Conteúdo
- 1 Sétimo Mandamento: Não Adulterarás – Sexualidade, casamento como aliança e a ética sexual cristã no século XXI
- 2 1. Introdução: O Mandamento Mais Confrontador na Cultura Atual
- 3 2. Exegese do Texto Bíblico
- 4 3. O Fundamento: O Casamento como Ordem Criacional
- 5 4. O Que o Sétimo Mandamento Proíbe
- 6 5. O Que o Sétimo Mandamento Requer Positivamente
- 7 6. O Sétimo Mandamento e a Cultura Contemporânea
- 8 7. FAQ – Perguntas Frequentes
- 9 8. Conclusão: O Mandamento que Protege o Amor
- 10 Sobre o Autor
- 11 Referências
Sétimo Mandamento: Não Adulterarás – Sexualidade, casamento como aliança e a ética sexual cristã no século XXI

| “Não adulterarás.” Êxodo 20.14 |
| “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura já adulterou com ela no seu coração.” Mateus 5.27–28 |
| “Honroso seja entre todos o casamento e o leito sem mácula; mas os impuros e adúlteros Deus os julgará.” Hebreus 13.4 |
1. Introdução: O Mandamento Mais Confrontador na Cultura Atual
O sétimo mandamento é, no século XXI, o mais diretamente confrontador com os valores da cultura contemporânea. Numa era que a autonomia sexual se tornou um absoluto, relativizou a fidelidade conjugal, redefiniu o casamento e celebrou a diversidade de expressão sexual como direito fundamental, a declaração bíblica de que a sexualidade tem uma ordem criada, e que desviar-se dela é pecado, é profundamente contracultural.
Mas a posição reformada não parte da proibição ou da visão cultural de certo e errado, parte da revelação divina. A sexualidade humana é criação de Deus, declarada muito boa (Gn 1.31), celebrada em toda sua riqueza no Cântico dos Cânticos, e destinada a uma expressão específica: a aliança do casamento entre um homem e uma mulher. O sétimo mandamento não é uma lei de repressão, é a proteção daquilo que Deus criou como bênção.
| “O sétimo mandamento não é hostil ao sexo — é um defensor apaixonado do sexo. Ele protege a sexualidade humana da banalização, da exploração e da fragmentação, guardando-a no único contexto onde pode florescer plenamente: a aliança fiel do casamento.” — Heber Carlos de Campos Pai |
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2. Exegese do Texto Bíblico
2.1 O Verbo Naaf — Adulterar
O verbo hebraico naaf (נָאַף) — adulterar — refere-se especificamente à relação sexual de uma pessoa casada com alguém que não é seu cônjuge. De acordo com Jesus no Novo Testamento isso pode acontecer havendo aproximação física ou aproximação mental, psicológica. No contexto legal do AT, o adultério envolvia uma mulher casada (ou uma noiva, Dt 22.23–24) e qualquer homem; a penalidade era a morte para ambos (Lv 20.10). A gravidade da sanção reflete o quanto a aliança matrimonial era levada a sério como reflexo da aliança de YHWH com Israel.
A metáfora profética do adultério como símbolo da infidelidade de Israel a YHWH (Os 1–3; Jr 3; Ez 16; 23) aprofunda o significado do sétimo mandamento: o casamento não é apenas um contrato social, é uma aliança sacra que reflete o relacionamento de Deus com seu povo. Adulterar é quebrar esta imagem, pois casamento é pacto.
2.2 Jesus e a Extensão ao Coração
Em Mateus 5.27–28, Jesus estende o sétimo mandamento do ato externo para a atitude interna: o olhar lascivo é adultério do coração, no campo mental. O verbo grego epithymeō — “cobiçar”, “desejar ardentemente”, é o mesmo usado na LXX para o décimo mandamento sobre a cobiça. Jesus conecta explicitamente o sétimo e o décimo mandamentos: a impureza sexual começa no desejo interior antes de manifestar-se no ato externo.
Esta extensão não equipara o olhar lascivo ao adultério em termos de consequências externas, Jesus não está redefinindo o direito penal. Ele está revelando que o sétimo mandamento, como todos os outros, alcança o coração. A pureza que o mandamento requer não é apenas comportamental, é de intenção, desejo e imaginação.
