Conteúdo
- 1 Foedus Operum: a aliança de Adão, o princípio federal e a cristologia do segundo Adão
- 2 1. Definição e Delimitação do Termo
- 3 2. Análise Histórica
- 4 3. Análise Exegética
- 5 4. Análise Teológica Sistemática
- 6 5. Principais Posições Teológicas
- 7 6. Objeções Principais e Respostas
- 8 7. Conexão com o Decálogo e com a Série
- 9 8. FAQ – Perguntas Frequentes
- 10 9. Conclusão: A Aliança que Explica Tudo
- 11 10. Sobre o Autor
- 12 11. Referências
Foedus Operum: a aliança de Adão, o princípio federal e a cristologia do segundo Adão
1. Definição e Delimitação do Termo

1.1 O Que É o Pacto de Obras?
O Pacto de Obras (latim: Foedus Operum; também chamado de Foedus Naturae, Pacto da Natureza, ou Aliança das Obras) é a denominação técnica da teologia do pacto reformada para o arranjo constituído por Deus com Adão no Jardim do Éden, anterior à queda, pelo qual a obediência perfeita e contínua de Adão garantiria vida bendita e consumada, não apenas para ele, mas para toda a humanidade que ele representava, enquanto a desobediência acarretaria morte.
O termo não aparece com esta denominação explícita na Escritura, fato que é ele mesmo um ponto de debate teológico, como veremos. Contudo, a estrutura que ele descreve, uma relação formal entre Deus e Adão, com condições, promessa e sanção é, para os defensores da doutrina, claramente ensinada no texto de Gênesis 1–3 e confirmada pelo argumento paulino de Romanos 5 e 1 Coríntios 15.
1.2 Terminologia e Distinções
Os principais termos usados para esta doutrina, com suas ênfases específicas:
- Foedus Operum (Pacto de Obras): enfatiza que o princípio operativo é a obediência — a vida é obtida pelo cumprimento de obras requeridas. Termo preferido por Turretin, Owen e Westminster.
- Foedus Naturae (Pacto da Natureza): enfatiza que este pacto está inscrito na natureza humana criada e é a base da lei natural. Usado por alguns escolásticos protestantes.
- Foedus Vitae (Pacto da Vida): enfatiza a promessa associada ao cumprimento, a vida como destino escatológico do obediente. Preferido por John Murray.
- Arranjo Adâmico: terminologia mais descritiva e menos comprometida, usada por aqueles que aceitam a estrutura mas questionam o uso do termo “pacto”.
1.3 Distinção do Pacto de Graça
O Pacto de Obras é sistematicamente distinguido do Pacto de Graça, a aliança que Deus estabelece com o pecador após a queda, com base na graça e não na obediência humana. A distinção é estrutural:
- Pacto de Obras: condição é a obediência perfeita e pessoal de Adão; o princípio é mérito. A aliança é sinergista, pois exige resposta.
- Pacto de Graça: condição é a fé em Cristo; o princípio é graça, baseado na obediência perfeita de Cristo, não do crente. A aliança é monergista, pois só depende de Deus.
A distinção não implica que o Pacto de Graça seja incondicional no sentido de não exigir nada. A fé é a condição do Pacto de Graça, mas ela mesma é dom da graça de Deus, não obra do homem (Ef 2.8). O princípio estrutural é diferente: no Pacto de Obras, a vida depende da obediência do próprio Adão; no Pacto de Graça, depende da obediência de Cristo imputada ao crente.
2. Análise Histórica
2.1 Antecedentes Patrísticos
A doutrina do Pacto de Obras como sistema formal é uma contribuição da escolástica protestante do século XVI–XVII, mas suas raízes temáticas estão na patrística. Ireneu de Lyon (c. 130–202 d.C.) foi o primeiro a desenvolver explicitamente o contraste Adão-Cristo em termos de recapitulação (anakephalaiōsis): Cristo recapitula e corrige em si mesmo tudo o que Adão desfez. Embora Ireneu não use a linguagem de “pacto de obras”, sua estrutura é proto-federal.
Agostinho de Hipona (354–430 d.C.) aprofundou a doutrina da representação federal: a culpa e a corrupção de Adão são transmitidas à toda humanidade porque Adão era o representante da humanidade, posição que Paolo combate em Romanos 5 e que Agostinho desenvolve contra Pelágio. A lógica agostiniana, um representa todos, é o fundamento teológico do pacto de obras.
