senhor”. Jesus fala com autoridade própria: ‘Eu, porém, vos digo.’ Moisés ficou às portas da Terra Prometida. Jesus alcança o Reino que a terra prometida prefigurava. Moisés foi servo fiel na casa de Deus; Jesus é Filho sobre a casa (Hebreus 3.5-6).

Em Mateus 17.5, a Transfiguração, a voz do Pai diz: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi”. O “a ele ouvi” ecoa Deuteronômio 18.15 sobre o profeta prometido, e designa Jesus como o cumprimento definitivo do que Moisés havia prometido. Moisés e Elias desaparecem; Jesus fica sozinho. A tipologia cumpriu seu propósito.

Teologia de Mateus

Cristologia: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo

Mateus 16.16-17   Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Então Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.

A confissão de Pedro em Cesareia de Filipe (16.13-20) é o eixo cristológico central do Evangelho. Dois títulos são usados: “Cristo” (Messias, o ungido esperado) e “Filho do Deus Vivo”, título que vai além da messiânico para a filiação divina. E Jesus confirma que esse conhecimento não vem de ‘carne e sangue’, de raciocínio humano ou observação empírica, mas de revelação do Pai.

Os títulos cristológicos em Mateus formam uma constelação rica: Filho de Davi (genealogia, 1.1; 9.27; 21.9), Emmanuel (1.23), Filho do Homem (9.6; 13.41; 26.64), Filho de Deus (4.3; 16.16; 27.54), Senhor/Kyrios (8.2; 14.28; 17.4), Servo do Senhor (8.17; 12.17-21). Cada título ilumina uma dimensão de quem Jesus é, e nenhum é suficiente sozinho.

A Ética do Reino: Sermão da Montanha e Discipulado

A ética de Mateus é ética do Reino, não lei de mérito para ganhar favor divino, mas estilo de vida daqueles cujo coração já foi transformado pelo reinado de Deus. As Bem-Aventuranças não são condições para entrar no Reino, são descrição de quem já vive sob o reinado de Deus: os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome de justiça.

A ‘justiça maior’ de Mateus 5.20, “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus”, não é quantidade de obras, mas qualidade de coração. O fariseu cumpria a letra; Jesus exige o espírito. A lei exterior tornou-se intenção interior.

Eclesiologia: A Igreja e as Chaves do Reino

Mateus 16.18-19   E eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus.

“Igreja”, ekklesia, aparece pela primeira vez no NT em Mateus 16.18, e novamente em 18.17. O debate histórico entre católicos e protestantes sobre o sentido de ‘sobre esta pedra’ é real e importa pastoralmente. A posição reformada, defendida por Calvino, Lutero e a tradição reformada em geral, identifica a “pedra” com a confissão de Pedro, não com Pedro como indivíduo: a Igreja é edificada sobre a confissão de que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus Vivo.

As “chaves do Reino” referem-se à autoridade de proclamar o evangelho, abrindo o acesso ao Reino por meio da pregação fiel. Em Mateus 18.18, a mesma autoridade de ligar e desligar é dada à comunidade no contexto da disciplina eclesiástica, não apenas a Pedro individualmente.

A Presença de Cristo: Emmanuel do Berço à Promessa Final

Um dos temas mais belos e deliberados de Mateus é a presença de Cristo. O Evangelho começa com Emmanuel, ‘Deus conosco’ (1.23). No centro, ‘onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou’ (18.20). E termina: ‘eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos’ (28.20).

A presença de Deus com o povo, tema central do AT desde o Tabernáculo, o Templo e a promessa de Ezequiel 37, encontra cumprimento em Jesus. E o Ressurreto não leva essa presença consigo na ascensão, a promete como permanente. O discipulado em Mateus é possível porque o Mestre não foi embora.

Julgamento e Escatologia: As Parábolas do Final

Mateus tem mais material sobre julgamento final do que qualquer outro Evangelho. As parábolas das dez virgens (25.1-13), dos talentos (25.14-30) e das ovelhas e cabritos (25.31-46) formam o clímax escatológico do quinto discurso. Cada uma desenvolve dimensão diferente: a primeira trata da prontidão para o retorno inesperado; a segunda da fidelidade com o que foi confiado; a terceira da identificação entre o trato aos ‘pequeninos’ e o trato ao próprio Rei.

