Templo de Salomão: História, Arqueologia e Teologia do Templo

Conteúdo

Tudo sobre o Templo de Salomão: descrição bíblica completa, evidências arqueológicas, debate maximistas vs. minimalistas, paralelos com Ain Dara, Tell Tayinat e Motza, teologia do Templo e tipologia cristã. Estudo Bíblico Avançado.


O Templo de Salomão, chamado pelos estudiosos de Primeiro Templo, foi o santuário central de Israel construído pelo rei Salomão no Monte Moriá em Jerusalém, provavelmente no século X a.C., destruído pelo rei babilônico Nabucodonosor em 586 a.C. A Bíblia descreve sua construção detalhadamente em 1 Reis 6–7 e 2 Crônicas 3–4: tinha aproximadamente 27 metros de comprimento, 9 de largura e 13,5 de altura, estruturado em três espaços progressivamente mais sagrados, o Ulam (pórtico), o Heikhal (lugar santo) e o Debir (Santo dos Santos), onde repousava a Arca da Aliança sob as asas de dois querubins gigantes. Escavações no Monte do Templo são politicamente impossíveis, mas pesquisas em sítios circundantes e paralelos arqueológicos no Próximo Oriente Antigo especialmente os templos de Ain Dara (Síria), Tell Tayinat (Turquia) e Tel Motza (7 km de Jerusalém, descoberto em 2012) confirmam que a descrição bíblica corresponde fielmente à arquitetura sacra da região no período do Ferro IIA.

Este artigo apresenta o Templo de Salomão com rigor histórico, arqueológico e teológico. O debate entre maximistas e minimalistas é tratado com equilíbrio, apresentando as posições de Israel Finkelstein (baixa cronologia), Amihai Mazar, William Dever e Yosef Garfinkel (alta cronologia) sem endossar uma como única. As evidências arqueológicas indiretas são claramente distinguidas das evidências diretas. A impossibilidade de escavar o Monte do Templo é apresentada como fato verificado. Os paralelos de Ain Dara, Tell Tayinat e Tel Motza são discutidos com as publicações acadêmicas correspondentes. A Teologia do Templo é apresentada dentro da estrutura canônica sem forçar aplicações denominacionais específicas.


Há uma ironia na história do edifício mais famoso da Bíblia: nunca foi encontrado. O Monte do Templo em Jerusalém, onde o Templo de Salomão teria ficado por quatro séculos, de c. 960 a 586 a.C. é hoje o sítio arqueológico mais politicamente bloqueado do planeta e ao mesmo tempo um barril de pólvora. Sobre ele descansam a Cúpula da Rocha e a Mesquita Al-Aqsa, terceiro e quarto locais mais sagrados do Islã. Qualquer escavação é impossível.

Mas a ausência de escavação direta não significa ausência de evidência. Nas últimas décadas, descobertas em sítios circundantes, paralelos arquitetônicos em toda a região sírio-palestinense e análises cada vez mais sofisticadas do texto bíblico convergiram para uma imagem cada vez mais nítida de um edifício real, histórico, e de importância teológica sem paralelo na história de Israel.

O Templo de Salomão - Rev. Fabiano Queiroz
O Templo de Salomão – Rev. Fabiano Queiroz

1. O que era o Templo de Salomão? Identidade e significado

Mais do que um edifício religioso

O Templo de Salomão designado pelos estudiosos como Primeiro Templo (Beit HaMikdash HaRishon em hebraico) foi simultaneamente:

  • Centro de culto: O único lugar onde sacrifícios eram legitimamente oferecidos a YHWH (centralização do culto — plenamente realizada sob Josias em 621 a.C.)
  • Palácio de Deus: Na cosmologia do Antigo Oriente Próximo, o templo era a casa da divindade, onde o deus habitava entre Seu povo
  • Repositório da Arca da Aliança: O objeto mais sagrado de Israel, contendo as tábuas da Lei, a vara de Arão e o vaso de maná
  • Centro político-nacional: A construção do Templo consolidou Jerusalém como capital espiritual de todo Israel e vinculou a linhagem davídica à habitação divina
  • Eixo cosmológico: No simbolismo do Antigo Testamento, o Templo era o ponto onde o céu tocava a terra — o umbigo do mundo (omphalos mundi) de Israel

O comentarista G.K. Beale (The Temple and the Church’s Mission, 2004) identifica o Templo de Salomão como o ponto culminante de uma progressão que começa no Jardim do Éden, o primeiro lugar de presença divina, passa pelo Tabernáculo de Moisés e termina, tipologicamente em Jesus Cristo e na Igreja como templo definitivo do Espírito.

Os nomes do Templo

O hebraico bíblico usa várias expressões para o Templo de Salomão:

  • Beit YHWH (בֵּית יְהוָה) — “a casa do Senhor” (a designação mais comum)
  • Beit Elohim (בֵּית אֱלֹהִים) — “a casa de Deus”
  • HaBayit (הַבַּיִת) — “a Casa” (com artigo definido, indicando sua unicidade)
  • Beit Haqqodesh (בֵּית הַקֹּדֶשׁ) — “a casa sagrada”

2. O contexto histórico: Davi planejou, Salomão construiu

Por que Davi não construiu o Templo

A tradição bíblica preserva uma teologia específica sobre por que Salomão, não Davi, construiu o Templo. Há duas razões registradas:

  • Razão 1 — O sangue: 1 Crônicas 22.8 registra a palavra de Deus a Davi: “Tu derramaste muito sangue, e fizeste grandes guerras; não edificarás casa ao meu nome, porquanto muito sangue tens derramado diante de mim”. Davi era homem de guerra; o construtor do Templo seria homem de paz.
  • Razão 2 — O nome Salomão: 1 Crônicas 22.9 declara: “Eis que te nascerá um filho, que será homem de paz… e o seu nome será Salomão, e darei paz e sossego a Israel em seus dias”. O próprio nome Shlomo (שְׁלֹמֹה — de shalom, paz) indicava que ele seria o construtor adequado.