2.2 Desenvolvimento Medieval
Na Escolástica medieval, Anselmo de Cantuária (1033–1109) e depois Tomás de Aquino (1225–1274) desenvolveram a doutrina do status integritatis, o estado de integridade original de Adão, com suas capacidades naturais e sobrenaturais. Embora não usem a linguagem pactual, a ideia de que Adão tinha condições e podia merecer ou perder um destino específico é claramente presente. Duns Scotus (1266–1308) enfatizou a relação de justiça (iustitia) que governava Adão, novamente, uma estrutura proto-federal.
2.3 A Reforma e o Surgimento da Linguagem Pactual
Com a Reforma do século XVI, a teologia pactual emerge como categoria organizadora central. Heinrich Bullinger (1504–1575), sucessor de Zuínglio em Zurique, foi pioneiro na sistematização da teologia das alianças. Mas foi Zacharias Ursinus (1534–1583), co-autor do Catecismo de Heidelberg, quem articulou pela primeira vez a distinção formal entre um pacto pré-queda com Adão (baseado na natureza e nas obras) e um pacto pós-queda de graça.
Caspar Olevianus (1536–1587), Ursinus e outros reformadores do Palatinado desenvolveram a linguagem de foedus para descrever toda a relação de Deus com a humanidade, uma inovação hermenêutica que organizaria toda a teologia bíblica em torno da categoria de aliança. Johannes Cocceius (1603–1669) sistematizou esta abordagem em seu Summa Doctrinae de Foedere et Testamento Dei (1648), tornando o pacto de obras (foedus operum) uma categoria explícita e central.
2.4 A Confissão de Westminster (1647)
A Confissão de Westminster representa a codificação madura da doutrina do pacto de obras na tradição reformada. O Cap. VII.2 afirma:
| “O primeiro pacto feito com o homem foi um pacto de obras, no qual a vida foi prometida a Adão, e nele à sua posteridade, sob a condição de obediência perfeita e pessoal.” Confissão de Westminster, Cap. VII.2 |
Esta formulação estabeleceu o pacto de obras como posição confessional da tradição presbiteriana e reformada, embora com a ressalva de que nem todas as igrejas que adotam Westminster tenham interpretado o Cap. VII.2 de forma idêntica em todos os seus detalhes.
2.5 Desenvolvimento Pós-Westminster: Vos, Murray e Kline
O século XX viu um debate interno significativo dentro da tradição reformada sobre o pacto de obras. Geerhardus Vos (1862–1949) confirmou a doutrina enquanto a enriquecia com perspectiva escatológica: o pacto de obras tinha um horizonte escatológico, Adão não estava apenas sendo testado para permanecer no Éden, mas para avançar para um estado escatológico glorioso. A obediência de Adão teria produzido não apenas a permanência no status quo, mas a consumação da criação.
John Murray (1898–1975) causou controvérsia ao preferir o termo “aliança da vida” em vez de “pacto de obras”, argumentando que o termo “pacto” exige reciprocidade formal que não aparece explicitamente em Gênesis 1–3. Murray aceitava a estrutura teológica mas questionava a terminologia. Meredith Kline (1922–2007) respondeu a Murray demonstrando que a estrutura pactual de Gênesis 1–2 é evidente mesmo sem a palavra berit, os elementos constitutivos de um pacto (partes, condição, sanção, promessa) estão todos presentes.
3. Análise Exegética
3.1 Gênesis 2.16–17: O Texto Fundacional
| “E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Gênesis 2.16–17 |
Este texto contém todos os elementos estruturais de um arranjo pactual:
- Suzerano: YHWH Elohim — o Deus que ordena com autoridade.
- Vassalo: Adão — o representante da humanidade.
- Estipulação: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.
- Sanção negativa (maldição): “certamente morrerás” — morte como consequência da desobediência.
- Implicação positiva (bênção): acesso livre a todas as outras árvores, inclusive a da vida (Gn 2.9; 3.22) — vida plena como promessa implícita da obediência.
A expressão hebraica moth tamuth, literalmente “morrendo morrerás”, um infinitivo absoluto que intensifica a certeza da sanção, indica que a ameaça era absolutamente séria. A estrutura é inequivocamente condicional: a vida depende da obediência.