Mateus 25.31-46, as ovelhas e os cabritos, é um dos textos mais pregados e mais mal interpretados da Bíblia. “Quem são os “meus irmãos” de mínima condição” (v.40)? A interpretação que se tornou dominante na teologia social identifica com qualquer pobre. A interpretação exegética mais defensável no contexto mateano identifica com os discípulos missionários de Jesus, o que a pergunta das nações (‘quando te vimos…?’) e o paralelismo com o discurso missionário de Mateus 10 sustentam.

O Messias e o Evangelho no Livro de Mateus

Emmanuel: Deus com Nós

Mateus 1.22-23   Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por intermédio do profeta, que diz: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emmanuel, que traduzido é: Deus conosco.

A citação de Isaías 7.14 em Mateus 1.23 é a primeira das 11 citações de cumprimento no Evangelho, e define o programa teológico: Jesus é a presença pessoal de Deus com a humanidade. O debate sobre o significado de ‘alma’ (hebraico) em Isaías 7, virgem ou mulher jovem, é resolvido pela tradução da LXX com parthenos (virgem), que Mateus cita, e pelo texto de Lucas 1.34 que confirma a concepção virginal.

O Batismo e a Teofania Trinitária

Mateus 3.16-17   E Jesus, depois de batizado, saiu logo da água, e eis que os céus se abriram, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.

O batismo de Jesus em Mateus é teofania trinitária: o Filho no rio, o Espírito descendo como pomba, a voz do Pai do céu. A pomba ecoa o Espírito sobre as águas da criação (Gênesis 1.2), nova criação inaugurada com Jesus. ‘Meu Filho amado, em quem me comprazo’ combina Salmo 2.7 (Filho real davídico) e Isaías 42.1 (Servo Sofredor em quem Deus se compraz). A identidade de Jesus contém ambos: Rei e Servo.

O Servo Sofredor em Mateus

Mateus 8.17   para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças.

Mateus cita Isaías 53.4 no contexto das curas de Jesus, não apenas da Cruz. Isso é cristologia encarnacional: a obra de carregamento do sofrimento humano que Isaías profetizou não começa na Cruz, começa na encarnação. O Filho de Deus que cura os enfermos está, em cada cura, antecipando o carregamento definitivo do sofrimento na Cruz.

Mateus 12.17-21 cita o maior trecho de Isaías no NT (42.1-4), o primeiro cântico do Servo. Jesus instrui os curados a não divulgarem, exatamente como o Servo que ‘não contenderá, nem gritará.’ A mansidão do Servo é a mansidão do Messias de Mateus: ‘Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração’ (11.29).

O Segredo Messiânico: A Confissão de Pedro

Em 16.13-20, Jesus pergunta aos discípulos quem o povo diz que ele é, e depois quem eles dizem. A confissão de Pedro desencadeia a revelação da ekklesia e da missão futura. Mas imediatamente, Jesus ‘ordenou expressamente aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que ele era Jesus, o Cristo’ (16.20).

Por que o segredo? Porque o messias que Jesus é contraria as expectativas populares. O povo esperava rei militar; Jesus vai à Cruz. Antes da Cruz, a confissão ‘Cristo’ seria mal entendida. É depois da ressurreição que a confissão recebe seu conteúdo correto, e por isso a Grande Comissão em 28.19-20, não 16.20, é o momento da proclamação universal.

A Paixão e a Fórmula de Cumprimento

A narrativa da paixão em Mateus é estruturada por cumprimentos escriturísticos. A traição por 30 moedas de prata (26.15) cumpre Zacarias 11.12-13. A oração no Getsêmani, ‘não seja como eu quero, mas como tu queres’ (26.39), é a obediência filial que contrasta com a desobediência de Adão. O grito da Cruz, ‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?’ (27.46, citando Salmo 22.1), coloca a morte de Jesus dentro do lamento do justo sofredor que o Salmo 22 descreve, e que termina em confiança e louvor (Salmo 22.24-31).