A preparação de Davi

Embora não pudesse construir, Davi fez preparação extraordinária: 1 Crônicas 28–29 registra que ele havia acumulado grandes quantidades de ouro, prata, bronze, ferro, madeira e pedra, entregado a Salomão os planos arquitetônicos detalhados que recebera “por escrito da mão do Senhor” (1 Crônicas 28.19), e organizado os turmas sacerdotais e levíticas.

O contexto político de Salomão

Salomão subiu ao trono c. 970 a.C. e reinou por 40 anos (970–930 a.C.), segundo as cronologias bíblicas. O período coincide com uma janela de oportunidade geopolítica rara: o Egito estava em declínio, período da Terceira Fase Intermediária, a Assíria ainda não havia se consolidado como potência regional, e os grandes impérios da Mesopotâmia estavam momentaneamente fracos. Israel sob Davi e Salomão ocupou um espaço de relativa predominância regional que os arqueólogos chamam de “vácuo de poder do século X a.C.”


3. A construção: recursos, arquitetos e cronologia

A data de início

1 Reis 6.1 fornece a datação mais específica do Templo: “E aconteceu que no ano quatrocentos e oitenta depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito, no ano quarto do reinado de Salomão sobre Israel, no mês de Zive (que é o segundo mês), começou a edificar a casa do Senhor.”

Se o Êxodo foi c. 1446 a.C. (datação alta, seguida por comentaristas conservadores como Kenneth Kitchen), o quarto ano de Salomão seria c. 966 a.C. Se o Êxodo foi c. 1290 a.C. datação baixa, mais comum entre arqueólogos, o Templo teria começado c. 963–960 a.C. O consenso aproximado é c. 966–960 a.C. para o início da construção.

A duração: sete anos

1 Reis 6.38: “E no ano ondenavo, no mês de Bul (que é o oitavo mês), acabou-se a casa com todos os seus detalhes e com tudo o que a ela pertencia. Edificou-a em sete anos.”

Sete anos de construção para o Templo — versus treze anos para o palácio real adjacente (1 Reis 7.1). A sequência de prioridades implícita foi percebida pelos comentaristas como reveladora.

O arquiteto fenício: Hirão de Tiro

A Bíblia documenta que Salomão contratou mão de obra especializada do rei Hirão (Quírao) de Tiro — cidade-estado fenícia no atual Líbano:

  • Madeira de cedro e cipreste do Líbano — a madeira de qualidade superior da região
  • Hirão artífice (1 Reis 7.13-14) — um mestre metalúrgico de origem mista (pai tireneu, mãe israelita da tribo de Naftali) que produziu todos os objetos de bronze
  • Trabalhadores qualificados em pedra e madeira

A contratação de arquitetos e materiais fenícios é arqueologicamente relevante: os templos fenícios da região de Tiro e Sídon seguiam padrões arquitetônicos que se espalharam por toda a costa levantina no período do Ferro IIA, exatamente o estilo que os paralelos arqueológicos de Ain Dara e Tell Tayinat confirmam.


4. Descrição bíblica completa: 1 Reis 6–7 e 2 Crônicas 3–4

As dimensões em cúbitos reais

A Bíblia fornece as dimensões do Templo em cúbitos (hebraico: amah — אַמָּה). Um cúbito real correspondia a aproximadamente 44,5–52,5 cm. Usando 45 cm como referência aproximada:

DimensãoCúbitosMetros aproximados
Comprimento total60 cúbitos~27 metros
Largura20 cúbitos~9 metros
Altura30 cúbitos~13,5 metros
Pórtico (Ulam) — profundidade10 cúbitos~4,5 metros
Lugar Santo (Heikhal) — comprimento40 cúbitos~18 metros
Santo dos Santos (Debir) — cubo20 × 20 × 20~9 × 9 × 9 metros

O Templo era, portanto, um edifício relativamente modesto em termos absolutos, comparável a uma casa grande moderna, mas de simbolismo arquitetônico extraordinário dentro da tradição sacra do Próximo Oriente Antigo.

Os materiais

  • Pedra de cantaria: O núcleo estrutural era de pedra calcária preparada fora do sítio “acabadas de lavrar” (1 Reis 6.7) de modo que no local da construção “nem martelo, nem machado, nem instrumento de ferro algum se ouvia.” Isso não era apenas protocolo ritual; refletia a prática de pré-fabricação de elementos arquitetônicos que a arqueologia confirma em sítios do período.
  • Cedro do Líbano: Todo o interior do Templo foi revestido internamente com madeira de cedro (1 Reis 6.15-18) paredes, teto e chão. Sobre o cedro, uma camada de ouro puro.
  • Ouro puro: As paredes internas, o chão, o altar de incenso, as mesas, os candelabros tudo revestido de ouro (1 Reis 6.20-22; 6.30).
  • Bronze: Os grandes utensílios externos o Mar de Bronze, as colunas Jaquim e Boaz, dez suportes de rodas fundidos em bronze pelo artífice Hirão.

5. Os três espaços sagrados: Ulam, Heikhal e Debir

A estrutura tripartite e seu simbolismo

O Templo de Salomão seguia o padrão dos templos do Próximo Oriente Antigo: uma sequência de espaços de acesso progressivamente mais restrito, com a santidade aumentando em direção ao interior.