3.2 Oséias 6.7: A Chave Veterotestamentária
| “Mas eles, como Adão, transgrediram o pacto; ali me foram infiéis.” Oséias 6.7 |
Este texto é o mais explícito suporte veterotestamentário para o pacto de obras. A expressão ke-adam — “como Adão”, é interpretada pelos defensores do pacto de obras como referência a Adão (não à cidade de Adão, interpretação alternativa) que transgredia um pacto, o que pressupõe que havia um pacto para ser transgredido. A comparação é estrutural: assim como Israel transgrediu o pacto do Sinai, Adão transgrediu o seu próprio pacto com Deus.
A alternativa textual — ler ke-adam como “como homens” (referência genérica) ou como a cidade de Adão (Js 3.16), é exegeticamente menos convincente no contexto de Oséias 6, onde a referência ao início da história de Israel e à transgressão pactual é o tema central do versículo.
3.3 Romanos 5.12–21: O Argumento Paulino Central
| “Portanto, assim como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte… como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só muitos serão constituídos justos.” Romanos 5.12, 18–19 |
Romanos 5.12–21 é o texto paulino mais importante para o pacto de obras. Paulo contrasta dois representantes federais: Adão (cujo pecado e desobediência trazem condenação a todos) e Cristo (cuja justiça e obediência trazem justificação a todos que nele estão). A lógica da representação federal é explícita: a condição de todos depende do ato do representante.
A palavra grega kathistēmi — “constituídos” (pecadores / justos), é termo jurídico/forense que indica uma declaração legal, não uma mudança moral gradual. Todos são declarados pecadores pela representação de Adão; todos os que estão em Cristo são declarados justos pela representação de Cristo. O paralelo estrutural pressupõe que Adão estava numa relação federal representativa com a humanidade, que é precisamente o que o pacto de obras afirma.
3.4 1 Coríntios 15.45–49: Os Dois Adões
| “Assim também está escrito: O primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão, espírito vivificante… O primeiro homem é da terra, terreno; o segundo homem é do céu.” 1 Coríntios 15.45, 47 |
Paulo usa explicitamente a tipologia Adão-Cristo: o “primeiro Adão” e o “último Adão”. Esta tipologia pressupõe que Adão tinha um papel e uma função que Cristo recapitulou e superou. O que o primeiro Adão falhou em realizar (a vida glorificada, o corpo espiritual, a imagem celestial), o último Adão conquistou. Esta estrutura confirma que Adão estava numa administração específica com um objetivo específico, que é o que o pacto de obras descreve.
4. Análise Teológica Sistemática
4.1 O Princípio de Representação Federal
O coração do pacto de obras é o princípio de representação federal (do latim foederis, aliança): Deus tratou com toda a humanidade através de seu cabeça representativo, Adão. A ação de Adão foi a ação de todos os seus descendentes, não porque eles tenham individualmente pecado em Adão (interpretação realista de Agostinho), mas porque Adão os representava federalmente (interpretação federal).
Este princípio é a fundação da soteriologia reformada: assim como a desobediência de Adão é imputada a todos os que ele representava, a obediência de Cristo é imputada a todos os que ele representa. A justificação pela fé não seria possível sem esta estrutura federal: para que a obediência de Cristo me seja imputada, deve haver um mecanismo de representação, e o pacto de obras explica por que Deus pode tratar com a humanidade através de representantes federais.
4.2 O Horizonte Escatológico de Vos
A contribuição mais original de Geerhardus Vos ao pacto de obras é sua leitura escatológica. G. Vos argumentou que o Éden não era o estado final, era o estado inicial, destinado a progredir para algo superior. A obediência de Adão não apenas teria preservado o status quo edênico; teria conquistado o estado escatológico glorioso que a queda interrompeu.
Evidências textuais para esta perspectiva:
- A árvore da vida (Gn 2.9; 3.22) aponta para uma vida qualitativa superior à existência presente, uma vida imortal e glorificada que seria o resultado da obediência consumada.
- O sábado criacional (Gn 2.2–3) aponta para um repouso escatológico final, o destino da criação obediente.