Mateus na História da Igreja e na Grande Tradição

Inácio de Antioquia: O Primeiro Cânon de Mateus

Inácio de Antioquia, martirizado c. 108 d.C., cita Mateus com frequência maior do que qualquer outro Evangelho em suas sete cartas autênticas. Isso é evidência de que o primeiro Evangelho tinha autoridade especial em Antioquia, provavelmente porque era ali que havia sido produzido ou recebido primeiro.

Inácio usa Mateus 3.15 (‘assim nos convém cumprir toda a justiça’) em sua carta aos Esmirnenses para fundamentar a realidade do batismo de Jesus, contra docetistas que negavam a realidade da carne de Cristo. Já no início do século II, Mateus era usado como texto de referência doutrinária.

Orígenes e o Comentário Alexandrino

Orígenes de Alexandria (c. 184-253 d.C.) produziu o primeiro grande comentário a Mateus, 25 volumes, dos quais fragmentos sobrevivem. Orígenes aplicou seu método alegórico ao Evangelho, buscando significado espiritual além do histórico. Seu trabalho estabeleceu o padrão de comentário exegético extenso que influenciaria toda a tradição posterior.

A abordagem alegórica de Orígenes foi tanto sua contribuição quanto sua fraqueza: sua atenção ao texto grego e ao AT era extraordinária, mas sua tendência de multiplicar sentidos espirituais às vezes obscurecia o sentido histórico que Mateus tinha em vista. Calvino e a Reforma reagiriam contra esse padrão.

João Crisóstomo, As Homilias sobre Mateus

João Crisóstomo (c. 347-407 d.C.), o maior pregador da Igreja antiga, pregou 90 homilias sobre Mateus em Antioquia, provavelmente entre 386-388 d.C. As homilias combinam exegese precisa do grego com aplicação pastoral direta e ética social corajosa. Crisóstomo usava Mateus para confrontar a riqueza desigual de Antioquia, defender os pobres e chamar a Igreja à responsabilidade social.

As Homilias sobre Mateus são o maior monumento da pregação expositiva patrística, e ainda hoje leitura essencial para o pregador que quer ver como um gênio linguístico e pastoral navegava o texto no século IV.

João Calvino: O Comentário Harmônico

O Reformador comentou os Evangelhos Sinóticos na forma de “harmonia evangélica”, apresentando Mateus, Marcos e Lucas em paralelo, perícope por perícope. O comentário de Calvino (1555) aplica seu princípio hermenêutico fundamental: o sentido literal e histórico do texto é o único fundamento da interpretação correta.

Para Calvino, Mateus era o Evangelho que mais claramente mostrava que a graça do Deus de Israel e o evangelho de Cristo são o mesmo evangelho, que os gentios são enxertados na oliveira de Israel, não plantados numa oliveira nova. A continuidade do pacto é o coração da leitura calvinista de Mateus.

D.A. Carson: O Comentário Reformado Contemporâneo

O comentário de D.A. Carson a Mateus no Expositor’s Bible Commentary (1984) é o padrão contemporâneo para o pregador reformado anglófono, e amplamente usado também por leitores lusófonos. Carson combina rigor exegético, atenção ao grego, discussão honesta das dificuldades hermenêuticas e aplicação pastoral sem simplificação.

O trabalho de Carson e Don Hagner (Word Biblical Commentary, 1993-1995) formam os dois pilares técnicos do estudo contemporâneo de Mateus a partir de perspectiva conservadora. Nenhum pregador sério de Mateus deveria ignorar os dois.

Como Usar Esta Análise Exegética: Guia para Pregadores e Estudantes

Para o Pregador Expositivo

Os cinco discursos de Mateus oferecem ao pregador uma estrutura temática natural: cada discurso pode ser uma série. O Sermão da Montanha (5-7) rende 8-12 sermões. As Parábolas do Reino (13) rendem 7-9 sermões. O Discurso Escatológico (24-25) rende 6-8 sermões. Uma série completa em Mateus pode facilmente se estender por dois anos.

A tipologia Moisés-Cristo deve orientar cada perícope: onde Jesus está recapitulando, cumprindo ou superando o padrão do AT? Essa pergunta, feita a cada texto, transforma a exposição de Mateus numa aula de teologia bíblica.