O Ulam (אוּלָם) — o Pórtico:

Tinha 10 cúbitos de profundidade, 20 de largura e altura disputada no texto (possivelmente 120 cúbitos segundo 2 Crônicas 3.4, o que seria extravagante, levando muitos comentaristas a suspeitar de erro textual). Era o espaço de transição entre o pátio externo e o interior sagrado. Nele ficavam as duas grandes colunas de bronze, Jaquim e Boaz.

O Heikhal (הֵיכָל) — o Lugar Santo:

Quarenta cúbitos de comprimento, 20 de largura, 30 de altura. Neste espaço ficavam:

  • O altar de incenso de ouro (diante da cortina do Debir)
  • A mesa dos pães da proposição (dez mesas segundo 2 Crônicas 4.8)
  • Os candelabros de ouro puro (dez, cinco de cada lado — 1 Reis 7.49)

O Heikhal era acessível apenas pelos sacerdotes em serviço não pelos israelitas comuns.

O Debir (דְּבִיר) — o Santo dos Santos:

Um cubo perfeito de 20 × 20 × 20 cúbitos. Debir deriva possivelmente de davar (פָּבַר — “falar”) ou de um radical que significa “interior/traseiro.” Era o espaço mais sagrado da criação o único lugar na terra onde a presença de YHWH era concentradamente localizada sobre a Arca da Aliança. Acessível apenas pelo sumo sacerdote, apenas no Yom Kippur (Dia da Expiação).

No Debir ficavam dois querubins gigantes de madeira de oliveira coberta de ouro, cada um com 10 cúbitos (4,5 metros) de altura e asas de 5 cúbitos totalizando 20 cúbitos de envergadura asa a asa quando posicionados juntos. As asas se tocavam no centro e encostavam nas paredes opostas, formando um dossel de proteção sobre a Arca.


6. O mobiliário sagrado: o Mar de Bronze, as colunas Jaquim e Boaz

Os grandes objetos de bronze

O Mar de Bronze (הַיָּם — HaYam):

1 Reis 7.23-26 descreve um vaso circular enorme: “Fez também o mar de fundição, de borda a borda dez côvados, redondo em redor, de cinco côvados de alto, e um cordão de trinta côvados o media em volta”. Estava apoiado sobre doze bois de bronze, agrupados em quatro grupos de três, voltados para os quatro pontos cardeais. Capacidade: 2.000 batos de água (c. 44.000 litros). Usado para as abluções dos sacerdotes.

As Colunas Jaquim e Boaz:

No pórtico do Templo ficavam duas colunas de bronze monumentais (1 Reis 7.15-22):

  • Cada uma com 18 cúbitos (c. 8 metros) de altura e 12 de circunferência
  • Com capitéis elaborados de bronze na forma de lírios, romãs e redes entretecidas
  • Jaquim (יָכִין — “Ele estabelece”) — a coluna do lado direito/sul
  • Boaz (בֹּעַז — “Nele está a força”) — a coluna do lado esquerdo/norte

As duas colunas são um dos elementos arquitetônicos mais comentados do Templo. Não eram estruturais (não sustentavam o teto) eram monumentais e simbólicas. Paralelos a colunas monumentais na entrada de templos do Próximo Oriente Antigo foram identificados em sítios fenícios e sírios, confirmando que este era padrão arquitetônico real da região.


7. A Arca da Aliança e a Shekhiná: o coração do Templo

A dedicação e a nuvem de glória

O evento mais teologicamente carregado da história do Primeiro Templo foi sua dedicação por Salomão, narrada em 1 Reis 8:

“E aconteceu que, quando os sacerdotes saíram do lugar santo, a nuvem encheu a casa do Senhor; de sorte que os sacerdotes não podiam estar em pé para ministrar por causa da nuvem; porque a glória do Senhor encheu a casa do Senhor.” — 1 Reis 8.10-11 (ACF)

A nuvem (anan — עָנָן) era a manifestação visível da Shekhiná (שְׁכִינָה — de shakan, habitar) a presença habitante de Deus. A mesma nuvem que havia guiado Israel no deserto, que havia descido sobre o Tabernáculo de Moisés (Êxodo 40.34-38), agora preencheu o Templo de Salomão com tal intensidade que os sacerdotes não conseguiam se manter de pé.

A oração de dedicação de Salomão (1 Reis 8.22-53) é um dos textos mais teologicamente ricos do AT: reconhece que “os céus e os céus dos céus não te podem conter; quanto menos esta casa que edifiquei” (v.27) — estabelecendo que o Templo não era o confinamento de Deus, mas o ponto de encontro entre Deus transcendente e o povo concreto.


8. O debate arqueológico: maximistas vs. minimalistas

Arqueologia Bíblica - Rev. Fabiano Queiroz
Debate na Arqueologia Bíblica

A divisão que moldou a arqueologia bíblica das últimas décadas

O debate sobre a historicidade do Templo de Salomão está inserido numa disputa acadêmica mais ampla sobre a existência e a grandeza da Monarquia Unida de Davi e Salomão. Os dois campos principais:

Os Maximistas (também chamados de biblicistas ou tradicionalistas):

Representados principalmente por William Dever (Universidade do Arizona), Amihai Mazar (Universidade Hebraica de Jerusalém), Yosef Garfinkel (Universidade Hebraica) e Kenneth Kitchen, Universidade de Liverpool já aposentado. Sustentam que:

  • A descrição bíblica de Davi e Salomão é historicamente confiável em seus elementos essenciais
  • As grandes portas de seis câmaras em Megido, Hazor e Gezer (1 Reis 9.15) datam do século X a.C. e confirmam o programa construtivo de Salomão
  • A falta de evidências diretas no Monte do Templo é explicada pela impossibilidade de escavação, não pela inexistência do Templo

Os Minimalistas / Cronologia Baixa:

Representados principalmente por Israel Finkelstein (Universidade de Tel Aviv) e, em formas mais radicais, por Philip Davies, Thomas Thompson e Niels Peter Lemche. Sustentam que:

  • O Templo de Salomão, se existiu, era estrutura muito menor e mais modesta do que a Bíblia descreve
  • As grandes construções atribuídas a Salomão datam do século IX a.C. (período omrida) e não do X
  • A narrativa bíblica sobre Salomão foi amplificada durante o período de Josias (século VII a.C.)