Leia mais: Os Dez Mandamentos: Origem, Significado Teológico e Relevância para a Vida Cristã
3. O Fundamento: O Casamento como Ordem Criacional
3.1 Gênesis 1–2: O Design Original
O fundamento do sétimo mandamento não está na lei mosaica, está na criação. Gênesis 2.24 estabelece o padrão do casamento:
| “Por isso, deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá a sua mulher, e serão os dois uma só carne.” Gênesis 2.24 |
Três elementos definem o casamento criacional: deixar (ruptura com a família de origem, nova lealdade primária), unir-se (comprometimento pactual permanente) e uma só carne (consumação física e integração total de vida). Jesus cita este texto em Mateus 19.4–6 para fundamentar a permanência do casamento e a proibição do divórcio ilegítimo, demonstrando que o casamento criacional é a norma para toda a humanidade, não apenas para Israel.
3.2 O Casamento como Imagem da Aliança Divina
Efésios 5.22–33 revela a dimensão mais profunda do casamento: ele é uma imagem (mysterion — mistério, sacramento) da relação de Cristo com a Igreja. O marido reflete o amor sacrificial de Cristo; a esposa reflete a submissão confiante da Igreja. Esta analogia eleva o casamento a uma dignidade quase sacramental e torna a infidelidade conjugal não apenas uma traição pessoal, mas uma distorção da imagem do Evangelho.
G. Vos destaca que esta conexão entre casamento humano e aliança divina é o fundamento último da ética sexual reformada: a sexualidade não é uma área da vida que pertence apenas ao indivíduo, ela carrega uma significação teológica que transcende o casal. Por isso sua proteção é mandamento divino. Deste ponto de vista, tudo o que aponta para Cristo e a Igreja devem ser protegidos.
4. O Que o Sétimo Mandamento Proíbe
O Catecismo Maior de Westminster (P. 139) oferece uma das listas mais abrangentes das violações do sétimo mandamento. A tabela a seguir sistematiza as principais:
| Violação | Definição | Por Que Viola o 7º Mandamento | Textos Bíblicos |
| Adultério | Relação sexual entre pessoa casada e alguém que não seu cônjuge | Violação direta; destruição da aliança matrimonial | Êx 20.14; Mt 5.27–32; 1Co 6.18 |
| Fornicação | Relação sexual entre solteiros | Violação do ideal bíblico de sexo dentro do casamento | 1Co 6.18–20; 1Ts 4.3–5 |
| Pornografia | Consumo de material sexualmente explícito | Adultério do coração (Mt 5.28); instrumentalização de pessoas | Mt 5.28; Jó 31.1 |
| Homossexualidade | Prática sexual entre pessoas do mesmo sexo | Violação da ordem criacional do casamento (Gn 1–2; Rm 1.26–27) | Lv 18.22; Rm 1.26–27; 1Co 6.9–10 |
| Luxúria / Olhar lascivo | Desejo sexual direcionado a alguém que não o cônjuge | Adultério do coração — violação interna do 7º mandamento | Mt 5.28; Jó 31.1 |
| Divórcio ilegítimo | Dissolução do casamento por razões não bíblicas | Violação da aliança matrimonial; consequências para cônjuge e filhos | Mt 5.31–32; 19.3–9; Ml 2.16 |
| Incesto | Relação sexual entre parentes próximos | Violação das barreiras relacionais criadas por Deus | Lv 18.6–18; 1Co 5.1–5 |
| Prostituição | Troca de sexo por benefícios | Comercialização do que Deus criou para aliança de amor e fidelidade | Pv 6.26; 1Co 6.15–16 |
4.1 Adultério: A Violação Central
O adultério é a violação mais direta do sétimo mandamento: a relação sexual que quebra a aliança do casamento. Suas consequências, destruição da confiança, trauma dos filhos, dilaceramento da família, revelam por que Deus o proibiu. O casamento foi criado para ser o contexto de segurança, fidelidade e amor que permite o florescimento pleno da sexualidade humana. O adultério destrói este contexto.
4.2 Pornografia: O Adultério Digital
A pornografia é a violação mais disseminada do sétimo mandamento na era digital. Jesus estabeleceu que o olhar lascivo é adultério do coração (Mt 5.28). Jó 31.1 — “Fiz aliança com meus olhos; como, pois, havia eu de pensar em virgem?”, revela que a guarda dos olhos é uma disciplina deliberada, não passiva. A pornografia viola o sétimo mandamento de múltiplas formas: é adultério do coração para o usuário; é exploração dos atores; e é uma distorção profunda da sexualidade que a torna mercadoria e espetáculo em vez de pacto.
4.3 A Questão da Homossexualidade
A posição reformada sobre a homossexualidade é determinada pela teologia da ordem criacional. Gênesis 1–2 estabelece o casamento como a união de homem e mulher, não como uma preferência cultural, mas como o design criacional de Deus. Romanos 1.26–27 descreve as relações homossexuais como uma inversão da ordem natural, consequência da supressão da verdade sobre Deus, não somente isso, mas que a prática homossexual é a prova de que Deus abandonou os que tais atos praticam e, a prática do homossexualismo, é o resultado do abandono divino e não sua causa. 1 Coríntios 6.9–10 inclui o comportamento homossexual na lista de práticas que excluem do reino.