🔗 Leia mais: Como um sermão se torna pregação expositiva?

Fontes Recomendadas

Comentários técnicos:

  • D. A. Carson, Matthew (EBC), o mais completo em inglês de perspectiva conservadora.
  • Craig S. Keener, A Commentary on the Gospel of Matthew, extraordinário em contexto histórico-cultural do século I judaico.
  • R. T. France, The Gospel of Matthew (NICNT), excelente equilíbrio entre rigor e acessibilidade.
  • Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva. Este material une rigor exegético e teológico em linguagem simples.

Para pregação:

  • John Stott, The Message of the Sermon on the Mount, insuperável para o Sermão da Montanha.
  • D. Martyn Lloyd-Jones, Studies in the Sermon on the Mount (2 vols.), a análise mais profunda do Sermão que existe em inglês.
  • Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva. Este material une introdução teológica, exegética e sermões com pesquisa arqueológica, cultural, exegética e teológica.

Metodologia do Rev. Fabiano Queiroz na Exposição de Mateus

Os sermões indexados abaixo foram construídos sobre o método histórico-gramatical, com atenção ao grego de Mateus, à intertextualidade com o AT, à estrutura literária do Evangelho e à progressão cristológica de cada perícope. A tipologia Moisés-Cristo e o tema do Reino dos Céus funcionam como fios condutores que conectam cada sermão ao arco maior do Evangelho.

Sermões Expositivos em Mateus, Índice Completo por Perícope

Índice completo dos sermões disponíveis, organizados pelos blocos estruturais do Evangelho. Sermões sobre subperícopes aparecem sob o bloco correspondente. Estes sermões expositivos estão disponíveis aqui.

Prólogo: Mateus 1–2: Genealogia, Nascimento e Infância

  • Mateus 1.1-17 – A Genealogia, Abraão, Davi e o Messias Prometido
  • Mateus 1.18-25 – José, Maria e Emmanuel, O Pai Adotivo e o Nome que Muda Tudo
  • Mateus 2.1-12 – Os Magos do Oriente, O Primeiro Ato da Missão Universal
  • Mateus 2.13-23 – O Egito, o Massacre e o Retorno, Jesus Recapitula Israel
  • Mateus 3.1-17 – João Batista e o Batismo de Jesus, A Teofania Trinitária
  • Mateus 4.1-11 – As Tentações no Deserto, O Novo Israel que Não Falhou
  • Mateus 4.12-25 – O Início do Ministério na Galileia e o Chamado dos Primeiros Discípulos

Discurso 1: Mateus 5–7: Sermão da Montanha

  • Mateus 5.1-12 – As Bem-Aventuranças, Quem São os Felizes no Reino
  • Mateus 5.13-16 – Sal e Luz, A Vocação Pública da Comunidade do Reino
  • Mateus 5.17-20 – Não Vim Revogar, Mas Cumprir, Jesus e a Torah
  • Mateus 5.21-48 – As Seis Antíteses, A Lei do Coração que Jesus Exige
  • Mateus 6.1-18 – Esmola, Oração e Jejum, A Piedade que o Pai Vê em Segredo
  • Mateus 6.9-13 – O Pai Nosso, A Oração que Jesus Ensinou
  • Mateus 6.19-34 – Tesouros, Olhos e Ansiedade, Confiança no Pai que Sustenta
  • Mateus 7.1-29 – Julgamento, Oração e Dois Caminhos, A Conclusão do Sermão

Narrativa 2 e Discurso 2: Mateus 8–10

  • Mateus 8.1-17 – O Leproso, o Centurião e a Sogra de Pedro, Milagres e Missão
  • Mateus 8.18-34 – O Custo do Discipulado e o Senhorio sobre as Tempestades
  • Mateus 9.1-38 – Curas, Chamado de Mateus e a Colheita Abundante
  • Mateus 10.1-42 – O Discurso Missionário, Enviados como Ovelhas entre Lobos