- A correspondência em 1Co 15.45–49 entre o “terreno” e o “celestial” revela que havia um destino celestial que Cristo conquistou e que Adão teria conquistado se tivesse obedecido.
| “O Pacto de Obras não era apenas sobre não comer o fruto proibido. Era sobre Adão como vice-regente da criação, avançando em fidelidade e serviço até o repouso escatológico de Deus. A queda não apenas destruiu o que havia, interrompeu o que deveria ser.” — Geerhardus Vos, Biblical Theology |
4.3 A Obediência Ativa de Cristo
A doutrina do pacto de obras é inseparável da doutrina da obediência ativa de Cristo, a afirmação de que Cristo não apenas morreu para pagar a penalidade do pecado (obediência passiva), mas também viveu uma vida de perfeita obediência à lei de Deus em nosso lugar (obediência ativa), conquistando a justiça positiva que o pacto de obras exigia.
Sem o pacto de obras, a obediência ativa de Cristo como base da justificação perde seu fundamento sistemático. Se Adão não estava sob um pacto de obras que exigia obediência perfeita para vida, não fica claro por que Cristo precisaria de uma vida de obediência perfeita, a morte expiatória pareceria suficiente. O pacto de obras revela que o problema não era apenas o pecado a ser punido, mas a justiça positiva a ser conquistada, e que Cristo a conquistou em nossa substituição.
5. Principais Posições Teológicas
A tabela a seguir sintetiza as posições das principais tradições e teólogos sobre o pacto de obras, sua base textual e suas implicações cristológicas:
| Tradição / Teólogo | Posição sobre o Pacto de Obras | Base Textual Central | Implicação para a Cristologia |
| Teologia do Pacto Clássica (Westminster, Turretin, Owen) | Pacto de obras real e explícito: Adão sob lei com promessa de vida e ameaça de morte; descontinuado pela queda | Gn 2.16–17; Os 6.7; Rm 5.12–21; 1Co 15.45–49 | Cristo como segundo Adão cumpre o pacto de obras que Adão violou; sua obediência ativa é a base da justificação |
| Geerhardus Vos (Teologia Bíblica Reformada) | Confirma o pacto de obras; enfatiza seu caráter escatológico — a obediência de Adão levaria à vida consumada, não apenas à permanência no Éden | Gn 1–2; Rm 5; 1Co 15; Hb 2 | A escatologia governa a protologia: Cristo alcança o que Adão deveria ter alcançado — a consumação gloriosa |
| Meredith Kline (Teologia Bíblica Reformada) | Pacto de obras com ênfase na estrutura de obras/mérito; paralelo com os tratados suzeranos hititas; adão como suserano da criação sob YHWH | Gn 1–2; Êx 20 (estrutura paralela) | A aliança sinaítica reproduz elementos da aliança de obras em escala nacional; Cristo como o servo obediente |
| John Murray (Reforma Conservadora) | Rejeita o termo “pacto de obras” por não aparecer explicitamente na Escritura; prefere “aliança da vida” ou “arranjo adâmico”; aceita a estrutura teológica | Gn 2.16–17; Rm 5 | Cristo como segundo Adão é mantido; a obediência ativa de Cristo é a base da justificação |
| Karl Barth (Neo-Ortodoxia) | Rejeita o pacto de obras como construção escolástica; toda a história começa com a aliança da graça em Cristo; o pecado de Adão é secundário | Efésios 1 como texto fundante | A eleição eterna em Cristo é a única aliança; a distinção obras/graça é rejeitada |
| Dispensacionalismo (Scofield, Ryrie) | A dispensação da inocência (Éden) é uma fase administrativa distinta, não um pacto formal de obras no sentido teológico-federal | Gn 1–3 | Cristo não cumpre o pacto de obras adâmico; sua obra é a inauguração de uma nova dispensação |
| Teologia do Novo Pacto (Wellum, Gentry) | Há uma administração adâmica com estrutura de obras, mas o termo “pacto” não está explicitamente no texto; preferem “administração real” | Gn 1–3; Os 6.7 | Cristo como segundo Adão é mantido; cumprimento tipológico do papel de Adão como rei-sacerdote |
5.1 Os Principais Defensores Históricos
- Zacharias Ursinus (1534–1583): primeiro a articular explicitamente a distinção pacto de obras / pacto de graça.
- Johannes Cocceius (1603–1669): sistematizou a teologia federal com o foedus operum como categoria central.