Finkelstein chegou a descrever Salomão como “pouco mais do que um chefe tribal… governando uma região marginal, isolada e rural, sem sinais de grande riqueza ou administração centralizada” (The Bible Unearthed, p. 190).

O estado atual do debate

A posição de Finkelstein tem sido significativamente desafiada nas últimas duas décadas por descobertas como:

  • A datação por carbono-14 das portas de Gezer (2023) — que voltou a confirmar o século X a.C.
  • O Templo de Tel Motza (2012) — contemporâneo do Primeiro Templo, a 7 km de Jerusalém
  • O modelo de santuário de Khirbet Qeiyafa (c. 1000–975 a.C.)
  • A Pedra de Tel Dan (c. 835 a.C.) e a Estela de Mesha (c. 840 a.C.) — mencionando explicitamente a “Casa de Davi” como entidade política

9. O problema da escavação do Monte do Templo

Por que o sítio mais importante da arqueologia bíblica não pode ser escavado

O Monte do Templo (Har HaBayit em hebraico; Haram esh-Sharif em árabe) em Jerusalém é administrado pelo Waqf, autoridade religiosa muçulmana da Jordânia/Palestina, sob supervisão israelense desde a Guerra dos Seis Dias de 1967. Sobre o planalto de 144.000 m² repousam:

  • A Cúpula da Rocha (Dôme du Rocher) — construída em 691 d.C. pelo califa Abd al-Malik sobre a rocha de onde Maomé teria ascendido ao céu (na tradição islâmica)
  • A Mesquita Al-Aqsa — o terceiro lugar mais sagrado do Islã

Qualquer escavação arqueológica sistemática no planalto é politicamente impossível, as sensibilidades religiosas de dois bilhões de muçulmanos tornariam qualquer interferência catastrófica do ponto de vista geopolítico. Escavações ao redor do Monte na área de Ofel, ao sul, e no Muro Ocidental, são realizadas, mas não no planalto em si.

A única oportunidade acidental de acesso moderno ocorreu no final dos anos 1990, quando o Waqf construiu uma nova mesquita nos “Estábulos de Salomão” a sudeste do planalto e removeu 13.000 toneladas de terra sem supervisão arqueológica, destruindo irreversivelmente potencial estratigrafia de 3.000 anos. O sifting project (projeto de peneiramento do material removido) conduzido por Gaby Barkay e Zachi Dvira identificou fragmentos de cerâmica do período do Ferro IIA (século X–VIII a.C.) no material, confirmando presença humana intensa no Monte durante o período do Primeiro Templo.


10. Evidências indiretas: o que a arqueologia ao redor do Monte revelou

O que foi encontrado nas periferias do Monte do Templo

As escavações de Benjamin Mazar (1968–1978):

Iniciadas imediatamente após 1967 ao sul e sudoeste do Monte do Templo. Revelaram estruturas monumentais do período do Segundo Templo (herodiano) incluindo o Arco de Robinson, a Escadaria Monumental e o Muro de Contenção de Herodes. Para o período do Primeiro Templo, as camadas eram mais profundas e mais fragmentárias.

As escavações de Eilat Mazar no Ofel (2009–2013):

No morro imediatamente ao sul do Monte do Templo, Eilat Mazar descobriu:

  • Uma grande estrutura de pedra do século X a.C. — possivelmente parte do complexo administrativo do período davídico-salomônico
  • A bulla de Nerias, filho de Sereias (c. séc. VI a.C.) — confirmando personagem mencionado em Jeremias 51.59
  • Uma bulla com o nome do rei Ezequias (séc. VIII a.C.) — o primeiro selo real israelita encontrado in situ

Cerâmica do Ferro IIA:

Fragmentos de cerâmica deste período (c. 1000–830 a.C.) foram identificados em múltiplos pontos do sifting project e nas escavações periféricas, evidência de intensa atividade humana no Monte durante o período do Primeiro Templo.


11. Ain Dara: o paralelo mais próximo do Templo de Salomão

Ain Dara Templo parecido com o Templo de Salomão
Ain Dara Templo parecido com o Templo de Salomão

A descoberta mais importante para compreender o Templo bíblico

O Templo de Ain Dara descoberto em Tell Ain Dara, norte da Síria, aproximadamente 65 km a noroeste de Aleppo é o paralelo arquitetônico mais próximo do Templo de Salomão jamais encontrado. Escavado principalmente nas décadas de 1970–1990 pelo arqueólogo sírio Ali Abu Assaf, o sítio foi estudado exaustivamente pelo estudioso bíblico John Monson, que identificou mais de 30 elementos arquitetônicos e decorativos compartilhados com a descrição bíblica.