A posição reformada distingue, contudo, entre atração e prática: a atração homossexual, como toda tentação, não é em si pecado, mas dar livre curso mental ou física é; Portanto, a prática sexual homossexual viola o sétimo mandamento. A Igreja é chamada a acolher com compaixão aqueles que lutam com esta tentação, oferecendo comunidade, cuidado pastoral e a esperança da santificação, sem aprovar a prática ou redefinir o casamento.
5. O Que o Sétimo Mandamento Requer Positivamente
O Catecismo Maior de Westminster (P. 138) lista os deveres positivos requeridos pelo sétimo mandamento:
- Castidade no corpo, na mente, nas afecções, nas palavras e no comportamento, para casados e solteiros, cada um em seu estado.
- Fidelidade conjugal absoluta, exclusividade sexual e emocional dentro do casamento.
- Guarda dos olhos, dos pensamentos e da imaginação.
- Modéstia no vestuário e no comportamento, não por vergonha do corpo, mas por respeito pela dignidade própria e alheia.
- Escolha sábia do cônjuge, casamento “no Senhor” (1Co 7.39); casamento com quem compartilha a fé, no mínimo os mesmos princípios.
- Amor conjugal profundo e duradouro, cultivar a intimidade emocional, espiritual e física no casamento.
5.1 A Teologia da Pureza: Não é Repressão, É Proteção
Mauro Meinster destaca que a ética sexual reformada não é repressora, é protetora. A pureza sexual não é a supressão da sexualidade, mas sua proteção e cultivo no único contexto onde ela pode florescer plenamente: a confiança, o compromisso e a intimidade do casamento. Uma sexualidade exercida fora deste contexto, por mais “libertadora” que pareça culturalmente, deixa atrás de si fragmentação emocional, distorção relacional e a perda gradual da capacidade de intimidade verdadeira.
5.2 O Solteiro e o Sétimo Mandamento
O sétimo mandamento não governa apenas casados. Paulo em 1 Coríntios 7 e 1 Tessalonicenses 4.3–5 é claro: a santidade sexual é chamada de todo cristão, em qualquer estado civil. Para o solteiro, o sétimo mandamento requer castidade, abstenção de toda atividade sexual fora do casamento. Esta não é uma lei cruel; é o reconhecimento de que a sexualidade humana tem um telos, um propósito e uma direção, e que exercê-la fora deste propósito causa dano ao próprio praticante.
6. O Sétimo Mandamento e a Cultura Contemporânea
6.1 A Revolução Sexual e Suas Consequências
A revolução sexual do século XX prometeu libertação; entregou fragmentação. As evidências sociológicas convergem: o aumento dramático de divórcios, filhos criados sem pai, doenças sexualmente transmissíveis, trauma de abuso sexual e solidão crônica em uma cultura de “encontros” sem compromisso, tudo isso aponta para o custo humano real da rejeição da ética sexual bíblica.
Heber Carlos de Campos Filho não trata estes dados como argumento meramente sociológico, eles revelam que a lei de Deus não é arbitrária: ela corresponde à estrutura profunda da natureza humana que Deus criou. Quando a violamos, sofremos as consequências não porque Deus nos castiga imediatamente, mas porque estamos vivendo contra a natureza saudável da realidade.
6.2 Pornografia e a Igreja
A pornografia é a questão mais urgente do sétimo mandamento para a Igreja contemporânea. Pesquisas consistentes indicam que percentuais significativos de homens cristãos, incluindo pastores e líderes, lutam com uso de pornografia. Esta é uma crise pastoral de primeira grandeza. A resposta reformada combina: (1) diagnóstico claro, pornografia é pecado, é adultério do coração, destrói o casamento, as funções sexuais naturais, o psicológico e a vida espiritual; (2) compaixão pastoral, sem vergonha que paralisa; (3) comunidade de prestação de contas; (4) o Evangelho que perdoa e o Espírito que transforma.
6.3 Divórcio e Novo Casamento
Jesus, em Mateus 5.31–32 e 19.3–9, e Paulo, em 1 Coríntios 7.10–15, abordam o divórcio com clareza e nuance. A posição reformada clássica reconhece duas exceções bíblicas para o divórcio: (1) infidelidade sexual (porneia — Mt 19.9) e (2) abandono por cônjuge não-crente (1Co 7.15). Fora destas exceções, o divórcio viola o sétimo mandamento. O novo casamento “recasamento” após divórcio legítimo é permitido. A aplicação pastoral destas exceções exige discernimento cuidadoso, acompanhamento e aconselhamento pastoral.