- Francis Turretin (1623–1687): defesa escolástica mais rigorosa do pacto de obras em sua Institutio Theologiae Elencticae.
- John Owen (1616–1683): defesa puritana inglesa; integrou o pacto de obras com a cristologia e a soteriologia.
- Herman Witsius (1636–1708): obra clássica de economia das alianças com tratamento detalhado do pacto de obras.
- Geerhardus Vos (1862–1949): reconfigurou o pacto de obras com perspectiva escatológica e histórico-redentora.
- Meredith Kline (1922–2007): integrou arqueologia do Oriente Próximo (tratados hititas) com a estrutura do pacto de obras.
6. Objeções Principais e Respostas
6.1 Objeção: “A palavra berit não aparece em Gênesis 1–2”
A objeção mais comum ao pacto de obras é exegética: a palavra hebraica berit (pacto/aliança) não aparece em Gênesis 1–2, tornando a designação “pacto” uma imposição sistemática sobre o texto. John Murray é o crítico mais sofisticado dentro da tradição reformada que levantou esta objeção.
A resposta reformada (Kline, Robertson, Vos) é que a presença de todos os elementos constitutivos de um pacto não requer a palavra berit. Os tratados suzeranos hititas do segundo milênio a.C. — estruturalmente paralelos aos pactos bíblicos, nem sempre usam um único termo técnico. O que define um pacto não é a palavra, mas a estrutura: partes identificadas, condições estabelecidas, promessas vinculadas, sanções determinadas. Gênesis 2.16–17 contém todos estes elementos. Além disso, Oséias 6.7 usa explicitamente a palavra berit em referência à transgressão de Adão.
6.2 Objeção: “Transforma a relação com Deus em transação mercantil”
Alguns críticos (incluindo alguns teólogos reformados contemporâneos) argumentam que o pacto de obras implica uma relação de comércio ou negócio entre Deus e Adão — Adão “ganha” a vida pela obediência, como um trabalhador ganha seu salário. Isso pareceria incompatível com a graça que caracteriza toda a relação de Deus com sua criatura.
A resposta é que o pacto de obras não implica que Adão merecia a vida no sentido de uma dívida que Deus teria para com ele. A vida prometida era um dom gracioso de Deus, mas vinculado à condição de obediência. Como Turretin observou, o mérito no pacto de obras é mérito pactual (baseado no acordo estabelecido por Deus), não mérito condígno (baseado na dignidade intrínseca da obra). Deus gratuitamente estabeleceu que a obediência seria recompensada com a vida, não porque estivesse obrigado, mas porque assim o quis.
6.3 Objeção: “O Espírito é dado apenas após a queda, não antes”
Alguns argumentam que Adão no Éden não tinha o Espírito Santo, sendo governado apenas pela lei natural, e que portanto não havia uma relação de aliança genuína, apenas uma relação criacional. A resposta reformada é que Gênesis 1.2 já menciona o Espírito de Deus sobre a criação, e que a imagem de Deus em Adão incluía a habitação do Espírito que tornava possível a obediência. O Espírito não é exclusividade da nova aliança, mas o modo de sua operação na nova aliança é diferente (Jr 31.33; Ez 36.27).
7. Conexão com o Decálogo e com a Série
O pacto de obras é o fundamento hermenêutico que dá ao Decálogo sua profundidade soteriológica. Compreender que havia um pacto de obras com Adão, pelo qual obediência perfeita era requerida, explica por que o Decálogo condena: ele revela o padrão de obediência que o pacto de obras exigia e que nenhum descendente de Adão pode cumprir. O Decálogo, pregado pelo segundo uso, é o espelho do pacto de obras violado.
E compreender o pacto de obras explica por que a obediência ativa de Cristo é necessária para a justificação: Cristo cumpriu o pacto de obras que Adão violou. Sua obediência perfeita à lei, ao Decálogo e a toda a lei de Deus, é a justiça que é imputada ao crente pela fé. O Decálogo que condena o pecador é o mesmo Decálogo que Cristo cumpriu em seu lugar.
| “O pacto de obras é o chão sobre o qual o Decálogo pisa. Sem ele, a lei é arbitrária. Com ele, a lei revela o padrão eterno de obediência que o Criador estabeleceu para sua criatura, e que o Redentor cumpriu em nosso lugar.” — Heber Carlos de Campos Pai |
8. FAQ – Perguntas Frequentes
O pacto de obras ainda existe hoje?