Os principais paralelos identificados por Monson

  • 1. Plano tripartite idêntico: Ain Dara tem a mesma sequência, pórtico de entrada, antecâmara, câmara principal com nicho ao fundo que o Ulam/Heikhal/Debir de Salomão.
  • 2. Plataforma monumental: Ambos os templos foram erguidos sobre enormes plataformas artificiais elevadas, afirmando visualmente a superioridade da divindade sobre o horizonte humano.
  • 3. As câmaras laterais: Ain Dara tem câmaras de armazenamento ao longo das três paredes externas do templo exatamente como as yetsi’ot (יְצִיעוֹת) descritas em 1 Reis 6.5-8.
  • 4. As colunas na entrada: Duas colunas monumentais flanqueiam o pórtico de Ain Dara correspondendo às colunas Jaquim e Boaz.
  • 5. A decoração: Leões, esfinges e palmeiras entalhados comparáveis aos querubins, palmeiras e flores descritos em 1 Reis 6.29-35.
  • 6. As pegadas gigantes: O detalhe mais dramático de Ain Dara são duas pegadas colossal esculpidas no limiar de entrada cada uma com 1 metro de comprimento, indicando a presença de uma divindade que entraria caminhando no Templo. No Templo de Salomão, a presença divina era marcada pela nuvem (Shekhiná) mas a concepção de divindade caminhando em Seu Templo é a mesma.

Datação: O Templo de Ain Dara foi construído c. 1300–1000 a.C. e ampliado c. 1000–900 a.C. tornando sua fase de maior elaboração contemporânea ao Templo de Salomão.


12. Tell Tayinat: o segundo grande paralelo arquitetônico

Tell Tayinat
Escavações arqueológicas de Tell Tayinat

Um templo escavado que confirma o estilo construtivo

O Templo de Tell Tayinat descoberto em Tell Tayinat, sul da Turquia, atual província de Hatay, foi escavado pela Oriental Institute (Universidade de Chicago) entre 1935 e 1938 e novamente a partir de 2004. Datado do século IX–VIII a.C. (período do Ferro II), é de dimensões quase idênticas ao Templo de Salomão e segue o mesmo plano tripartite.

A arqueóloga Sharon Zuckerman e o estudioso Victor Hurowitz (Universidade Ben-Gurion) que realizou um dos mais extensos estudos comparativos sobre a construção de templos no Próximo Oriente Antigo argumentam que Tell Tayinat é o paralelo arquitetônico mais próximo em dimensões absolutas ao Templo de Salomão.

O debate entre os que preferem Ain Dara (Monson) e Tell Tayinat como o paralelo principal continua na literatura acadêmica. O que ambos confirmam é que a arquitetura do Templo de Salomão não era uma invenção literária tardia era a expressão de uma tradição construtiva sacra real e bem documentada no Levante do período do Ferro.


13. Tel Motza: a descoberta de 2012 que mudou o debate

Tal Motza - Rev. Fabiano Queiroz
Escavações arqueológicas de Tel Motza

Um templo judaico do período do Primeiro Templo a 7 km de Jerusalém

Em 2012, arqueólogos do Israel Antiquities Authority (IAA) revelaram ao mundo uma descoberta extraordinária: um templo da Idade do Ferro IIA a IIB (séculos IX–VI a.C.) em Tel Motza, apenas 7 km a noroeste da antiga Cidade de Davi em Jerusalém.

O que foi encontrado:

  • Estrutura retangular com pátio aberto frontal o plano típico dos templos do AT e dos paralelos sírios
  • Figurinas de animais (cavalos, touros) e figurinas humanas masculinas de terracota
  • Vasos e utensílios cultuais em abundância
  • Depósitos de cinzas e ossos de animais sacrificados
  • Continuidade de uso de c. 900 a.C. até c. 600 a.C. início do século VI, aproximadamente contemporâneo da destruição do Templo de Salomão

A importância para o debate sobre Salomão:

A descoberta de um templo contemporâneo do Primeiro Templo, a poucos quilômetros de Jerusalém, com arquitetura e mobiliário religioso comparáveis, forneceu dois argumentos importantes:

  • 1. Argumento construtivo: Se comunidades secundárias de Judá podiam construir templos elaborados no período do Ferro, quanto mais a capital Jerusalém sob um rei como Salomão, com recursos de uma monarquia regional.
  • 2. Argumento de plausibilidade: Como Yosef Garfinkel e Madeleine Mumcuoglu argumentaram em seu estudo sobre o Templo de Motza e o de Salomão, a existência de um templo administrativo secundário confirma que havia um templo central na capital do qual ele dependia, exatamente como a Bíblia descreve.

14. Khirbet Qeiyafa: o modelo de santuário do século X a.C.

Khirbet Qeyafa - Rev. Fabiano Queiroz
Escavações arqueológicas de Khirbet Qeyafa

Um modelo em pedra que ilumina a arquitetura do Templo

Em Khirbet Qeiyafa sítio fortemente identificado com a cidade bíblica de Efes-Damim (1 Samuel 17.1), a 20 km a sudoeste de Jerusalém o arqueólogo Yosef Garfinkel descobriu um modelo de santuário em pedra calcária datado do início do século X a.C. (c. 1000–975 a.C. pela datação por radiocarbono).

O modelo — uma miniatura tridimensional de um santuário apresenta elementos arquitetônicos que aparecem na descrição bíblica do Templo de Salomão:

  • Duas colunas na entrada (precursoras das colunas Jaquim e Boaz)
  • Portais com vergas triplas (comparáveis ao texto de 1 Reis 6.33)
  • Decoração de pombas na fachada
  • Teto de vigas entalhadas

O significado é preciso: o modelo demonstra que o estilo arquitetônico descrito em 1 Reis 6 já existia em Judá no início do século X a.C. refutando a hipótese de que essa descrição seria invenção de escribas do século VII ou posterior.


15. As portas de seis câmaras: Megido, Hazor e Gezer

A evidência arqueológica mais debatida

1 Reis 9.15 menciona que Salomão construiu as cidades de Megido, Hazor e Gezer. Escavações revelaram em todos os três sítios portões monumentais com seis câmaras (três de cada lado do corredor de entrada) — estruturalmente muito semelhantes entre si.