Narrativa 3 e Discurso 3, Mateus 11–13

  • Mateus 11.1-30 – João Batista, as Cidades Incrédulas e o Jugo Suave
  • Mateus 12.1-50 – Os Conflitos do Sábado e o Sinal de Jonas
  • Mateus 13.1-23 – O Semeador, A Parábola que Explica Todas as Outras
  • Mateus 13.24-52 – As Seis Parábolas do Reino, Crescimento, Mistura e Valor

Narrativa 4 e Discurso 4, Mateus 14–18

  • Mateus 14.1-36 – A Morte de João, a Multiplicação dos Pães e Pedro nas Águas
  • Mateus 15.1-39 – Tradição Humana versus Mandamento Divino e a Segunda Multiplicação
  • Mateus 16.1-28 – Cesareia de Filipe, A Confissão que Funda a Igreja
  • Mateus 17.1-27 – A Transfiguração, Moisés, Elias e o Filho Amado
  • Mateus 18.1-35 – O Discurso da Comunidade, Pequeninos, Disciplina e Perdão

Narrativa 5 e Discurso 5, Mateus 19–25

  • Mateus 19.1-30 – Casamento, Divórcio, Crianças e o Jovem Rico
  • Mateus 20.1-34 – Os Trabalhadores da Vinha, a Ambição dos Filhos de Zebedeu e Bartimeu
  • Mateus 21.1-22 – A Entrada em Jerusalém e a Purificação do Templo
  • Mateus 21.23–22.46 – Os Conflitos em Jerusalém, Autoridade, Parábolas e Perguntas
  • Mateus 23.1-39 – O Ai dos Fariseus, O Sete Vezes Maldito da Religiosidade sem Coração
  • Mateus 24.1-35 – O Monte das Oliveiras, Jerusalém e os Sinais dos Tempos
  • Mateus 24.36–25.46 – A Segunda Vinda, Vigilância, Fidelidade e o Julgamento Final

Epílogo – Mateus 26–28: Paixão, Morte e Ressurreição

  • Mateus 26.1-56 – A Unção, a Ceia, Getsêmani e a Prisão
  • Mateus 26.57–27.26 – Os Julgamentos, Sinédrio, Pilatos e o Lavamento das Mãos
  • Mateus 27.27-66 – A Crucificação, a Morte e a Sepultura
  • Mateus 28.1-20 – A Ressurreição e a Grande Comissão, Emmanuel até o Fim

Índice Temático: Temas Teológicos e Seus Sermões

O mesmo conteúdo reagrupado por tema.

O Reino dos Céus

  • Mateus 5.3-12 – Bem-Aventuranças, Quem Habita o Reino
  • Mateus 13.1-52 – As Parábolas do Reino, Como o Reino Funciona
  • Mateus 25.31-46 – O Julgamento Final, O Rei e os Seus

Cristologia e Cumprimento do AT

  • Mateus 1.18-25 – Emmanuel, Deus Conosco
  • Mateus 4.1-11 – Jesus Recapitula Israel nas Tentações
  • Mateus 17.1-9 – Transfiguração, Jesus como Novo Moisés e Elias

Ética do Reino

  • Mateus 5.17-48 – A Torah de Jesus, Além da Letra
  • Mateus 6.1-18 – Piedade que o Pai Vê, Contra a Religiosidade de Performance
  • Mateus 25.14-30 – Os Talentos, Fidelidade com o que Foi Confiado

Discipulado e Missão

  • Mateus 10.1-42 – O Discurso Missionário
  • Mateus 16.24-28 – Negar a Si Mesmo e Tomar a Cruz
  • Mateus 28.18-20 – A Grande Comissão, Todas as Nações

Sobre o Autor

Rev. Fabiano Queiroz é Pastor Presbiteriano, Teólogo e Expositor Bíblico, com Formação em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul e Pós-graduação em Interpretação Bíblica pela Faculdade Batista do Paraná. Autor da maior biblioteca expositiva evangélica do Brasil, uma Coleção de Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva que cobre os 66 livros da Bíblia, construída sobre o método Histórico-gramatical, Teologia Bíblica e Cristocentrismo. Pesquisador em Pregação Expositiva. Saiba mais sobre o autor e seu método →


INFORMAÇÕES IMPORTANTES

Conheça mais: Este estudo exegético do evangelho de Mateus faz parte Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.

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