Não como via de salvação, a queda de Adão invalidou o pacto de obras como caminho para a vida, pois nenhum descendente de Adão pode cumprir a condição de obediência perfeita. Contudo, a lei subjacente ao pacto de obras, a lei moral expressa no Decálogo, permanece válida como revelação do caráter de Deus e como padrão de vida para os remidos. O pacto de obras como sistema de mérito terminou na queda; o conteúdo ético da lei que ele pressupunha permanece.
Crianças que morrem na infância são condenadas pelo pacto de obras?
A Confissão de Westminster (X.3) afirma que “crianças eleitas que morrem na infância são regeneradas e salvas pelo Cristo, pelo Espírito”. A imputação da culpa de Adão não condena automaticamente toda criança, a graça de Deus opera soberanamente. A tradição reformada confia as crianças que morrem à misericórdia de Deus, especialmente as crianças de pais crentes que foram batizadas no sinal da aliança.
Como o pacto de obras se relaciona com a lei natural?
O conteúdo do pacto de obras, a lei moral que Adão devia obedecer, é a mesma lei que Deus inscreveu na consciência humana e que é parcialmente conhecida pela razão como lei natural (Rm 2.14–15). O Decálogo não criou esta lei; a codificou e clarificou. Portanto, o pacto de obras é universal em seu conteúdo normativo, todos os seres humanos são responsáveis por ele, mesmo sem ter recebido a revelação especial, porque todos foram representados por Adão e todos têm a lei inscrita no coração.
9. Conclusão: A Aliança que Explica Tudo
O Pacto de Obras é a pedra angular da estrutura teológica que explica simultaneamente a condenação universal da humanidade (todos representados por Adão violador do pacto) e a justificação do crente (representado pelo Cristo que cumpriu o pacto). Sem ele, a imputação do pecado de Adão torna-se injusta e a imputação da justiça de Cristo torna-se arbitrária.
Mais do que uma construção escolástica, o pacto de obras é uma leitura cuidadosa da estrutura que Deus estabeleceu em Gênesis 1–2, confirmada por Paulo em Romanos 5 e 1 Coríntios 15. É a doutrina que revela que Deus sempre tratou com a humanidade através de representantes, que a história é governada por cabeças federais, e que a esperança da humanidade está no único Representante que não falhou: o último Adão, Jesus Cristo.
| “No primeiro Adão, todos morreram. No último Adão, todos os que nele estão, viverão. O Pacto de Obras é a tragédia do primeiro capítulo; a obediência de Cristo é o triunfo do último. E toda a história entre estes dois capítulos é a história da graça de Deus que resgata o que o pecado de Adão destruiu.” — Heber Carlos de Campos Filho |
10. Sobre o Autor
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11. Referências
Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.
- VOS, Geerhardus. Biblical Theology: Old and New Testaments. Grand Rapids: Eerdmans, 1948.
- TURRETIN, Francis. Institutes of Elenctic Theology. Vol. 1. Phillipsburg: P&R Publishing, 1992. [Tópico VIII]
- WITSIUS, Herman. The Economy of the Covenants Between God and Man. 2 vols. Phillipsburg: P&R Publishing, 1990.
- MURRAY, John. The Covenant of Grace. London: Tyndale Press, 1954.
- KLINE, Meredith G. Kingdom Prologue: Genesis Foundations for a Covenantal Worldview. Overland Park: Two Age Press, 2000.
- ROBERTSON, O. Palmer. The Christ of the Covenants. Phillipsburg: P&R Publishing, 1980.
- HORTON, Michael. God of Promise: Introducing Covenant Theology. Grand Rapids: Baker Books, 2006.
- GENTRY, Peter J.; WELLUM, Stephen J. Kingdom through Covenant. Wheaton: Crossway, 2012.
- CAMPOS, Heber Carlos de (Pai). Pregação Expositiva. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
- Confissão de Westminster (1647). Cap. VII: Do Pacto de Deus com o Homem.
- FESKO, J.V. Adam and the Covenant of Works. Fearn: Mentor, 2017.
- MCCORMACK, Bruce. Orthodox and Modern: Studies in the Theology of Karl Barth. Grand Rapids: Baker Academic, 2008.