A similaridade foi por décadas considerada confirmação arqueológica direta do programa construtivo salomônico: o mesmo arquiteto (ou a mesma escola) havia projetado os três portões. William Dever e outros arqueólogos dataram esses portões ao século X a.C. o período de Salomão.

Israel Finkelstein contestou essa datação, argumentando que os portões pertencem ao século IX a.C. (período omrida). Se Finkelstein estivesse correto, a ligação entre os portões e Salomão seria quebrada.

O estado atual da disputa:

Em novembro de 2023, um estudo de datação por carbono-14 das sementes encontradas no nível associado ao portão de Gezer foi publicado com resultados que voltaram a confirmar o século X a.C. como data de construção. O estudo foi conduzido por pesquisadores do Tandy Institute for Archaeology e publicado no Bulletin of the American Schools of Oriental Research.

O argumento de Amihai Mazar de que tanto Salomão quanto Omri/Ahab usavam artesãos fenícios, explicando as similaridades entre construções do século X e do IX permanece uma das respostas mais plausíveis ao desafio de Finkelstein.


16. O debate da cronologia: Finkelstein vs. Mazar e Dever

O núcleo acadêmico do desacordo

QuestãoFinkelstein (Baixa Cronologia)Mazar/Dever (Alta Cronologia)
O Ferro IIA começa em:c. 920 a.C.c. 1000 a.C.
As portas de 6 câmaras datam de:Século IX a.C. (Omridas)Século X a.C. (Salomão)
Salomão era:Pequeno chefe tribal regionalRei de monarquia regional significativa
O Templo de Salomão era:Incerto; possivelmente existiu, mas menorReal e conforme a descrição bíblica em essenciais
A narrativa bíblica sobre Salomão foi escrita em:Século VII a.C. como propaganda de JosiasPróximo dos eventos, com edição posterior

O consenso atual (2024–2025):

A posição de Finkelstein, embora influente e metodologicamente rigorosa, tem perdido terreno desde as descobertas de Khirbet Qeiyafa, Tel Motza e a nova datação de Gezer. A maioria dos arqueólogos israelenses e americanos que trabalham no campo agora aceita uma cronologia mais próxima à “alta cronologia” de Mazar. O próprio Finkelstein moderou algumas de suas posições mais extremas ao longo dos anos.


17. A destruição em 586 a.C.: o testemunho bíblico e arqueológico

O fim do Primeiro Templo

2 Reis 25.8-17 e Jeremias 52.12-23 narram a destruição do Templo de Salomão pelo general babilônico Nabuzaradã, a serviço do rei Nabucodonosor II, em agosto de 586 a.C.:

“E queimou a casa do Senhor, e a casa do rei; e todas as casas de Jerusalém, e todas as casas dos grandes, queimou ao fogo.” — 2 Reis 25.9 (ACF)

Os objetos de bronze, as colunas Jaquim e Boaz, o Mar de Bronze, os suportes, foram destruídos ou levados para a Babilônia. A Arca da Aliança não é mencionada entre os objetos levados, desapareceu da narrativa bíblica com a destruição, dando origem a séculos de especulação sobre seu destino.

A confirmação arqueológica da destruição:

A Crônica Babilônica de Nabucodonosor (Museu Britânico, tablet BM 21946) registra as campanhas de Nabucodonosor contra Jerusalém, confirmando os eventos de 597 e 586 a.C. As escavações em Laquis (principal cidade de Judá destruída antes de Jerusalém) revelaram camadas de destruição por fogo datadas ao mesmo período. As Cartas de Laquis, óstracos com textos escritos durante o cerco babilônico, confirmam o estado de colapso das defesas judaítas.

Escavações na Cidade de Davi, abaixo e ao sul do Monte do Templo, revelaram camadas de destruição extensas com cerâmica queimada, pontas de flecha babilônicas e estruturas carbonizadas consistentes com o incêndio de 586 a.C.


18. O Segundo Templo: continuidade e diferença

O que foi mantido e o que mudou

O Segundo Templo foi construído pelos retornados do exílio babilônico sob a liderança de Zorobabel e Josué, concluído em 516 a.C. 70 anos após a destruição do Primeiro (cumprimento da profecia de Jeremias 25.11-12 sobre o exílio de 70 anos).

O que o Segundo Templo não tinha:

  • A Arca da Aliança — desaparecida. O Santo dos Santos do Segundo Templo estava vazio
  • O fogo divino original que havia descido sobre o altar (2 Crônicas 7.1)
  • A Shekhiná — a nuvem de glória que havia preenchido o Primeiro Templo
  • Os Urim e Tumim — os instrumentos de consulta oracular
  • O óleo da unção original

A tradição rabínica (Talmude, tratado Yoma 21b) identificou cinco coisas que o Primeiro Templo tinha e o Segundo não: a Arca, o fogo divino, a Shekhiná, o Espírito Santo e os Urim e Tumim.

Saiba mais: Sobre o retorno do exílio na biografia de Esdras e Neemias.

O que o Segundo Templo recebeu em sua grandiosidade final:

Herodes o Grande, a partir de c. 20 a.C., realizou a maior reforma construtiva da história do Templo. O recinto expandiu de c. 144.000 m² para 280.000 m² construído sobre plataformas de contenção monumentais cujas pedras individuais chegavam a 400–600 toneladas (as maiores pedras de construção utilizadas na antiguidade). O Muro Ocidental (Kotel) que sobrevive hoje é parte dessas plataformas herodianas, não do Templo de Salomão em si.