7. FAQ – Perguntas Frequentes
Como a Igreja deve tratar pessoas LGBTQ+?
Com o mesmo amor, compaixão e respeito com que trata qualquer pecador, incluindo os heterossexuais que violam o sétimo mandamento. A posição reformada distingue acolhimento da pessoa e aprovação da prática: a Igreja deve ser um lugar seguro para qualquer pessoa que luta com tentações sexuais de qualquer tipo. O chamado ao arrependimento e à santificação é para todos. A recusa de redefinir o casamento ou de aprovar a prática homossexual não é intolerância, é fidelidade ao design criacional de Deus, que a Igreja acredita ser o caminho do florescimento humano.
Cristãos divorciados por razões não bíblicas podem se casar novamente?
Esta é uma das questões mais pastoralmente delicadas da ética sexual cristã. A posição reformada clássica é que o divórcio sem exceção bíblica mantém o vínculo matrimonial, e portanto o novo casamento “recasamento” seria adultério (Mc 10.11–12). Contudo, há debate dentro da tradição reformada sobre a extensão da graça do Evangelho a situações de divórcio passado. A maioria dos pastores reformados aborda estas situações com discernimento caso a caso, reconhecendo que Cristo perdoa o pecado passado e que a graça pode cobrir situações complexas, sem legitimar o divórcio fácil no presente.
Masturbação viola o sétimo mandamento?
A Escritura não menciona a masturbação explicitamente. A tradição reformada geralmente a avalia com base nos princípios do sétimo mandamento: se envolve fantasia sexual sobre alguém que não o cônjuge, viola o mandamento de Jesus sobre o olhar lascivo (Mt 5.28). Fora deste contexto, é uma questão de consciência pastoral. O princípio geral é que a sexualidade foi criada para a relação dentro do casamento, exercê-la solitariamente e habitualmente pode distorcer sua orientação relacional. Recomenda-se discernimento pastoral em vez de regra universal.
8. Conclusão: O Mandamento que Protege o Amor
O sétimo mandamento é, em última análise, um ato de proteção ao que há de mais precioso na experiência humana: o amor fiel, a intimidade genuína, a família estável, a sexualidade plena. Ele protege estas realidades da exploração, da banalização e da fragmentação que a cultura sem limites inevitavelmente produz.
A ética sexual reformada não é um conjunto de proibições amargas impostas por uma divindade hostil ao prazer. É a sabedoria do Criador que conhece sua criação melhor do que ela se conhece, e que, por amor, definiu o contexto no qual a sexualidade humana floresce em vez de murchar, une em vez de fragmentar, glorifica a Deus em vez de desumanizar o ser humano.
| “Deus não proibiu o adultério porque seja contra o sexo. Ele é o criador do sexo, e é exatamente por isso que o protege. O sétimo mandamento não é a voz de um censor ressentido; é a voz de um pai que ama seus filhos e sabe o que os destrói.” — Mauro Meinster |
Sobre o Autor
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Referências
Conheça mais: Este artigo teológico foi desenvolvido com base no conteúdo da Coleção Esboços Bíblicos Completos para Pregação Expositiva, uma biblioteca expositiva desenvolvida para auxiliar a Igreja na proclamação fiel do Evangelho.
- VOS, Geerhardus. Biblical Theology: Old and New Testaments. Grand Rapids: Eerdmans, 1948.
- CALVINO, João. Institutos da Religião Cristã. Livro II, Cap. 8. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
- CAMPOS, Heber Carlos de (Pai). Pregação Expositiva. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
- CAMPOS, Heber Carlos de (Filho). Série sobre o Decálogo. [referência pastoral].
- MEINSTER, Mauro. O Decálogo e a Vida Cristã. [referência pastoral].
- Catecismo Maior de Westminster (1647). Perguntas 137–139.
- KÖSTENBERGER, Andreas J.; JONES, David W. God, Marriage, and Family. 2nd ed. Wheaton: Crossway, 2010.
- DeYOUNG, Kevin. What Does the Bible Really Teach about Homosexuality? Wheaton: Crossway, 2015.
- FRANCE, R.T. The Gospel of Matthew. NICNT. Grand Rapids: Eerdmans, 2007.
- WENHAM, Gordon J. Story as Torah. Edinburgh: T&T Clark, 2000.
- STOTT, John R.W. Issues Facing Christians Today. 4th ed. Grand Rapids: Zondervan, 2006.
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