19. A teologia do Templo no Antigo Testamento

A Doutrina da Igreja - Rev. Fabiano Queiroz
Teologia do Templo do Antigo Testamento

O que o Templo significa na teologia bíblica

A teologia do Templo de Salomão no AT tem dimensões múltiplas e interligadas:

1. O Templo como lugar de habitação divina:

O verbo hebraico central é shakan (שָׁכַן — habitar, estabelecer moradia) de onde vem Shekhiná. Deus habitou no Templo, não como confinamento, Salomão reconheceu que nem os céus O contêm, 1 Reis 8.27, mas como presença disponível: o povo sabia onde encontrar Deus.

2. O Templo como ponto de acesso ao perdão:

1 Reis 8.30-51 lista as situações em que Israel oraria “voltado para este lugar”pecado coletivo, derrota militar, seca, praga, exílio. O Templo era o ponto de mediação entre o pecado humano e o perdão divino, antecipando o papel expiatório que o NT atribui a Jesus Cristo.

3. O Templo como modelo do cosmos:

A estrutura progressivamente mais santa, pátio externo, lugar santo, Santo dos Santos que simbolizavam a progressão da criação até a presença mais imediata de Deus. O Santo dos Santos era o coração do cosmos, onde a ordem divina sustentava tudo.

4. O Templo como lugar de encontro entre o céu e a terra:

A oração de dedicação de Salomão (1 Reis 8) apresenta o Templo como o lugar onde as orações dos homens sobem e as respostas de Deus descem um eixo vertical de comunicação entre o humano e o divino.


20. O Templo de Salomão e Jesus Cristo: cumprimento e superação

A Doutrina do Plano da Redenção - Rev. Fabiano Queiroz
O Templo de Salomão e Cristo

O NT apresenta Jesus como o Templo definitivo

O Novo Testamento apresenta Jesus Cristo como cumprimento de tudo que o Templo de Salomão representava — e como sua superação:

  • João 2.19-21: Quando Jesus disse “Destruí este templo e em três dias o levantarei”, o evangelista explica: “Mas ele falava do templo do seu corpo”. Jesus é o Templo, o lugar onde Deus habita encarnado, onde o sacrifício expiatório é realizado, onde o acesso ao Pai é mediado.
  • João 1.14: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós”. O verbo grego eskēnōsen (ἐσκήνωσεν) é o equivalente do hebraico shakan Deus habitou/tabernaculou entre nós. A encarnação é a Shekhiná definitiva.
  • Hebreus 9–10: O sacerdócio levítico e o sistema de sacrifícios do Templo eram “sombra dos bens futuros” (Hebreus 10.1). Cristo é o sumo sacerdote que entrou “no Santo dos Santos celestial” (Hebreus 9.24) uma vez por todas, com Seu próprio sangue, tornando desnecessário o templo terreno.
  • Mateus 12.6: Jesus declarou explicitamente: “Aqui está quem é maior do que o templo”. afirmação de superação que os ouvintes entenderam como blasfêmia, dado o status sagrado do Templo.
  • Marcos 15.38 / Mateus 27.51: Quando Jesus morreu, “o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo.” O véu separava o Lugar Santo do Santo dos Santos, mantendo o povo separado da presença mais imediata de Deus. O rasgar do véu declarava que o sacrifício de Cristo havia removido essa separação definitivamente.

Saiba mais: O Messias no Antigo Testamento: Promessa e Identidade


21. O Templo e a Igreja: a tipologia no Novo Testamento

O Quarto Mandamento - O Dia do Senhor - Rev. Fabiano Queiroz
O Templo e a Igreja do Novo Testamento

Os cristãos como templo do Espírito

O NT estende a tipologia do Templo à comunidade cristã e ao crente individual:

  • 1 Coríntios 3.16: “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” — A Igreja como corporação é o novo templo, o lugar onde a Shekhiná habita na era pós-ressurreição.
  • 1 Coríntios 6.19: “Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós?” — O crente individualmente é templo, o Espírito habitando em cada um como havia habitado no Santo dos Santos.
  • Efésios 2.19-22: “Sois […] edifício […] que cresce para ser um templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito.” — A Igreja como Templo vivo em construção contínua, cada crente como pedra viva.
  • Apocalipse 21.22: “E nela [na Nova Jerusalém] não vi templo; porque o Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro são o seu templo”. O cumprimento definitivo: na Nova Criação, o Templo deixa de ser necessário porque a presença de Deus preenche toda a realidade. A “glória desta última casa” que Ageu havia prometido encontra sua conclusão quando Deus é “tudo em todos” (1 Coríntios 15.28).

22. FAQ – Perguntas frequentes sobre o Templo de Salomão

O Templo de Salomão realmente existiu?

A maioria dos estudiosos da teologia e, alguns arqueologos que não são necessariamente religiosos aceitam que existiu um templo significativo no Monte do Templo em Jerusalém durante o período do Ferro IIA (séculos X–VI a.C.). A impossibilidade de escavar diretamente o sítio impede confirmação arqueológica direta. Mas as evidências indiretas são substanciais: os paralelos arquitetônicos de Ain Dara (Síria) e Tell Tayinat (Turquia), o templo contemporâneo de Tel Motza (7 km de Jerusalém, descoberto em 2012), o modelo de santuário de Khirbet Qeiyafa (c. 1000–975 a.C.) e as camadas de destruição consistentes com 586 a.C. ao redor do Monte do Templo convergem para confirmar a historicidade do Primeiro Templo.

Onde ficava o Templo de Salomão?

O consenso esmagador entre estudiosos é que o Templo de Salomão ficava no Monte do Templo (Har HaBayit) em Jerusalém, o mesmo planalto onde hoje estão a Cúpula da Rocha e a Mesquita Al-Aqsa. A Bíblia identifica o local como Monte Moriá (2 Crônicas 3.1) o mesmo monte onde Abraão havia levado Isaque para o sacrifício (Gênesis 22.2). Há uma posição minoritária (proposta por alguns pesquisadores como Bob Cornuke) que sugere que o Templo ficava ao sul, próximo à Fonte de Giom, mas essa posição é rejeitada pela grande maioria dos arqueólogos.

Quais são os paralelos arqueológicos mais próximos do Templo de Salomão?

Os três paralelos mais próximos são: (1) o Templo de Ain Dara (norte da Síria, c. 1300–740 a.C.) identificado por John Monson como compartilhando mais de 30 elementos arquitetônicos com a descrição bíblica; (2) o Templo de Tell Tayinat (sul da Turquia, século IX–VIII a.C.) de dimensões quase idênticas ao de Salomão; e (3) o Templo de Tel Motza (7 km de Jerusalém, c. 900–600 a.C.) o único templo judaico contemporâneo do Primeiro Templo escavado em solo israelense.

Por que o Templo de Salomão não pode ser escavado?

O Monte do Templo é administrado pelo Waqf (autoridade religiosa islâmica) e abriga a Cúpula da Rocha e a Mesquita Al-Aqsa o terceiro e quarto lugares mais sagrados do Islã. Qualquer escavação arqueológica seria politicamente catastrófica. Escavações ao redor do Monte realizadas por Benjamin Mazar, Eilat Mazar e outros arqueólogos revelaram evidências do período do Primeiro Templo nos arredores, mas o planalto em si permanece inacessível.

O que aconteceu com a Arca da Aliança quando o Templo foi destruído?

A narrativa bíblica não registra o destino da Arca após a destruição do Templo em 586 a.C. simplesmente deixa de mencioná-la. As teorias incluem: foi destruída pelos babilônios; foi escondida por sacerdotes israelitas antes da invasão, a tradição de 2 Macabeus 2.4-8 diz que Jeremias a escondeu numa caverna no Monte Nebo; foi levada para a Etiópia, tradição da Igreja Ortodoxa Etíope, que afirma possuí-la em Axum. A opinião do autor deste artigo é que a Arca está soterrada por toneladas de areia abaixo da Cúpula da Rocha, na Mesquita Al-Aqsa. Nenhuma dessas teorias tem confirmação arqueológica até o momento.

Qual é a relação entre o Templo de Salomão e Jesus Cristo?

O NT apresenta Jesus como o cumprimento e a superação do Templo de Salomão: Jesus declarou ser Ele mesmo o novo Templo (João 2.19-21); a encarnação é descrita como a Shekhiná habitando entre os homens (João 1.14); o sacrifício de Cristo substituiu o sistema sacrificial do Templo (Hebreus 9–10); e o rasgar do véu no momento da morte de Jesus declarou que o acesso à presença de Deus estava aberto para todos (Marcos 15.38). Hebreus identifica o Templo de Salomão como “sombra dos bens futuros” prefiguração do ministério sacerdotal definitivo de Cristo.


23. Conclusão

O Templo de Salomão é, ao mesmo tempo, o edifício mais importante da história de Israel e o mais inacessível à pá do arqueólogo. Essa ironia, que o sítio mais buscado da arqueologia bíblica seja o que menos pode ser escavado, define os limites e os horizontes da pesquisa contemporânea.

O que sabemos é considerável: a arquitetura descrita em 1 Reis 6–7 é real, verificável por paralelos em toda a região sírio-palestinense do Ferro IIA; a tradição construtiva fenícia que a produziu é documentada em Ain Dara, Tell Tayinat e Tel Motza; a escala da construção é consistente com o que se conhece de monarquias regionais do período; e a destruição em 586 a.C. é confirmada por fontes independentes, babilônicas e arqueológicas.

O que permanece aberto é o debate sobre a grandeza exata do empreendimento salomônico, se o Salomão histórico correspondia plenamente ao grandioso rei descrito nas narrativas bíblicas, ou se havia amplificação retórica. Os últimos quinze anos de descobertas Khirbet Qeiyafa, Tel Motza, a nova datação de Gezer, moveram o consenso na direção de maior credibilidade histórica para a narrativa bíblica.

Mas o que a Teologia do Templo revela transcende o arqueológico: a Bíblia descreve um Deus que quer habitar com Seu povo, que se faz acessível no lugar de encontro que Ele mesmo designou, e que cumpre essa habitação definitivamente na encarnação de Jesus Cristo, o Templo vivo que nem Nabucodonosor nem Roma puderam destruir permanentemente.

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós.” — João 1.14

“A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o Senhor dos Exércitos.” — Ageu 2.9 (ACF)

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Referências e Indicação de Leitura

Fontes primárias

SOUZA, Fabiano Queiroz. 1 REIS: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.

SOUZA, Fabiano Queiroz. 2 CRÔNICAS: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.

SOUZA, Fabiano Queiroz. MATEUS: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.

SOUZA, Fabiano Queiroz. JOÃO: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.

SOUZA, Fabiano Queiroz. EFÉSIOS: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.

SOUZA, Fabiano Queiroz. 1 CORÍNTIOS: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.

SOUZA, Fabiano Queiroz. HEBREUS: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.

SOUZA, Fabiano Queiroz. APOCALIPSE: A Bíblia de Sermões do Pregador – Esboços de Pregação Expositiva e Estudos Bíblicos. Curitiba: OPulpito, 2025.

Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.

Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida, Edição Corrigida e Revisada Fiel (ACF). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS). Edited by Karl Elliger and Wilhelm Rudolph. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.

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